quarta-feira, 31 de março de 2021

tudo isso bebendo água

 Escrevi este texto na fila de pagamento de uma festa, no bloco de notas do celular. (DEZ/2010)




Eu tenho tido o imenso prazer de caminhar mais pela vida, de ter me permitido mais através de alguns descompromissos. O resultado disso tem sido mandar embora alguns conceitos antigos, adotar alguns novos. Os princípios que ainda têm salvação são mandados para a tinturaria, voltam remodelados para me vestirem melhor, adequados ao tamanho que eu resolvo medir. Mesmo assim, nada é definitivo.

Nas minhas caminhadas pelos becos do conhecimento – sobre tudo e nada – sempre encontro pessoas carregadas de bagagem. Furto um pouquinho delas e deixo nelas um pouquinho de mim. E, mesmo quando algumas diferenças são gritantes, é possível encontrar um ponto de convergência. Veja bem, não falei de concordância, não disse que entre as diferenças existe um ponto de opinião comum. Disse que há convergência, um momento onde o sentido apontado é o mesmo. E isso acontece por intuição, não por raciocínio.

Esta mesma intuição faz surgir um sentimento de intimidade, quase instantânea – palavra que eu não gosto muito. Eu não acredito em amores instantâneos, em paixões à primeira vista, nem em eternidades estáticas, mas acredito sim que haja uma maneira de reconhecer em alguém uma energia que nos faz aproximar. Esta teoria não é minha, isso é física quântica. Acredito que isso possa tanto somar experiências e sensações quanto diminuir o que somos, provocando vazio. Aí que começa a diversão, selecionar aquilo que vai ocupar esse espaço deixado. Ou apenas escolher mais um elemento para ser agregado ao que já existe.


Se estiver muito abstrato, eu vou tentar concretizar. Algumas pessoas fazem uma pequena participação na nossa vida. Essas guardamos na nossa estante, são estátuas, porta-retratos, dicionários. Sabemos que estão ali, podemos recorrer a elas sempre, as mãos alcançam com facilidade. Tiramos o pó, arrumamos a disposição de maior ou menor destaque. São facilmente removidas quando deixam de combinar com o resto da mobília. Outras pessoas são cicatrizes, são as marcas gravadas na pele. Dependendo de como tratamos, a ferida volta e sangra. Exigem mais cuidado. Dessas, eu me orgulho. Acredito que são essas as que me fazem brotar minhas inquietudes.

Não consigo imaginar uma felicidade sem conflito, uma vida completa sem sangramento. Não sei se eu conseguiria me desconstruir e reconstruir a ponto de ficar empatada entre sentimentos e atitudes. A minha filosofia é baseada em viver.

Preciso dessa tensão, o gosto cítrico e adocicado da ambiguidade acaricia meu paladar.

E antes que pensem que eu tenho talento para arrumar confusão (e eu tenho), vou dizer que está tudo bem. Meu pequeno universo de caos é harmônico. Não me transtorna. Eu assumo onde me dói, o que me sangra. Eu tenho meus furacões e explodo com facilidade. O que ninguém entende é que minha explosão é traduzida em um sorriso largo. Eu tenho satisfação em ser uma inquieta. Quando eu não tenho os porquês, faço questão de criá-los. Não faço questão alguma das respostas, mas das perguntas, eu preciso. O meu compromisso está em não ter certezas.

Inspiro interrogações, expiro exclamações, reticências e muitas vírgulas.

Minha sensação de liberdade reside onde eu possa conviver bem, independente dos erros, dos acertos, do círculo fechado, da pouca margem de negociação. Quem ouve minha fala calma nem imagina, né?!

Talvez eu não seja uma caixinha de surpresas. Talvez eu seja a própria caixa de Pandora.

(E só quem sabe bem a mitologia vai entender que isso é muito bom!)

tecle o que você quiser


Quando ligo pra alguém que não me atende, geralmente, mando mensagem depois. Se não é urgente, espero retorno. Nunca deixo mensagem na secretária. Detesto deixar a minha voz gravada. A ideia de um recado meu viver aprisionado em alguma caixa postal de celular me dá claustrofobia vocal. O que eu falo é pra ser levado pelos ares, diferente do que escrevo, o que me faz pensar que eu deveria ter mais cuidado com o que escrevo do que com aquilo que eu falo. Mas não tenho. Ultimamente não ando tendo cuidado com nada. Os descuidos têm invadido meus dias, eu nem me importo, tropeço.

Não gosto das secretárias eletrônicas de celular. Odeio apertar um para ouvir, dois para não ouvir, três para apagar, quatro para saber de onde veio, cinco para saber pra onde vai, seis para chamar a sua mãe, sete para repetir tudo. Ignoro a cartinha com sorriso no canto superior direito do visor.

Dezessete mensagens.

Foi questão de vida ou morte, precisei acessar o serviço. Quase ameaçada, entre a cruz e a espada, sucumbi ao asterisco-sei-lá-o-quê. Aperta aqui, aperta ali e não tem como ouvir só o último recado. Ai, ai, as belezas dos pequenos sacrifícios. Uma vez ouvi uma mulher dizer para o marido na fila da padaria: “eu sempre perco a minha novela para fazer a tua janta!”. Colocar uma televisão na cozinha, nem pensar! Seria o fim da reclamação, o fim do sacrifício, o fim da vítima, porém, sem morte. Muito indigno. Aproveitar para envenenar o marido dia após dia, também não? Jantar romântico diariamente, nem pensar? Escrever um livro de receitas práticas, muito práticas mesmo, para não perder a novela, jamais? E greve de janta? E todos os dias pão com ovo?

Acho que as pessoas têm pouca criatividade doméstica. Os relacionamentos adoecem disso. A rotina definitivamente não é a culpada.

As mensagens acumuladas de um mês são surpreendentes. Amigos bêbados, pai, mãe, avó, gerente do banco, amigo sóbrio e um engano. A observação mais interessante fica por conta das três mensagens da mesma pessoa que enviou aquela última que eu precisava ouvir. Não foram gravadas no mesmo dia, tiveram tempos e acontecimentos distintos. Preocupantes.

Há quem diga – e esse quem tem nome, sobrenome, endereço e apelido – que eu me preocupo com coisas vagas que eu mesma invento. Prefiro eu fazer pequenos boicotes e colher preocupações vazias do que ser atropelada por dúvidas terceirizadas. Por outro lado, preocupações que deveriam ser verdadeiras e tirarem o meu precioso sono acabam sendo motivo de piadas. Li em algum lugar que humor obscuro pode ser culpa de vírus e bactérias. Posso parar de dizer “é que eu sou de aquário”. Vou trocar por “a culpa é dos meus bichinhos e acho que isso pega.”

Voltando ao trio de mensagens. A primeira, logo quando nos conhecemos, por conflito de compromissos, não conseguimos nos encontrar como havíamos combinado. “Oi (um oi bem tímido), me liga quando puderes. Agora já estou livre. Se quiseres podemos almoçar (era 4 da tarde!) ou tomar um café. Beijo.” Recado dado na ponta dos pés. Foi, praticamente, o recado de uma bailarina, tamanha delicadeza e cuidado empregados nas palavras e no convite.

O segundo recado já foi mais íntimo, depois de uma dessas noites em que as garrafas vão surgindo em cima da mesa, os copos vão alternando muito rapidamente entre cheios e vazios. “Oi, só quero saber se já chegou em casa e está tudo bem.” A voz era de quem ia dormir com o pé no chão pra cama não girar. Só possuímos preocupações por quem já nutrimos certa dose de intimidade. Eu sempre alinhavo essa preocupação com curiosidade em saber se fui mesmo pra casa. Eu moro a mais ou menos cento e cinquenta quilômetros da praia, muitas vezes já errei o caminho e acabei vendo o sol nascer na frente do mar. Como era uma terça-feira, perto das duas da madrugada, acredito mesmo na hipótese do zelo.

A terceira mensagem que me fez escutar todas as dezesseis anteriores. “Oi, tudo. Olha só, eu sei que combinamos lá pelas 9:30, mas está passando um filme muito bom que começa às 7:30, então não sei se às 9:30 vou estar pronto, porque vou no cinema. Mas, me liga. Ah, se eu não atender é porque ainda estou no cinema. Bom, qualquer coisa, me liga depois. Beijos.” Nota da autora – eu mesma! – a pessoa já nem se prepara psicologicamente para me ver. Mata a família e vai ao cinema. Melhor, vai ao cinema e depois mata a família! Foi-se o tempo em que um jantar romântico exigia concentração.

Dona moça dos recados do meu celular, para intimidade, teclo o quê?

Vou cancelar o serviço de secretária eletrônica com a operadora. Não quero mais descobrir o tanto que as minhas relações modificam pelas mensagens que eu recebo. O único perigo será chegar em casa algum dia e encontrar o cidadão de cueca no meu sofá, zapeando o controle remoto da televisão bem na hora da novela. Daí, eu vou ser amiga da mulher da padaria – mentira.

(Parênteses: já que o blog é MEU, posso inventar, modificar, omitir, furtar, fuzilar, esquecer de propósito, adicionar, dramatizar e todos os outros verbos que impliquem em, resumidamente, fazer o que eu bem entender, inclusive mentir!) Bem digno narrar fatos alheios em primeira pessoa. 



faz-se mundo

 Procura-se alguém disposto a fazer mundo. Porque das pessoas que fazem tempestades em copo d’água, eu já estou farta. Por favor, apaguem esse holofote, desliguem a fumaça, mandem embora a platéia. Não quero esse picadeiro por aqui. Pelo menos não pra falar de amor. Não para sentir paixão.

Andei aprendendo que sentimento é confissão e que não se gosta sem antes ajoelhar para assinar na linha pontilhada a autoria de pelo menos um crime. Que por mais que alguma sedução seja necessária, a cara lavada das manhãs de domingo é o que faz um par seguir. Não é o amor cru, não é o ciúme ou a falta dele, não é o bilhete de eu te amo postado embaixo do travesseiro ou as rosas mandadas sem motivos, não é o romantismo, nem as noites de sexo ou os jantares à luz de velas, beijos de cinema, despedidas de novela no portão de casa. Isso alimenta, é o que engorda. E não é a não entrega o que preserva ou protege ninguém de chorar na companhia dos azulejos do banheiro. A gente toma paulada na cabeça e é proibido que isso justifique o desamor, a inércia de gostar, o vazio de sentimento. Os dias precisam de cor. Amigos são as melhores coisas do planeta, família é indispensável, trabalho é prioridade, mas o sentido da engrenagem vai pro lado certo com o coração quentinho. Mesmo que seja um coração saltitante, conjugar o verbo que o faz bater é uma necessidade física, talvez biológica, que a química tenta explicar.

 Ninguém se salva de ser surpreendido por um abraço com encaixe perfeito. Um sorriso racha no meio da nossa cara e a gente nem se dá conta.

Fazer mundo é complicado. Precisa de investimento, precisa ficar descalço dos costumes e nem sempre a pisada é confortável. E por que abrir mão da liberdade para abrigar na vida um estranho? 

Nem romântica eu sou.

Desagrada-me quem faz de um fio novelo. Costumo amarrar meus fios, costurar com eles, unir, dou aquele laço no dedo pra lembrar. Gosto de quem me dá linha, mais ainda de quem me dá corda. Gosto quando tudo parece combinar e nada parece ter sentido. Eu gostava de estar fazendo a coisa errada e jamais querer saber se haveria acerto. Tenho saudade de pequenos gestos, como ajeitar minha franja que insiste em cair nos meus olhos... E quando tudo se afoga em um copo d’água, somos forçados a deixar os dias pra trás. 

Voltaremos a sorrir. Voltaremos.



desculpa

 "Amar é jamais ter que pedir perdão”. Já repeti essa frase dezenas de vezes, ouvi algumas boas centenas. Conheci ainda pequena as palavras eternizadas no filme Love Story, foram proferidas pela atriz Ali MacGraw. Obviamente, na época, não fez muito sentido, mas, carregada de lirismo, me encantou. Eu achava mais que bonita, era parte de um universo que eu não dominava: amar e pedir perdão. Nas minhas infantis concepções de amor, perfeita. Nas minhas vagas concepções de perdão, adequada. Adaptava na justificativa de algumas travessuras.

Descobri que John Lennon contrapôs a frase dizendo que “amar é pedir desculpas de quinze em quinze minutos”. Não sei o que meu Beatle favorito, Ringo, diria sobre isso. Eu digo que me parece mais apropriado pedir desculpas ao que se gosta e muito mais a quem se gosta. Talvez digno seja pedir desculpas por gostar.

Hoje, vou além de John, discordo de cada letra do filme Love Story. Pedir perdão é o que se faz antes de tudo. Pedir perdão é o que se faz durante tudo. Justificamos deslizes com gestos para camuflar o pedido de desculpas. “Oi, tele-entrega de sorvete?” Talvez o certo seja pedir desculpas antes mesmo de dar bom dia, antes dos apertos de mãos e de qualquer primeiro apressado beijo. Reconhecer que se vai errar, que é possível deixar, em algum momento, concepções e teorias prévias tomarem o lugar do que, em realidade, se vê. Nem sempre ouço a minha percepção, na verdade, confio tanto nela que morro de medo de ser traída. O que me faz ser infiel a ela. Algumas realidades são invisíveis aos olhos apenas porque não é do nosso costume ver. A surpresa com o que é bom e inusitado embaralha a visão.

Considero uma grande virtude pedir desculpas, não por achar que engrandece caráter, mas porque não estamos acostumados a reconhecer os próprios erros a tempo de não serem definitivos. Faz mais bem a quem pede. Ando em um momento em que não me permito mais errar de propósito, mas ainda me permito errar. Por ironia, esse excesso de cuidado aliado à falta de prática do zelo, me leva ao equívoco. Parar, respirar e olhar para fora, depois para dentro é um dos melhores conselhos que alguém já me deu. Verbalmente fácil, ativamente amplo. Difícil, o olhar genuíno para o lado de dentro pode ser uma cirurgia sem qualquer anestesia. 

Francisco Bosco disse que os conceitos são superpalavras, palavras elevadas a uma alta potência, conquistada por extrema condensação de significados. Pra mim, o perdão é um desses conceitos. Concederia milhares de explicações aos pedidos de desculpa, nenhuma delas traduziria com perfeição o significado do ato. Aliás, as possibilidades do ato são várias. Não existe amor sem perdão, sem desculpas prévias, pedidas com ou sem palavras. Já pedi desculpas com sorrisos. Já pedi desculpas com singelos convites. Já pedi desculpas com carinho. Todas as vezes, desculpas com ressentimentos. Não o ressentimento de Nietzsche, nada de negação de valores. Mas ressentimento por ter sido traída pelos zelos que insisto em ter, ainda que os meus anjos e demônios sejam unânimes em dizer “se joga”, perdi o instinto suicida em algum dos muros da vida. O ressentimento é por não ver aquilo que eu acredito quando me foi dado em mãos pelo acaso.

Às vezes, eu canso de cair. Eu sei que só assim aprendo a voar. 

Acredito que eu devo aprender a me desculpar mais e melhor. Pelas vezes que eu perco a mão no tempero, pelas obviedades que eu deixo me assombrarem, por dúvidas imotivadas. Neste momento eu sou Sócrates e a minha mão treme para tomar cicuta.

O pedido de perdão é por não ter agido filosoficamente de acordo.

Apenas por curiosidade, já li que a cicuta foi apenas uma desculpa para a morte de Sócrates. O verdadeiro algoz foi a ignorância. Espero jamais ter que pedir desculpas por não saber, mas sempre poder reconhecer que não sei.





desarmada e perigosa

 



Não sou do tempo das cartas de amor. Sou no máximo do tempo de bilhetes em guardanapos. Eu gosto dos recados curtos de amor. Compenso a economia de palavras nos gestos. Isso não me leva a comprar cartões com dizeres ou me utilizar do que alguém já disse, não. Uso as minhas palavras originais de fábrica, ainda que encontre nas citações alheias e nas canções muito do que eu quero dizer.  Minhas declarações são um sem-fim de sem-tempo. São quase impensadas, quando não são de fato! É uma autenticidade mucho loca.

 Tenho vivido o que acredito. Pena que não posso dizer "desde que nasci", outra hora isso vira assunto. Tenho encontrado o escambo de informações, filosofias, palavras, carinhos, peculiaridades que me absorvem como faria um buraco negro. Tem sido interessante me entregar às mesmas coisas que sempre me fizeram correr léguas sem olhar pra trás. Não tem como negar a série de incríveis começos que estão acontecendo, a atração de tudo como se houvesse imã, o encaixe desenhado por dedicados arquitetos. Ando me dedicado como nunca, por vontade minha. Fiz até tema de casa, só não ganhei estrelinha no caderno. Faço por mim. Quando fico sozinha, concentrada em algum afazer, uma sacola de pensamentos voadores invade minha mente. Peço licença, não sai. Em seguida vem a lembrança. 

Esse negócio de gente com alma grande me fascina. Alma que não cabe no corpo, com tanta energia acumulada que se sente preso. 

 Eu me pego rindo sozinha, até durante o banho. “Eu sou uma ridícula” é o que vem logo depois do meu próprio flagrante de devaneio. Fico até encabulada na frente do sabonete.

 Ando quase uma terrorista. Esbarro em mais coisas por metro quadrado. Eu, apaixonada, sou quase uma tragédia ambiental. Respondo coisas desconexas para perguntas simples:

- Açúcar ou adoçante?

- Quarta-feira.

- CPF na nota?

- Prefiro verde.

Se me pedem para abrir a janela, volto com um copo de água. Preciso ligar para alguém, pego o celular e verifico se tem mensagem. Não. Ligar pra quem, mesmo? Quase dei banho na cadela usando carpex, vidrex, errorex. Ando perigosa. 

Escovei os dentes duas vezes antes de dormir.

genérico da ritalina

 abril 23, 2011

Já confessei minha inquietude várias vezes. Já disse que raramente sossego, que estou sempre mexendo em alguma coisa, pinicando alguém, atormentando um gato. Adoro passear pela casa desalinhando algum quadro, trocando fotografias de lugar. Adoro transplantar a vegetação. Se estou quieta ou estou lendo ou morri. Aconselho verificar. Mesmo dormindo, minhas ideias estão acontecendo. Percebo isso quando eu acordo, parece que não descansei, mas pensei sobre muitos assuntos. Minha mente é inquieta. Meu cérebro não respeita ordem, organização, hierarquia. Leio três livros por mês, às vezes mais. Nunca primeiro um depois o outro. Sempre tudo ao mesmo tempo. Estou concentrada numa coisa, outra vem e invade, emendo as duas, pronto. Prejudiquei o soneto. Falo sobre coisas grandes enquanto penso em pequenices e vice-versa. Inicio na lista do supermercado. Termino na previsão do tempo. Sendo que passei pelo horóscopo no meio dos assuntos. Durante um café alguém me disse “tu és uma usina”, referindo-se a essa minha falta de foco. Odeio reuniões. Não consigo ficar concentrada numa coisa só. Faço reuniões de corpo presente e mente oscilante. Vem, olha, vai. Repete. Gasto calorias nessas caminhadas de ideias.

Não gosto quando dizem que eu tenho TDA. Prefiro que me encarem como uma pessoa plurifuncional de pensamento difuso. Só isso.

Outro dia perguntaram-me se eu tratava meu TDA. Nunca fui diagnosticada porque nunca fui ao médico para saber se tenho TDA. Mas creio que sim. Meu pai tem, minha irmã tem, minha mãe – provavelmente – tem, logo, por que eu não teria? Sofreria pela exclusão familiar. Poderiam me pedir teste de paternidade. Primeiro que não sou parecida com ninguém. Ainda por cima vir sem TDA?! Praticamente um sinal de nascença. Uma marca registrada do meu clã.

Então tenho TDA, tudo leva a crer. Porém, acredito que sou muito disciplinada. Muito mesmo. Quando digo que sou estudiosa, não me levam a sério, mas é verdade. A meditação me ajudou muito nisso. Aprendi que preciso de um momento do dia para parar e respirar. Suspirar. Preciso observar. É a folga dos meus atropelos. A usina é carregada de combustível. Varro pra dentro quase tudo que vejo. Limpo a casa, mas encho a cabeça de quinquilharia. Um dia pode servir pra alguma coisa. Um dia posso fazer um brechó!

O resultado oscila entre a perfeição e a tragédia. Não que a tragédia não possa ser perfeita, mas é dona de uma perfeição retorcida, de difícil compreensão. Olha o que são as tragédias gregas, a complexidade. As minúcias, os detalhes. Não se pode deixar passar nada. Coisa que uma pessoa com TDA só consegue com muita disciplina. Aconselho a meditação para todos que conheço. Um momento dedicado à observação, ao pensamento livre. Um encontro com energias superiores. É quase uma oração rezada de fora pra dentro. Acho que Deus fica mais satisfeito comigo quando medito do que quando eu declaradamente rezo. Mas meditação nem sempre se faz num quarto escuro, abusando da solidão.

Esta semana sentei no cordão da calçada e fiquei observando as árvores no outono. Elas se despedem das folhas, as atiram no chão como se fossem beijos de gratidão. É o jeito que as árvores têm de agradecer ao chão por cuidar das suas raízes, permitir que elas ali se estabeleçam e se alimentem. É um ciclo interessante. Porque as árvores ficam nuas no outono e muito vestidas na primavera. Daí elas estão mostrando que a natureza sabe o que faz. Nós também perdemos as folhas nos nossos outonos. Velamos o que não temos mais. Elaboramos nosso luto como quem passa por um inverno rigoroso e depois temos a primavera. É da nossa natureza florescer. É da nossa natureza que venham as flores depois dos períodos de frio. Deus sabe o que faz. Alinhava tudo, faz de todos os eventos a colcha de retalhos da existência. Por isso as nossas atitudes exigem cuidado, haverá repercussão. Em algum lugar, em algum momento, causa e efeito. Estamos unidos.

O momento foi gratificante, o sol estava indo deitar atrás das nuvens. As cores e as texturas do céu eram pintadas em aquarela. Parar, respirar, olhar pra dentro, olhar pra fora. Deus não nos deixa recado na geladeira, porque o que Ele diz não se lê só com os olhos. Precisamos disciplinar nossas vidas, mas precisamos mais disciplinar nosso espírito.

Ter a mente inquieta pode ser uma dádiva.

Mas um espírito inquieto é preocupante.

Para mim a paz de espírito é o genérico da ritalina.




errata

Oi. Vim desdizer. Só vim pra desdizer, essa é a grande verdade das próximas linhas. Isto não é uma crônica, é uma borracha. É um backspace, um ctrl + z, um delete, um eject. Entendam como bem quiserem, porque duvido mesmo que alguém se disponha a querer de fato entender. Supor é mais fácil. Prever é mais cômodo. E quer saber? Certo está quem faz isso.

Aquele medo que eu havia mandado sentar no canto está aqui na minha frente, rindo da minha cara, dizendo “eu te avisei”. Chutaria ele, mas não costumo fazer isso com quem tem razão. O medo é o grande vencedor, leva todos os prêmios. Leva todas as vidas. Abraça a todos. É o sentimento mais confortável, porque não se foge dele. O que não é bom, queremos longe e ninguém ou quase ninguém – faz isso com o medo. Pelo contrário, o medo é mantido pertinho. Sem enfrentamentos, sem discordar, nada se questiona. Medo é a perfeição da preguiça. Amar dá trabalho. Sentir medo, não. O amor é importante, porra. Vi isso pichado num muro. Parem. Não é.

Não mandem flores, não mostrem preocupação, não sintam saudade. Não retornem ligações, não mandem mensagens carinhosas, não sonhem com ninguém. Não cultive sorrisos, não abrace, não vele a beleza de um sono. Não explique suas teorias, não diga quem é, não seja intenso, não diga o que sente, o que prefere, do que gosta ou o que odeia. Tudo será suposto, não derrame você. Ninguém quer secar.

“APESAR DAS MUITAS CONVERSAS, POUCA COISA FORA DITA. O ESSENCIAL SEMPRE FICARÁ NO FUNDO, ESMAGADO PELA SUPERFICIALIDADE.” São palavras do Caio Fernando Abreu, estavam nas paredes do meu quarto pra que jamais esquecesse de tirar o essencial do fundo, jamais deixasse a superficialidade esmagar o meu essencial. Bobagem. O essencial que permaneça no fundo. A superficialidade é o que se quer. O essencial é um Hades. É um monstro de sete cabeças. Um cogumelo venenoso. Uma barata na cozinha.

Caio também disse que os dragões não conhecem o paraíso, é meu texto preferido. Eu, como bom dragão, jamais conhecerei. Sigo o destino de ter sempre razão em incinerar frases ditas por outros alguéns, de acordar diferente do normal, de fazer barulho demais, fazer muito alarde. Não vejo a banda passar porque eu sou a própria banda. Andar na ponta dos pés é um esporte que eu nunca soube praticar. Eu sou inquieta e faço bagunça. Sou desmedida. Não peço licença, não pedia desculpa.





simpatia para o dia dos namorados

 junho 12, 2011

Eu adoro o dia dos namorados. Verdade. Posso não gostar das vitrines com overdose de coração, das floriculturas com balões que atropelam as pessoas nas calçadas, das propagandas bestas com diálogos previsíveis, das promoções de motéis. Ah, tem o comércio atipicamente romântico, como petshop e ferragem. Dê um serrote parar o seu amor. CUIDADO. Enfim...  gosto de toda a função do dia doze de junho. Entro no clima, com ou sem namorado, fico mais romântica - do meu jeito -, me pego procurando rimas de primário para dar bom dia. Atendo o telefone com voz melosa, mesmo sendo o marketing do banco me oferecendo cartão de crédito. Cada frase soa a miado de gato esperando a tigela de leite. Acaricio os móveis da casa como quem faz cafuné no cabelo do namorado – e isso quando estou verificando se há pó na mobília. Canto Djavan tomando banho.

Hoje, pela manhã, a manteiga do pão carimbou a beirada do prato com uma mancha que parecia um coração. Mostrei para a Sú:

- Olha!

- Arram, manteiga.

- Não, olha bem, é um coração.

- Queres um guardanapo?

Sueli está lá em casa desde quando eu tinha 15 anos, devo ter herdado alguma coisa da personalidade dela pela convivência. Eu juro pelos meus botões que era um coração de manteiga, uma declaração de amor do meu café da manhã. Uma singela demonstração de afeto gravada na louça fria. Comi meu pão com manteiga e tomei meu café preto sorrindo pelo agrado matutino. Foi tão galanteador quanto receber flores.

O dia dos namorados não depende de ter um namorado. É puro estado de espírito. Por isso, não entendo as rivalidades entre solteiros e não solteiros. Não sou apreciadora das brincadeirinhas, das comparações, das infinitas enumerações de vantagens e desvantagens. Os prós e os contras não são combatentes. Para ter namorado, aconselha-se sentimento, porque namorar para ter alguém deve ser muito triste. Ao passo que, não ter quem se ama, deve, igualmente, fazer um solteiro ser infeliz. Nota: já disse que gosto de amor platônico?

Por isso, optei por me embriagar do sentimento do dia dos namorados. Assovio para os pássaros, suspiro pelos cantos e vejo flores em você. Vejo flores em todo mundo. Em qualquer coisa. Passo vinte e quatro horas caída de amor! Faço toda a preparação nos dias anteriores, decoro Neruda, transformo Vinícius de Moraes em rei, compro roupa nova, escolho perfume. Distribuo sorrisos como quem dá as cartas em jogo de pôquer.

Já disse que o amor é jogo de cartas marcadas? Sabia que eu sou desonesta na canastra? Eu aviso, sou desonesta, não mentirosa. 

Dia dos namorados é assim, muito mais uma questão de estado de espírito do que de companhia. É paixão literal generalizada. É se dar ao trabalho de preparar o figurino para que o dia abra as cortinas de acordo com seu nome de batismo. É recitar Shakespeare para as nuvens: “Duvida da luz dos astros. De que o sol tenha calor. Duvida até da verdade. Mas, confia em meu amor.” É brindar de taça cheia, com alguém ou com a própria sombra. O amor não tem calendário. O amor acontece todos os dias. Independe de companhia. Alguém sabe como começa o amor? O dia, a hora? A informação exata para a certidão de nascimento. Duvido. Amor é coisa que acontece. Difícil, raro, exigente. Tem amorzinho e amorzão. Tem para sempre e já foi antes de ser. 

Solteira ou não, namoro sempre com a felicidade. Um flerte infinito de disposição para viver todos os dias, inclusive, o dia dos namorados. Por isso desejo, para os namorados e não namorados, muita felicidade e muito amor, lembrando as palavras de Clarice Lispector: “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

E, para o dia dos namorados, solteiros e não solteiros, aconselho a simpatia. Sorrisos para a data, a breguice, para a overdose de corações colados na vitrine, para os apaixonados. O dia dos namorados é legal. 



óculos para ver encrenca

 junho 18, 2011




Se eu tivesse que pedir algum conselho amoroso, jamais pediria pra mim. Opto com muita frequencia pelos riscos, por avançar os limites do que apenas parece ser. Prefiro testar, não sei, sou da opinião que é válido o que faz o coração bater ou parar. Mais parar do que bater. Aliás, sou a favor do que consegue parar tudo. Ponteiros do relógio paralíticos, pessoas brincando de estátua, paisagem pintada em escala de cinza, nada mais existe além de um número: dois. Olhando bem, um. Mas são dois. Dois, inteiros, completos, únicos no mundo que tiveram a insensata felicidade de se encontrar – ultimamente ando reparando na felicidade, ela é insensata, outra hora eu explico o porquê, preciso falar sobre conselhos e óculos.

Sem entrar em detalhes sobre os personagens da história, peço licença a toda a literatura de qualidade para iniciar o relato da forma mais clichê que consigo: Noite dessas um amigo me procurou. Queria conselho amoroso. Estava sentado em um muro, pra lá namoro, pra cá, a solteirice. O que ele queria? Namorar. Por que não namorava? Porque acreditava que a pretendente era, nas palavras dele, encrenca. Não conversamos um suspiro sobre os motivos dela ser ou não encrenca. O que meu amigo queria não era bem um conselho. Queria me usar de óculos.

Para as questões que já sabemos as respostas, óculos. É a prova real da certeza, melhor de três, escolha por maioria de votos. Ao perguntar o que o outro acha, já sabemos o que é. Precisamos da concordância, do aval. Fazemos empréstimos dos argumentos. É como pegar livro na biblioteca.

O fato da pretendente em questão ser encrenca, já estava diagnosticado. Sabemos o que as coisas são por seus contornos. Identificamos o cheiro, onde estão, o que fazem, que cor têm. Sabemos o que é ainda que não seja perfeitamente nítido. Sabemos o que é quando a certeza do equívoco é menor do que a certeza da certeza. Mas a gente tem astigmatismo da verdade, enxergamos fora de foco e distorcido o que já sabemos que é. Usamos o outro como óculos. São nossas lentes tóricas. Nossos óculos permitirão a concordância com o que narramos, não a certeza, essa já existia.

Quanto ao fato de ser encrenca, não justifica descartar a pessoa. Boas encrencas rendem boas histórias. Passados não podem condenar futuros quando o assunto é relacionamento***. Há riscos. E eu acho os riscos muito tentadores... Talvez desafiar a razão seja a melhor pedida. Talvez desequilibrar a balança pro outro lado possa valer a pena. Eu sei que ninguém mais quer brincar de namorar. Sei que ninguém mais quer levar a vida amorosa como quem empina pipa, conforme sopra o vento. Somos todos conscientes disso, não?!

Mas o que se perde? Umas noites de sono, umas fronhas de travesseiro, umas garrafas de vinho. Ouvir “eu te avisei”de alguém que tenha avisado vai fazer eco no ouvido tanto tempo quanto doerá a queda. Mais uma cicatriz, mais um band-aid emocional. Mais porquês sem resposta. Isso se houver a queda. Só cai quem sobe e só sobe quem quer arriscar. Arrisca quem está vivo. Respirar já é arriscado.

Ainda não encontrei amores enlatados, com indicação de consumo e quantidade de calorias. Se for light, então, nem quero! O amor é improvável. Partindo daqui, qualquer risco está justificado. A próxima jogada é exercitar a sinceridade. Assuma o medo, ele existe e é seu. Mas não deixe que ele cochiche no ouvido o que deve fazer. O medo é prático e patético. Amigo perfeito da preguiça.

Estamos tão mergulhados na ideia de encontrar a pessoa certa que não percebemos que nem nós somos a pessoa certa. Existe a relação certa, com alegrias, tristezas, frustrações e desmedidos amores inclusos no pacote. O encontro certo. Toda a encrenca tem direito ao amor! Às vezes tudo que uma boa encrenca quer é alguém disposto a fazer confusão junto. Alguém disposto a errar junto, pra depois rir junto e aprender junto. Alguém disposto a estar junto, esta é a grande raridade. É monótono estar sempre certo. É triste estar certo separado.

Um voto a favor da encrenca.

é paixão

 As paixões são como ventanias

que enfunam as velas dos navios.

 Algumas vezes os submergem, mas

sem elas não se pode navegar.

 (Voltaire)







Uma patrola desgovernada, esta sou eu apaixonada. Por favor, não façam essa cara de horror. Todo o apaixonado é qualquer coisa desgovernada. Eu apenas assumo a falta de direção, de rumo, de jeito de medida, a falta de mim, a falta do outro. Assumo todos os excessos, uso os sapatos dos superlativos. As intensidades vêm morar em mim. Minutos viram horas, o telefone que não toca causa dramática asfixia. Morro lentamente ao descer a escadaria imaginando que preciso ir embora. Lamento a distância de passos. Sou mais atenta nos instantes dele, desatenta do resto, criativa no mundo. Crio legendas para o silêncio que me constrange. Agito os olhos.

Qualquer música lembra o contorno do corpo fazendo sombra no teto do quarto. Lembra a luz que entrava pela janela porque a noite era de lua cheia quando falamos por telefone. Revivo o que não aconteceu. Acredito em telepatia, sinastria, mandinga, simpatia, cartomancia. Acredito em qualquer coisa que não explique.

Paixão não tem explicação. Esconde os porquês no bolso da camisa. Pesam no peito, mas não queremos saber deles. O coração já está tão descompassado que o peso das dúvidas é só mais um. Há um provérbio que diz que quem pensa não casa. Pois quem explica não se apaixona. A paixão debocha da racionalidade. Ri da lógica. Divide as contas com resto, com troco. Quem se apaixona casa. Eu caso na hora. Caso de caso impensado. Vou lá e caso, com a mesma certeza de quem pede refrigerante light. Com a mesma coragem de quem vai ao boteco e bebe leite.

A paixão dá golpe de estado para decretar a anarquia.

Não existe paixão pensada. É admitido o beijo de surpresa, aquele que se aproveita da pausa para o suspiro. É quando se faz castelo de areia movediça e se caminha em algodão doce. É ter cara de besta. A paixão faz repetir o nome da pessoa em voz alta quando se está sozinha, faz fechar os olhos para visitar as palavras que já foram ditas, procurar as vírgulas que não foram ouvidas.

É irônica como atear fogo no quartel dos bombeiros. Desmedida. Insistente. Inconveniente. Inesperada porém bem-vinda. É saltar antes de verificar o equipamento de segurança.

Eu, apaixonada não tenho garantia. Peça-me o infinito, eu trago embrulhado em papel celofane, com laço de fita mimosa. Peça-me um mundo que eu invento. O impossível? Eu mando fazer. Eu faço chover, eu danço na chuva, corro nua. Eu preciso de abraços de camisa de força porque paixão é o nome curto da insanidade. É escrever o nome de seis letras no espelho embaçado do banheiro. É ter soluço porque desaprendeu a respiração. É ser afoito, precipitado. É talhar perfeição. É urgente.

Paixão é o atraso antes da hora marcada.

Eu sou perigosa quando me apaixono. Sou terrorista. Sequestro estrelas. Penduro sorrisos no lugar de quadros nas paredes. Faço tsunami em banheira e tempestade em colher de sopa. A minha paixão é sócia do clube do caos e praticante de felicidade explícita. Louca e dócil.

Apaixonada, eu faço carnaval em julho. E não explico a fantasia.

Assinado, Osama Bin Kuky

é o amor (ler isso em ritmo sertanejo)

 


Desculpem, mas é mentira. Se alguém disse que o amor vai bater na sua porta, é mentira. Irão bater cobradores, carteiros entregadores, jornaleiros, pedintes, vendedores, panfleteiros, visitantes, andarilhos, perdidos, desocupados, catequistas. O amor não. Ele não bate na porta, quando a encontra fechada, ele pula a janela. Mas o amor é raro e esquece do começar. Ele acontece. Sem que ninguém saiba dizer quando ou definir por que, o amor apenas existe. E quem ama não precisa entender, nem vai. Amará e pronto.

Quem muito quer explicar perderá o tempo de amar. E vai gastar latim à toa, o amor fala a língua dos loucos.

O amor não é procurar a metade da laranja ou a tampa da panela. Não é encontrar na carta de vinhos o que mais combina com o prato principal. É temperar junto. Amor não vem pronto, mas pode ser instantâneo, inexplicável, fatal. Amor não tem motivo, ignora os porquês e não vem quando a gente chama.

Ando discordando de um montão de gente em matéria de amor. Um amigo citou Goethe “o verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo”. Torci o nariz pra ele. Penso diferente, o verdadeiro amor não precisa permanecer independente de tudo. O amor é faminto, é fogueira que precisa de lenha. Pode ter muitas mortes, como nós temos, pode ir e vir centenas de vezes, pode ficar porque quer ou porque não lhe deixam partir. O amor é imprevisível, mas não é submisso. É decidido. Amor verdadeiro é o que tem jogo de cintura, que sabe ser camaleão, que muda, transforma, não implora, pede com os olhos. Lê o braile da pele. Também não concordo com Leonardo da Vinci dizendo “o amor é filho da compreensão, o amor é tanto mais veemente, quanto mais a compreensão é exata”. O amor passa longe da compreensão. O amor não nasce dela e nem de ninguém, porque nao nasce.

Podemos saber o dia do primeiro beijo, o dia que começou o namoro, o dia do casamento. Nunca saberemos o dia que começou o amor, quando ele aconteceu. O amor esquece de começar. Ele acontece. Ele surge. Amor não tem marco, amor marca. Não se define porque amor é todo o resto.

O meu amor não é tranquilo. Posso discordar do Cazuza? Não quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Amor tranquilo não é sorte, é azar. Não amo para não fazer barulho, não amo para ficar tranquila e não incomodar. Amo para incomodar e muito, mais que o normal. Amo para deixar furtarem meu sono, meu chão, minha comida, minhas palavras. Amo para justificar a intranquilidade do coração. Amo pela vontade de ser insatisfeita, pelo desejo de descobertas infinitas. Amar é conhecer alguém tão bem que sempre se possa perguntar algo. A resposta é o de menos. Amor não é resposta. Amor é aposta. É proposta.

Amo quando uso da mesma dedicação para esticar a toalha da mesa e os cílios. A toalha é o lençol das conversar. Os cílios são os convites para um abraço. Pisco como abano de leque. Amar é seduzir os segundos. É dedicação e cuidado. Amar é plantar a intimidade no canto da boca, regar com beijos para que brotem em sorrisos. Rir junto é tão íntimo quanto se despir.

Amo quando ajeito a gola da camisa e repito os avisos de sempre. Recomendo cuidado. Amo o descuido, a porta aberta, a música esvaziando o copo de vinho. Amo quando abro os olhos como cortina. Amo quando conseguem me parar, quando roubam as palavras de dentro da minha boca. Quando suspiro. Quando fecho o olho para uma cena invadir a mente.

Amo o beijo antes de acontecer. A espera na janela. Amo os nãos, as tentativas de me parar, a inteligência em respeitar os pequenos desaforos, se atirar no sofá para rir da rotina no fim do dia.

Amor é surpresa. É forte e inusitado. Amor é decorar os passos do umbigo até a nuca. É jurar em falso, mandar embora, abrir a porta e esperar que volte. Amor é o que vem depois. É o que se diz sem querer.

Amar é carregar nos bolsos a intranquilidade.

Amar é fazer pintura com o dedo. Contornar o rosto para lembrar, esquecer e lembrar de novo. Amar é não ficar, é ir e vir diversas vezes por caminhos diferentes. A fidelidade do amor está no destino.

O amor carrega uma etiqueta: inflamável, manuseie sem cuidado. E assim, posto que é chama... Não discordo do poetinha, que seja eterno enquanto dure.

Juro que eu não estou blefando!

aquela coisa

 Costumo ser o terror dos dicionários. Eles me detestam por inventar palavras, transformo nomes próprios em adjetivos, conjugo subjetivos, faço uma verdadeira orgia de palavras. Sempre quero inventar uma maneira inédita de dizer coisa simples, pelo prazer único de testar complicações imaginárias. Olho assim, com cara de criança que enfiou o dedo no bolo antes da hora de cantar parabéns.  Espero ansiosa que me implorem explicação sobre o dialeto. Por maldade, muita vezes, não explico. As interrogações são amigas. Ou navalhas.



É mania do mundo dar nome pra tudo. Antes mesmo de saber o sexo do bebê, já se pensa no nome. Apressa-se o batismo. E se a criança não tem a cara do nome? Os pais escolheram Leonardo, nasce um menino com cara de Marcelo. Os pais escolheram Laura, nasce uma menina com cara de Patrícia. Não deixamos nada ser anônimo em paz, pelo menos um apelido precisamos colocar. Tem um apelido que serve pra tudo: “ aquela coisa”.


“Aquela coisa” não tem sexo, gênero ou caráter. Serve pro bom e serve pro ruim. Pode ser a moldura da preguiça. Quem não quer pensar no que sente, embrulha logo num “aquela coisa”. Deu, cada um entende como quer. Uso “aquela coisa” cada vez que penso no que eu sinto e não sei que nome dar. Passa um pouco da linha de gostar, não é amor, não é paixão. Posso gastar neurônios e mais neurônios pensando, pode sair fumacinha das minhas orelhas. O sentimento não tem nome. Fica mesmo com o apelido. E quem nunca sentiu “aquela coisa” que atire o primeiro coração partido. Você sente saudade, sente falta, quer estar junto, mas não muito. Quer ligar, mas esquece. Quer que o outro ligue, mas se, por obra do destino, não ligar, tudo bem. Ou não, você não está num bom dia e “aquela coisa” resolveu sentar no peito e pesar. Ele não ligou para o celular, mas ligou seu botãozinho do drama.


- Mas nem parecia que tu gostavas tanto dele.

- E não gosto!

- Então por que isso?

- Não sei. Pode fazer o favor de me deixar?


A intensidade é variável. A sensação é inominável. Qualquer um é livre para sentir o que quiser e chamar como for. O coração é livre.


É um vazio de palavras recheado de sentimentos. Quanto mais se explica, mais se entra em contradição. Mil voltas no mesmo lugar. As emoções não são vazias, não é uma falta do que sentir. Sentimento há, só não se sabe o quê. É doce? É salgado? É macio ou crocante? Vem antes do amor? Depois? Sinceramente, não sei. Só garanto que existe.

as vírgulas de van gogh

 agosto 19, 2011








Certa vez eu me comprometi em ter modos. Nesta vontade doida que eu tenho de viver, sentir, fazer tudo, esquecia as valiosas pausas. Emendava um fato no outro sem perceber que muito precisa respirar. E que eu preciso respirar também. A maior prova de que não sabia fazer isso eram as constantes crises de soluço. O meu diafragma debochava de mim. Aprendi a respirar melhor, a colocar vírgulas nos períodos longos. Pontuação na história da vida vale economia de aborrecimento. Melhora a chance de visualizar o momento.

Van Gogh pintava vírgulas. Muito se discute sobre a saúde mental dele, sobre os comportamentos e o quanto disso era transferido para a arte. A obra conhecida hoje só fez sucesso depois da morte, porque em vida, vendeu apenas um quadro. Apesar de ter quatro irmãos, Theo era o único com quem conversava, era também o único amigo.

Mas voltando para as vírgulas de Van Gogh, em especial as destacadas em Noite Estrelada (1889), para mim as estrelas são muito mais sóis. Ele pintou esta tela durante uma das últimas internações psiquiátricas. Em plano mais próximo, aparece um cipreste e longe a cidade, o que já mostra a predileção pelo isolamento e pouca companhia. Preferível estar com uma única pessoa, íntima e conhecida do que inserido na multidão, porém sozinho. Talvez isso explique a escolha de Theo como seu melhor amigo, para quem enviou muitas vírgulas escritas em oitocentas cartas, ou mais. Van Gogh utiliza muito mais área da tela para se dedicar à pintura do céu do que qualquer outro elemento, o que sinaliza a predileção pelo plano das ideias.

Ao pintar esse quadro, em uma das cartas para Theo ele diz: “Quero expressar a esperança por meio de alguma estrela.” Notem que todas as estrelas são pintadas em amarelo, cor favorita de Van Gogh. A cor amarela traz uma reflexão interessante, porque é uma cor aquecida, que ilumina. O amarelo chama a atenção, é relacionada à felicidade. Um dos maiores sonhos de Van Gogh era manter uma fundação chamada casa amarela – que ele também pintou – onde seriam produzidas obras de arte, servindo de escola e recanto de artistas plásticos. Se a felicidade não era presente na vida, ele a pintava na arte. Queria entrar na casa amarela como forma de obrigar a felicidade a aceitá-lo.

Assim também foi com a pintura dos girassóis, mais amarelo, mais vírgulas.

Os traços ondulados que encaixam uma pincelada na outra, feitos com pressa e força, não chegam a misturar as cores. A imagem varia de tom por causa da individualidade que o traço define. Aqui era onde eu queria chegar. Van Gogh teve uma vida afetiva tumultuada. Tentou por quatro vezes viver o amor. Fracassou. Em nenhum dos casos a história teve início, meio e fim. Elas começavam e acabavam em vírgulas: a filha de uma patroa, a prima viúva com filho pequeno, a prostituta alcoólatra grávida e por fim uma solteirona, em todos os casos ele buscava assumir um lugar que não era seu. Em todos os casos, foi rejeitado.

Acredito que optamos por nossas vírgulas por certos comodismos. Saber a hora de um ponto final exige pesar muito bem a história inteira. É fácil se encaixar em um lugar vago, entrar num período vazio. Complicado é conquistar um lugar nosso. Deixamos que medos e inseguranças nos levem a fazer comparações que o que aconteceu antes, de forma que buscamos ser continuidade da história. Cada história é uma nova história. Somos tintas avulsas ondulando na tela, fazemos parte da imagem, mas o quadro só faz sentido quando pronto. E aí é hora de parar, olhar. É o ponto final.

Nossa mania de insistir e negar os fins, batizar o que acabou na pia do fracasso, impede a respiração. Precisamos saber parar. Quando o investimento é suplício, poupar é a solução.

Não coloco mais vírgulas nos meus finais. Atribuo três pontinhos, se tenho preguiça de pensar. Os pontos podem doer, mas são sinceros. As vírgulas são as nossas continuidades infinitas, muitas vezes motivadas pela vaidade. Sejamos francos, não há nada que proíba novos começos. Um olhar brilhoso revisto pode acender a vontade de requentar um amor antigo no microondas. Não há regras para amar. Nem para deixar de amar. O que não vale é ser triste, ver a felicidade como um sonho de uma casa amarela. Não quero morar na casa amarela, quero ela morando em mim.

 Mais vida, menos projeção. Mais pontos (de exclamação, de interrogação), menos vírgulas.

Van Gogh pintava quadros novos com as mesmas tintas, pode ser que não soubesse transportar isso para a vida, em especial para o amor.

Talvez eu não tenha modos, mas me comprometi em parar e admirar as telas.

Mais respiração, menos soluços.


****

Eu poderia ficar falando de Van Goh por textos e textos. Interpretaria a sua obra inteira, tamanha riqueza. Numa das cartas para Theo, ele escreveu algo que me agrada muito:

"Dizem, e creio, que é difícil conhecer a si mesmo, mas também não é fácil pintar a si mesmo".

ciência, arte e nós com isso

 agosto 31, 2011




Nunca comprei um relógio que já viesse com a hora certa. Mesmo quando a vendedora arrumava na loja, ainda não era a minha hora. Oito minutos na frente caminham os meus relógios. Os  que pararam por falta de pilha, assim marcavam. Oito minutos nos ponteiros, mas não no meu tempo. Esse voa.

E porque meu tempo é diferente do cronológico, com meus tic-tacs atípicos, eu não uso relógio. Gosto de ter, ganhar, comprar. É um objeto lindo, cheio de simbolismos. Quando falei sobre deles e da hora certa, estava falando de pessoas. Nunca vi os ponteiros das pessoas marcando hora certa já de início. Nem presenciei ponteiros que não precisassem de ajustes com o passar do tempo.

Cada um tem seu tempo e seu espaço. Isso é real, é fato, é científico. Einstein se dedicou a escrever sobre a teoria da relatividade restrita. Esta é diferente da primeira teoria da relatividade, de Newton, onde as forças e espaços são iguais para todos os observadores inertes. Einstein não disse que Newton estava errado, apenas referiu que em caso de mais de um observador em movimento, a uma determinada velocidade, as noções de tempo e espaço se alteram. O que isso tem a ver com as pessoas? Simples. Somos seres em constante movimento, mas não em velocidade constante e jamais na mesma velocidade. Somos nômades das próprias ideias, variáveis infinitas de possibilidades e isso sem sairmos da circunferência do umbigo.

Ainda assim, estamos em movimento!

Nesta teoria, Einstein foi muito filosófico (obrigada, querido!), considerou que o tempo não tem uma duração absoluta. Acredito que depois disso, ele também deve ter abolido o uso do relógio. Ah, mais uma coisa importante, para essa variação, o movimento dos observadores não deve ser a esmo, é um movimento entre si. Eu, calçando as meias do romance, neste momento, já imagino Gardel na vitrola. Dois corpos em movimento num belíssimo tango. A dança é um movimento perfeito de pessoas – mesmo para quem, como eu, não sabe dançar. Ofereço perigo ao pé do par mesmo quando danço dois pra lá e dois pra cá. Admiro muito quem sabe dançar junto, quem utiliza com perfeição o espaço que o outro deixa para encaixar o seu corpo no ritmo. Dançar é uma arte, é Vettriano em movimento, com trilha sonora.


Salvador Dali pintou essa teoria da relatividade restrita através de relógios em três momentos: A persistência da memória, Relógio mole no momento da primeira explosão e A desintegração da persistência da memória. No primeiro quadro, três relógios moles, moldáveis e maleáveis marcam horas distintas em três partes do quadro – passado, presente e futuro. A paisagem de fundo é uma praia onde ele costumava ir na infância. No segundo quadro, Dali pinta um relógio mole com peças soltas e os ponteiros flutuando sobre a caixa. Dá ideia do tempo se moldando ao momento, o observador define o momento, a hora de quem vê. Por fim, no último quadro, Dali revela elementos não aparentes no primeiro e fragmenta os objetos do quadro, com exceção dos relógios. Na física, todos os elementos são fragmentados, formando o todo que podemos perceber. O tempo é moldado pelo espaço, dependendo mais uma vez do observador e do seu movimento.

Na física ou na arte, os ponteiros estão lá, aguardando ansiosos o ajuste. Eu sou a primeira a votar a favor das conversas francas. Acredito que pessoas dispostas a estarem juntas podem ser sinceras. Conversar não é sinônimo de briga. Discutir a relação é hábito saudável, tanto quanto não fumar e comer verduras. Não há mal em dizer o que pensa, confessar o que se sente, compartilhar vontades. Está em dúvida, pergunte. Isso cura dor de ideia.

Lógico, é necessário um cuidado. Não podemos sair falando tudo sem edição alguma, isso é preguiça, falta de preocupação. A palavra pode beijar, mas também pode morder. Acaricia e belisca. Eu não acredito em relações onde tudo é varrido para baixo do tapete. Uma hora isso volta. É uma questão prática nada complexa. Quando a nossa casa está suja, limpamos. Se a pia está cheia de louça suja, lavamos. O relógio não marca a hora certa, ajustamos os ponteiros. Organizamos tanta coisa e somos negligentes com a vida pessoal.

Observo uma falta de coragem muito grande para tomar atitudes. Quando duas pessoas estão em movimento entre si, o tempo e o espaço não são os mesmos, o que não quer dizer que seja impossível uma área de contato. Os ponteiros não se ajustam ao acaso, a equação matemática se dá pela palavra. Parar para escutar é fundamental, mas parar para falar também.

Nunca comprei um relógio que viesse com a hora certa, nunca conheci ponteiros que não pudessem se acertar. Como nos relógios de Dali, nosso tempo é moldável ao espaço, perfeito para que se encontre a sintonia. Basta boa vontade e doses cuidadosas de sinceridade.




invente, tente

 Uma pessoa tem direito a ser preguiçosa. Tem direito ao ócio. Tem direito à inércia. A prática do nada não precisa ser um pecado. Pecado é escolher o momento errado da preguiça, é deixar de lado a dedicação onde se requer capricho. Alguns terrenos da vida são adubados com o empenho, apenas assim vingarão e darão bons frutos.

O amor é um caso onde toda a preguiça será castigada. A conquista exige ação, o que não é novidade e é muitíssimo mais singelo do que parece. Enganam-se os pensam que o amor exige gigantescos atos de bravura. O maior desafio é admitir, permitir o sentimento, ser sincero. Um dos momentos mais engraçados da minha vida foi confessar que sou romântica. Romântica não clássica, mas sou. Um pouco torta. Não convencional. Bom, sobre isso eu – juro – escrevo outra hora, não quero desviar o assunto. Amor é caso de arregaçar as mangas. É caso de demonstração ainda que sutil. Atenção diferente. Um olhar mais carinhoso onde a pupila entrega: oi, eu gosto de ti. Ou um sorriso desconcertado, desenhado sem querer. Gostar de alguém é sair do comum. É tratar diferente e diferente para melhor. Tratar não indiferente.

Gostar de alguém requer demonstração. Cultivam-se bons vínculos com esses caprichos. Fazer um agrado, deixar um recado, ser atento, observar. Admiro quem se dá conta disso. Despir-se da apatia emocional é uma habilidade adquirida com a prática. Envolver a pessoa naquilo que lhe agrada, não apenas para conquistar, mas porque a pessoa merece. Por quê? Porque é especial, ora bolas, ou por que despertaria algum interesse? Alguém que me faz corar e ficar sem jeito merece se sentir bem. Merece receber de mim atitudes de felicidade. Um abraço com um carinho a mais já me delata.

Eu sou facilmente denunciada. Capricho mais com quem eu gosto. Ainda que eu tente ser mais discreta, não consigo. Se eu tento dizer que não, proclamo o caos. Sofro de gagueira paixonítica. É uma síndrome rara de equação simples: apaixonei, neguei, gaguejei. Pronto! Resta rezar pra ser tragada pela terra, momentaneamente, claro.

Mas não é de hoje que amor e dedicação andam juntos. Quando as pessoas estão dispostas a um relacionamento, a fase da conquista nunca acabará. Serão criados códigos sucessivos entre o casal. Há sempre o que ser descoberto. Há sempre o que ser inventado. Não existe limite quando as pessoas estão dispostas a se divertirem juntos – e a vida a dois pode ser bem divertida. As regrinhas entre os dois surgem e desaparecem. O amor vai encontrando com o tempo a sua maneira de viver. O amor não morre com a rotina, morre de inércia.

Eros, na mitologia, se apaixonou por Psiquê. E ela se apaixonou por ele sem nunca ter visto o seu rosto. Todos os dias, apesar da rotina (porque só se encontravam à noite), o casal descobria maneiras de manter vivo o amor. A conquista era constante, dependente dos atos caprichados.

Estou cada vez mais convicta que os amores não morrem de morte natural. Amor morre mesmo de tanto faz. Causa mortis: indiferença, apatia e preguiça.

Amar é verbo em movimento: ação!



----------

 

Observar também é reconhecer. Saber o que vale a pena não desperdiçar.

Acho tão bonito quando as pessoas querem se conhecer...

Convite pra tomar uma água, um chá, um suco, comer um doce. É... é bem bonito! =-)

divertissement

 


Já declarei a minha admiração por quem sabe dançar. E também já confessei que sou uma desengonçada. Dançando sozinha, até engano. Mexo um pouco pra lá, um pouco pra cá. No auge do entusiasmo posso até arriscar os vexatórios dois dedinhos apontados para cima. Os amigos me guilhotinam os dedos com o olhar. Nunca tentei fingir que sabia. Até faz parte do meu show não saber. Eu sou partidária da ideia que quem tudo sabe ou tudo faz não se dedica a nada. Eu me dedico a cantar desafinadamente todas as músicas, muitas vezes errando a letra. Dançar que é bom, nada. Ou muito pouco. Ok, nada. Mas me mexo. Com ritmo!

Se eu admiro as pessoas que dançam bem, admiro mais ainda as que dançam bem juntas. Alguém que sabe dançar, que nasceu com o dom da molinha nos quadris, baila sozinha sem preocupação. Mas ao dançar com alguém, depende que encaixe um passo seu, no do outro. Falo isso com relação à dança de improviso, não das coreografias de palco, ensaiadas.

Lembro de um ensaio do Francisco Bosco, onde ele cita a explicação de Antônio Gades – dançarino de flamenco – quando tentava definir o que era dança. Dizia que não ocorre no passo certo, mas que é o que ocorre entre eles. É o momento entre um e outro, a formação do conjunto. Francisco usa essa definição para descrever o que é escrever, fala sobre a alegria do improviso na dança e das possibilidades criativas do improviso.

Ora bolas, criatividade é uma coisa que sempre me foi farta. Tenho mais criatividade do que sardas. Uma vez a minha mãe perguntou se eu tinha resposta pra tudo. Respondi que sim porque o que eu não sabia, eu inventava. Ela não repreendeu. Tenho a sorte de ter uma mãe esperta. Fui tacitamente autorizada a inventar. Numa época onde a maior preocupação era ganhar no bafo a figurinha que faltava para completar o álbum da Copa, ou qual a tabuada que ia cair na prova de matemática, autorização para criar rendia mundos. Ainda rende, galáxias.

Depois aprendi o mais importante, que inventar, pode. Enganar, não.

A invenção deixa usar uma parte bonita da subversão. É pensar fora da caixa, permite a observação do todo. A criatividade trabalha com o lado bom da subversão. Não reprime os instintos, mas exige uma certa verdade. Invenção inventada sobre o vento, não se sustenta. Daí de nada adianta. Tudo leva um pouco de mim, nada se cria do vazio. Então, como pessoa criativa, decidi que eu tenho o direito de saber dançar. Descobri que eu sei dançar. O que surpreende é que não descobri isso dançando, mas pensando.

Imagino que eu jamais saberei fazer um entrechat ou um assemblé. Nasci com jogo de cintura na imaginação. Sei dançar a costura de um passo no outro e apenas por isso sei dançar. Ballet, tango, samba, rumba, qualquer ritmo, desde que seja de improviso. Desde que o parceiro de dança não tente me ensinar, esteja disposto apenas a improvisar junto. Há infinitas possibilidades, muitos movimentos em que os acertos rendem como prêmio sorrisos. As risadas são os aplausos dos lábios.

Sempre me atraiu a invenção em conjunto. Conto nos dedos os parceiros que tive. A delícia de dançar junto está em conhecer aos poucos os sinais que o outro dá. Saber qual espaço do corpo se pode ceder, qual espaço que o outro deixa e se pode ocupar. Se relacionar com alguém é isso, rir do improviso que deu certo. Aceitar qualquer ritmo não em busca do acerto simétrico, da regra, de seguir a batuta. É inventar a dança dentro do ritmo. É não ensaiar. É inventar a coreografia e deixar levar pelo momento.

Um casal será singular quando deixar de acreditar nas fórmulas prontas de felicidade. Aprenderá a dançar seus próprios passos para usar no caminho, independente do ritmo. Aprendi que sei dançar porque sei criar. A vida é muito divertida para quem tem disposição. E nesses tempos de solidão, descobri que dançar a dois pode ser mais divertido ainda. Mais sorriso, mais aplauso, mais platéia. Simples? Muito. Simplicidade é o pulo do gato, pas de chat!

pólem do riso

 


Costumo me abandonar às vezes, apenas para não me esgotar. Não uso até o fim todas de mim. Vivo e morro muitas vezes, até num mesmo dia. Posso cansar de tudo, jamais suportaria meu próprio tédio. Por falar em tédio, este é um senhor de quem esqueci o cartão de visitas no fundo de alguma gaveta. Dificilmente lembro-me de vivê-lo. Tenho muito riso para dar.

Eu me agrado fácil. Hoje ri porque uma flor pousou no meu ombro enquanto eu revirava a bolsa atrás da chave do carro. Uma florzinha branca, dessas sem vaidade, que já nascem com a beleza que precisam. Veio e se sentou, como um papagaio. Encarei com dúvida até me convencer do que era. Ela me encarou com pólen.

Olhei em volta para procurar a mãe da flor, a árvore mora quase na outra esquina. Com a ajuda do vento e um pouco de sorte, unimos nossos destinos. Deus existe nesses momentos. Não é na súplica, na raiva ou na devoção, Deus existe em tudo que nos toca. Sorrir é simples e divino. Às vezes tudo que a outra pessoa precisa é de um sorriso. É mais contagiante que bocejar. Ao sorrir emprestamos alegria aos olhos, que por alguma ligação que a fisiologia não explica – ou explica e eu não sei – leva para o coração. A sensação é de conforto. É a minha carta na manga para espalhar amor.

Vivo muitas em mim, criando intimidade. Ser estranha à própria vida seria egoísmo. Permito-me repetir. Permito a reinvenção e as reformas. Isso multiplica as minhas chances de felicidade. Fico perdida em mim mais pelas surpresas da procura do que pela redenção do encontro. Não nasci para ser sempre a mesma. Não acredito em caminho de linha reta. Qualquer olhar perdido me seduz, vira farol.

Evito me explicar demais, eu sei que os meus porquês confundem. Apenas sou. Oferecer a mão, ceder um sorriso para alguém ou o ombro para uma flor é questão de sensibilidade, não de explicação. É espalhar o meu pólen no dia alheio. É multiplicar a minha vida em outras vidas.


porta fechada

 outubro 21, 2011

Afastem-se. Sejamos precavidos, mais sensato manter longe do que mexer com explosivo. Fiquem longe os doloridos, os reprimidos, os gemidos, os coloridos, os bons maridos, os frascos e os comprimidos. Pro lado de lá vai quem chora, quem funga, quem espirra, quem finge, quem come bala de canela, quem esquece de secar as orelhas depois do banho, quem vira o chinelo pra porta e quem toma café com leite. Por favor, respeite a linha amarela. Para trás da faixa de contenção os que prestam atenção, os que pedem a mão, os que pedem perdão e qualquer outra qualidade que rime com “ão” em pessoas que pisem no chão. Pro lado de cá os metafísicos cientistas malucos, agrimensores, filósofos, teóricos, incendiários, deturpados, tarados, maníacos e os que têm pé chato. Longe.

Mais longe ainda os suicidas, homicidas, herbicidas e inseticidas. Quero bastante distância dos que usam óculos, dos que usam camisa xadrez, dos que acordam depois das seis, dos que bebem água no bico, dos que abrem as janelas. Aqueles que gostam de basquete, assistem seriados, colocam frase em inglês no meio de uma conversa ou atendem o telefone com a mão direita, fora. Se atender com a mão esquerda, fora também.Obedeçam à sinalização, parem. Chega, tu de gola engomada, sai pra lá moço que não amarrou os tênis, o que masca chiclé, o de boné, o de máscara do zorro. Sai pra lá ainda o ranzinza e aquele de terno cinza. Tchau para os escabelados, para os carecas, para os arrumados, para os de barba feita, para os que têm bigode, para os que jogaram futebol de botão, para os que cortam as unhas às terças, para os que nunca completaram um álbum da Copa. Toca violão? Se sim ou se não, rejeitado. Sai quem tem cão, quem caça com gato, quem pisa na grama, quem puxa a coberta e quem deixa sempre um pingo caindo na pia. Economia é questão de ecologia!

Você é mal amado? Um passo pro lado. Você já colou com tenaz? Um passo pra trás. Já viu um defunto? Vai junto.

Quem já fingiu gagueira, já pregou tira de chinelo, inventou dor de barriga pra matar aula e plantou bananeira, não se aproxime. Quem dá duas voltas na chave pra trancar a porta, quem dirige carro branco, quem odeia azeitona, quem gosta de Alfred – seja Marshall, Hitchcock ou o mordomo do Batman -, quem buzina pra avisar que chegou, quem adoça o chá com açúcar, quem aperta a mão antes dos três beijinhos, adeus, saiam de fininho!

Aos que nunca acamparam, aos piratas, corsários, marujos de todo o gênero, aos hipocondríacos, tatuados, mórmons, esgrimistas, patriotas, melódicos, românticos, macrobióticos, pigmeus, alienados, avarentos, sarados, pessimistas, velejadores, perfumados, aos que são de escorpião, meus cordiais adeus.

Não quero nenhum claustrofóbico por perto. Fiquem afastados os que sofrem de asma. Os que têm bronquite também.

Hoje acordei de portas fechadas.

Não estou pra ninguém!




faço laço melhor que rima

 outubro 29, 2011

Descobri que a liberdade do sentimento é a melhor maneira de se preservar. Não é não amando que não se sofre. O não amor é o próprio sofrimento. O avesso do amor não é a raiva, não mora na traição e não está no ponto final de nenhum casal infeliz. Avesso de amor é apatia. O contrário do amor é não sentir falta da falta, não dobrar sorrisos para guardar no bolso e usar depois.

Meu coração não é pálido.

Misturo com os dedos as cores das tintas que vou usar em cada pulsação. Não sei guardar sentimento, pinto para depois pendurar por aí. Bem que eu gostaria de conseguir simular algumas reações. Tenho sobrancelhas faladeiras, precisam fofocar entre si quando algo acontece, fazem plissar a minha testa. Meus medos e amores ficam literalmente escritos na minha cara. Por economia de desculpas, confesso tudo.

Assumo tudo: amores diários, passageiros, platônicos, eternos, passageiros. No meu coração tudo tem lugar. É uma salada de frutas. Cada vez que preciso organizar, é uma tormenta. A faxina nunca é completa. Há o que vai para o baú de guardados. Uns tropeços, para a prateleira, outros para a caixinha de primeiros socorros. Tenho memória afetiva. Meu coração é estabanado, não sabe manter a ordem. E eu não levanto da cama se não for por paixão, então convivemos numa harmoniosa confusão.

Li que uma vez, numa exposição, Jim Dine disse que seus desenhos eram a sua poesia. Ele tem, sem dúvida, alma de poeta. Dine desenhou a representação do meu coração: muitas cores, confusão, harmonia, centenas de elementos. Uma colcha de retalhos que só faz sentido para quem costurou. Aceito que é assim, não pretendo entender, apenas espalhar o amor que sinto. Faço dos meus cabelos fronha. Faço do telefonema aconchego. Um carinho vira colo. Não desamparo meus afetos. Fico calada para ouvir a lágrima que precisa cair, reconheço os barulhos da casa onde moro. Deposito fidelidade nos barulhos da minha casa. Compartilho os lucros das folgas, dos passeios, das mesas de bar, das músicas que a noite trouxe.

A minha poesia é o amor. A minha poesia é esse jeito de viver.

Faço laço melhor que rima.

Se eu crio intimidade com os meus caminhos não é pela repetição do trajeto. É porque a minha poesia está em deixar um pouco de mim naquilo que me é querido. Tenho excesso de excesso, acabo derramando amor por aí, encho demais as vasilhas. Saio enrolando os cabelos no vento e esticando os cílios para aproximar o olhar.

Não aprendi a me medir, só sei me transbordar.



SOBRE A OBRA: Jim Dine tem obras cheias de possibilidades de interpretações. São verdadeiras poesias de cores. Ele tem muitos, muitos, muitos corações, de variados tamanhos, estampas, recheios. Eu gosto desse. PORÉM, vejo em qualquer coração dele algo ou algum momento em que reconheço o meu - também um pouco louco.

 

Acho que coração é isso mesmo. Já que não é de pedra, que seja de tela. Que seja de papel. Que seja de massinha de modelar. Que seja qualquer coisa que possa sempre se transformar.

 

Que seja janela por onde o amor possa entrar.

 


me leve com a vossa pessoa

Sem jeito pra encaixar o corpo na cama, esta sou eu admitindo que me restou apenas levantar quando a vontade ainda seria permanecer. Preferia dormir. Meu sono me visita como marido adúltero: chega tarde, fica quatro ou cinco horas e vai embora cedo, sem despedidas. Relatam que já nasci inquieta, mas lembro de uma fase da vida, acho que pela adolescência, em que eu era capaz de dormir dez horas seguidas. Sem culpa. Sem trocar de posição. Sem ir ao banheiro.

Não se faz mais sono como antigamente. Não se faz mais muita coisa como antigamente. Como aquariana praticante e convicta, assumo que sempre ando com a cabeça lá na frente – ultimamente lá nas nuvens. Mas para algumas coisas, sou conservadora. Não dessas que defendem verdades absolutas, paradigmas imutáveis e opiniões de pedra. Sou favorável às mudanças, desde que se mantenha a essência. Tem coisa que só funciona assim. E só faz sentido desse jeito.

Por exemplo, homens e mulheres. Essa nova paquera de hoje em dia é muito estranha. Não consigo entender as regras do jogo, não sei nem como joga. Às vezes sou apenas torcedora. Vejo muitos homens quase mulherzinhas e muitas mulheres quase de cuecas! Que é isso?! Quero fazer uma marcha contra essa modernidade. Cadê o cara que faz a corte? Cadê a abordagem de um cavalheiro? A conversa interessante? Cadê a graça?

Pessoas deixam de se conhecer para se pegar. Está errado. Vou frisar, ERRADO! 

Assim como está errado não ligar no dia seguinte para não mostrar interesse. E pegou o telefone porque faz coleção? Na na ni na não. Sentiu vontade, liga. Não tem assunto, inventa. Foi-se o tempo em que estender um olhar conduzia a uma conversa. Foi-se o tempo em que se preocupavam em conversar assuntos interessantes. Claro que não acho que as pessoas devem chegar falando sobre o último livro que leram ou perguntando qual o filósofo favorito. Mas “oi, como tu é linda” se ouve em qualquer obra.

É preciso ousadia sem perder a ternura.

Dia desses um amigo me disse que encontrou um amor antigo. Que ela deu papo para ele, deu mais que isso, o telefone. Ele achava que era por simpatia. Eu sugeri que ligasse e descobrisse. Ele justificou:

- Ela sempre foi a gata da faculdade e eu um nerd.

- Pois seja um nerd com coragem. Nerd, tudo bem, mas covarde...

Não sei ainda do fim da história. Apenas sei que sou da política que se deve paquerar com papéis definidos: mulheres não atacam homens. Homens não atropelam as mulheres. Respeito, cuidado, educação e interesse nunca fizeram mal a ninguém. Óbvio que nem todas as minhas teorias têm cem por cento de aproveitamento e alguns amores que começam muito bem acabam mal – é, todo o cuidado é pouco.

Voltando umas areinhas na ampulheta, lembro de uma situação, um coquetel de lançamento de alguma coisa. Eu perambulava há horas com a mesma taça de espumante na mão, já quente. Um tédio quase de chutar pedrinhas, mas mantendo o profissionalismo e sorrindo orgulhosa para os clientes. Eu pedia água para o garçom e ele respondia que só tinha refrigerante. Um cidadão tão alto quanto chato resolveu trocar constantemente minha taça. Eu regava as flores de plástico – discretamente – para ficar com a taça vazia, lá vinha ele, prestativo suficiente para ser inconveniente. Inserindo-se até nas minhas conversas, que infelizmente nesses eventos passam longe de filosofia de bar ou divagações sobre absurdos. Passei a embebedar um bambu mosso. Fui flagrada por um conhecido, desses de vista, de oi e tchau, de “aperta o nove, por favor”. Ele perguntou se eu estava entediada, fiz que não com a cabeça, rindo sem mostrar os dentes. Ele perguntou se eu não bebia, respondi que eu estava dirigindo, que preferia uma água, mas que o garçom disse que não tinha e assim o papo foi engatando, divertido. Juntaram mais pessoas e foi indo a conversa. Anunciei que eu ia embora e ele disse:

- Me leve com a vossa pessoa.

Pausa. “Me leve com a vossa pessoa” não é um “me dá uma carona”. Eu, seduzida pelo diferente, levei com a minha pessoa. Ele pareceu interessante, nós saímos mais umas vezes, nos beijamos e foi tudo indo muito bem, como costuma acontecer com amor novo... mas eu olhava pra ele e via um vasto mar de nada. Tentava esculpir nos blocos de mármore das palavras dele mais alguma coisa. Em vão. Era tudo pedra mesmo. O que ele me deu? Uma única frase. Depois disso, uma sucessão de insucessos. Aqui é proibido relaxar depois da conquista.

Peguei-me bocejando no meio de uma conversa. Apoiada com o cotovelo na mesa, uma mão segurando o rosto, a outra revirando o sorvete. Ele me dava sono, como não tinha desde a adolescência (única época da vida que me lembro de ter conhecido o sono).

Não busco no amor a cura da minha insônia. Se bobear, quero que piore. Quero trocar o sono pelas lembranças da companhia, quero repetir na cabeça o que foi dito. Encher na cabeça o prato dos assuntos de amanhã, planejar o que nunca vou fazer só pra viver duas vezes: pensando uma coisa e fazendo outra. Preciso disso, do motivo novo. Olhar e catar em alguém tantos infinitos quanto os que eu carrego. Apenas amor não basta.

Tem amor que começa num beijo e acaba num bocejo.



as rugas do origami



Comprei creme para rugas. Um dia isso iria acontecer. O potinho de vidro com letras miúdas ainda é um tímido nanico entre os longilíneos frascos de perfume da prateleira. Ainda sofre um pouco de preconceito porque comprar, eu comprei. Usar são outros quinhentos.

Resolvi avaliar dentro da minha cabecinha por que eu jamais havia comprado um potinho daquela espécie. Por que dentre tantas quinquilharias já adquiridas na vida, nunca um mísero creminho para rugas. E eles são simpáticos! A descrição do produto e as promessas oferecidas são tentadoras. Ao fim e ao cabo, comprei por não ter encontrado o porquê de não comprar. Ainda não encontrei o porquê de não usar, logo, venho por meio deste informar que em breve serei uma usuária de um milagre epidérmico com fórmula não oleosa. Se tudo der certo, em quatro semanas os resultados serão visíveis. Em alguns anos, voltarei à primeira série. Estará na cara! Sério! De verdade!

Lendo o livreto que vem dentro da caixa, fico convencida de que Ponce de León encontrou a Fonte da Juventude. Engarrafou a água, patenteou a descoberta e passou a fornecer matéria-prima para as empresas de cosméticos.

Senti comiseração por Dorian Gay. Se ele conhecesse a Lancôme, jamais teria feito pacto algum para manter-se jovem. Bastaria seguir a bula. Tudo bem, Oscar Wilde não teria história pra contar, o romance encolheria: era uma vez um belo jovem que não queria envelhecer. Então ele adquiriu – em três vezes no cartão de crédito – o anti-rugas. Nunca envelheceu, permaneceu bonito para sempre. Fim.

E Lucas Cranach? Em vez de pintar A Fonte da Juventude, seria designer das embalagens de Renew!

Pois bem, voltando ao meu frasco de conteúdo viscoso ainda virgem, admiti a falta de motivos para não comprar e um motivo muito digno para despender cifras na sua aquisição.

Uma vez, contei a um amigo que faço origami das minhas memórias. Dobro os meus acontecimentos em algum formato. Guardo na forma que eu achar melhor tudo que me acontece e quando eu quero ver como eu fiz, quando preciso pensar a respeito ou dá só saudade, vou lá e desdobro pra ver a história inteira. Depois dobro de novo. Nem sempre volta a ser a mesma coisa que era. Ele respondeu:

- Cuidado com isso. Não esquece que a dobradura cria marca que não sai. A ruga da dobradura sempre fica.

Não posso afirmar que fui chamada de enrugada. Nem que foi uma observação dentro do meu contexto ilustrativo-filosófico-comparatório-analógico-anaítico.

Pelo sim ou pelo não, sendo as rugas figuradas das minhas histórias ou as rugas da minha testa, resolvi combater as que eu posso evitar.

Para as rugas do rosto, creme. Se não der certo, quem sabe, botox.

Já as rugas das minhas histórias, nenhum milagre cremoso ou toxina botulínica podem reverter os plissados da minha memória. São nesses sulcos que eu prendo o pé, é ali que eu tropeço, é o que muitas vezes me segura quando eu deveria arriscar.

Para essas rugas, muito chá de cidró e travesseiro.

stomachion dos relacionamentos


Ele irá acusá-la. Ela irá rebater. Ou vice-versa. A briga acontecerá, será inevitável. Romances esbarram em placas de pare erguidas pelas particularidades das pessoas. Esquecemos que no relacionamento não somos um, continuamos dois. Quando lembramos, ditamos que sempre fomos assim e que nada mudará: ele me conheceu exatamente deste jeito.

Está errado.

A maioria dos solteiros – aqui falo tanto em homens quanto em mulheres – desalmados, egoístas e promíscuos que eu conheço se transformam em seres agradáveis, doces e fiéis quando amam. Amor exige disposição. O amor requer muito do que jamais nos foi dito. Você irá mudar, talvez nem perceba. Mudará sem evitar. Por isso ao acabar o relacionamento é comum que o outro diga que agora caiu a máscara. Calma, alto lá. Somos seres em constante mudança, unimos a nós o nosso meio. Por isso prefiro sempre evitar as brigas.

É comum que o casal pense que poderá ficar junto sem ser diferente, mas sempre um pede que o outro se transforme. Ela comprará a camisa rosa que ficará esquecida atrás da última pilha de roupa. Ele a presenteará com o perfume doce que dá náusea só de ver a silhueta do vidro.

Evito brigas por questão de economia de energia. Tudo tende a se acertar com conversas sinceras. Ou na praticidade dos beijos. Particularmente, apelo para o bom humor.

- Já recolhi quatro canecas de café espalhadas pela casa. Sem falar nos livros! Não tem como usar a cama, nem o sofá ou a mesa da sala! Por que tu não estudas num canto só da casa? E por que não usa uma caneca só para todos os cafés do dia?

- Amorzinho, sabia que a cadeira elétrica foi inventada por um dentista?

Ele me lançou olhar de medusa. Virei pedra enquanto ele carregava meus livros e canecas para lugar incerto. Percebi que não estávamos na mesma trilha, não havia disposição por parte dele para transformar um relacionamento sério em um relacionamento divertido. Eu gostava de cultura inútil, ele da casa arrumada em época de prova. Sem falar que ele me deu o trabalho de ter que espalhar pela casa todas as canecas e livros novamente. Na faculdade a decoração do caos inspirava meu bom desempenho!

Evitar a briga é uma brincadeira de quebra-cabeça. Temos muitas peças, precisamos montar uma figura. Não precisa ser a figura correta, a figura que servir, serviu. É uma questão matemática, onde muitas possibilidades são possíveis, o trabalho é encontrar as peças, as palavras certas, as atitudes corretas. É uma questão de física e de matemática, Arquimedes já estudou. Precisamos observar, tanto quanto ele observou o volume de água da banheira para criar a lei do empuxo. Singelas constatações que o levaram a sair gritando EURECA pela rua, nu – dizem os fofoqueiros da época.

Talvez num primeiro momento Arquimedes não pareça ter a menos intimidade com o amor. Mas tem. Foi ele quem inventou o parafuso hidráulico. Nunca fui numa festa da porca e o parafuso, mas considero uma das ideias mais geniais. Homens com parafuso, mulheres com porca, o objetivo é encontrar o seu par. Penso na quantidade de abordagens incríveis, na troca de parafusos, porcas puritanas se negando a experimentar o parafuso. Quem acha seu par nesta festa deve acender uma vela para Arquimedes.

Para evitar brigas, precisamos usar um stomachion das relações. Este foi o quebra-cabeça estudado por Arquimedes, um quadrado dividido em quatorze peças geométricas que podem tanto voltar a ser quadrado, depois de embaralhadas, quanto se transformar em qualquer figura a partir de diversas montagens. Arquimedes gastou muito tempo brincando para tentar determinar um número de soluções possíveis. Foi mais fácil chegar ao valor do “PI”. Como às vezes é tão difícil agradar.

É necessário ter muitas peças para formar uma unidade. A resposta adequada depende de observação e habilidade. Não funcionou um, passemos ao próximo. As possibilidades são muitas. Evitar briga não é uma questão de preguiça, dá trabalho.

Outro dia reclamaram dos meus atrasos:

- Marcamos às oito, uma hora de atraso! Não vai dar tempo de jantar antes do cinema.

- Podemos comer depois!

- Eu estou com fome agora...

- Compraremos sacos gigantescos de pipoca, com muita manteiga, de nadar dentro!

- Não gosto de pipoca.

Quando falham argumentos, apelo para força bruta, faço cócegas.  Evitar brigas é encontrar a cumplicidade. Quando conseguir, vale gritar EURECA pela rua.

Certifique-se de estar vestido.

atestado de óbito

 dezembro 11, 2011

Vocês podem achar que eu ando escrevendo muito sobre fins nos últimos tempos. Justifico: tenho pensado muito sobre eles. Observado mais ainda! Escutei histórias, fui informada de fatos, juntei pecinhas. Acabei seduzida por finais. São muito interessantes. Se amar é verbo imprevisível, terminar é verbo definitivo. Isso de vai, volta, volta, vai, não vale. Estou atenta aos finais, à morte do amor, ao momento onde o “tudo aquilo”some. Amor pode evaporar, sabia? Amor não precisa esfriar pra acabar, pode ter fim no auge.






E tem mais – agora vou me confessar – ando estudando os fins porque estou bem ruim de começos. Isto é assunto para depois. Não quero desviar o foco do fim. Quero muito falar sobre os pontos finais. Quero saber por que acaba! Eu sei que tem um zilhão de porquês, que variam de vivente para vivente. Eu sei de uma porção de coisas sobre fim de amor. Mas, olhem só, há pouco tempo três histórias de óbito sentimental chegaram ao meu conhecimento.






Contarei porque sou língua de trapo:


    (baseado em causos reais, já adianto que apenas fui a legista, não a protagonista)



1. Causa mortis: afogamento no leite.

Era uma vez um casal que estava se conhecendo. Ela queria ele, ele queria ela. Viviam para cima e para baixo: almocinho aqui, jantinha ali, passeio de mãos dadas na praça, barzinho com os amigos. Casal quando se conhece parece que precisa de testemunha. Ele amava ela, era correspondido. Tudo estava muito bem. Trocavam muitas mensagens pelo celular durante o dia. Telefonavam apenas para enriquecer a empresa de telefonia, pois não tinham lá muita coisa para dizer.

- Oi!

- Oi, lindo!

- Tem sol aí?

- Tem sim!

- Aqui também.

- Acredito, trabalhamos no mesmo prédio!

Riam juntos dessas bobagens que só os apaixonados acham graça. Um dia ele pediu que ela arrumasse a mala para o final de semana. Iriam viajar juntos! Dormir juntos pela primeira vez! Não que nunca tivessem transado. Isso já. Mas nunca dormiram, acordaram, conviveram por vinte e quatro horas seguidas. Ele mandou lavar o carro, recomendou que aspirassem bem por dentro. Ela comprou sutiã novo, calcinha nova, pijaminha novo COM RENDAS (grifei). Foi ao salão, fez as unhas, escova, depilação. Se tivesse tempo, faria massagem. Se tivesse mais tempo, curso de striper.

Na hora marcada, subiram a Serra. Hospedaram-se no Hotel que ficava na Avenida Central, quarto com banheira, cortinas brancas esvoaçantes, lençol com cheiro de alfazema. Jantaram no melhor restaurante, beberam vinho, compraram chocolates e tiveram uma noite de amor da-que-las.

Na manhã seguinte, café servido na sacada do hotel, os dois trocam sorrisos. Um de frente para o outro, cada um com sua xícara de café. O dele era puro, o dela era com leite. No meio dos planos sobre como ocupariam o resto do dia, ela pega uma rosquinha com seus dedos finos acabados em lustroso esmalte, ele observa com atenção, ela mergulha o anel de maisena no leite e chupa.

Morreu o amor. Afogou-se no leite.

2. Causa mortis: acidente do trabalho.

Eles se conheceram num bar. O assunto era interessante. Trocaram o bar por um motel. Ela apressou-se em ir embora:

- Amanhã vou mais cedo para o serviço.

Ele relatou a noite com empolgação para os amigos. Falou bem dela. Ligou no dia seguinte. Ligou também no outro. Ligou no terceiro e convidou para jantar. Foi agradável, ela tinha um bom humor. Ele gostava do jeito que ela enrolava a ponta do cabelo antes de prender. Empalava os fios com um palito de madeira. Quando estavam indo embora ele a convidou para conhecer o apartamento, ali pertinho. Ela respondeu que preferia deixar para a próxima:

- Levei serviço para acabar em casa.

- Pena... podemos combinar um cinema na sexta?

- Claro, vou direto do serviço. Me liga!

Ele não ligou.

Ela ligou.

Ele não atendeu.

- Cara, é a Márcia, não vai atender?

- Não...

- Mas você pareceu ter gostado um monte dela.

- Gostei, mas ela tem muito serviço.

- Que bom, né. A mulher trabalha, não é uma desocupada que vai passar o dia pensando bobagem enquanto não começa a novela.

- Não é isso... ela sempre tem “serviço” e não “trabalho”.

Morreu o amor. Acidente de trabalho.

3. Causa mortis: atropelamento

Fazia um tempão que ela olhava ele. Cuidava até pelo elevador panorâmico. Almoçavam no mesmo restaurante nas terças e nas quintas, dia que ela tinha curso. Ela já havia cogitado derrubar alguma coisa nele para iniciar uma conversa. Ele correspondia aos olhares, mas nunca fazia nada. Nunca falava com ela. Cogitou também pedir ao garçom para entregar um guardanapo com o telefone dela, foi desencorajada pelas amigas:

- Assim é coisa de oferecida!

- Mais um pouco eu peço pro garçom me levar lá, de bandeja!

 Daí nem é oferecida, é dada!

Foi convidada para um bingo beneficente. Resolveu ir porque não tinha mais nada para fazer. Não que no bingo tivesse... mas pelo menos a cerveja estava gelada e talvez ela tenha tomado um ou dois goles a mais do que deveria. Ficar bêbada em bingo beneficente é um episódio inusitado. Mais inusitado que isso só dar ré com o carro na hora de ir embora e atropelar um ciclista.

Apavorada, foi prestar socorro e era ele, o objeto de seu desejo. E ela procurando na bolsa a pastilha de mel que usava para a tosse, querendo disfarçar o cheiro de cerveja. Por sorte ele não se machucou, arranhou um pouco o braço. Conversaram, ele percebeu o teor alcoólico da pessoa e se prontificou a dirigir o carro dela até em casa. A bicicleta atropelada foi no porta-malas semi-aberto. Conversaram mais e mais e mais e na hora de se despedir, ela o beijou. Ele retribuiu. Era óbvio que ela sempre foi uma mulher de atitude, bêbada, mais ainda. Entrou em casa e ligou para as amigas para contar que foi ao bingo mas fez um belíssimo strike!

No dia seguinte recebeu flores do moço, em casa.

No outro dia, recebeu o próprio moço, dizendo que estava passando ali por perto...

Foram caminhar pela rua. Mais uns beijos e chegou a fome. Ela fez a janta em casa, ele conheceu a gata, visitou os parentes nos retratos da parede, disse que era parecida com a mãe. Ela lavou a louça, ele secou. Sentaram no sofá, assistiram um filme. Ele falou sobre casamento, filhos e sobre férias. Ela quis sumir. Achou melhor dar sumiço nele, inventou uma dor de barriga e para que ele fosse embora.

Morreu o amor. Foi atropelado por ele.

Amor é coisa que dá trabalho, cada um carrega um gatilho do fim. A falta de tolerância é muito cômoda. Pontuar um desagrado e usar como tiro fatal. Por que não rir das pequenas coisas? Por que não conversar sobre as diferenças. O fim é fácil. O fim tem sido o caminho óbvio. Amor já nasce para morrer e nunca é de morte natural.

Amor sozinho não se mantém. É preciso muita disposição, doses de tolerância e uma pequena mágica chamada romance. Eu, que morro o tempo todo, cansei de matar.

(ando tão de saco cheio de assinar esses atestados de óbito...)

pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...