quarta-feira, 31 de março de 2021

tudo isso bebendo água

 Escrevi este texto na fila de pagamento de uma festa, no bloco de notas do celular. (DEZ/2010)




Eu tenho tido o imenso prazer de caminhar mais pela vida, de ter me permitido mais através de alguns descompromissos. O resultado disso tem sido mandar embora alguns conceitos antigos, adotar alguns novos. Os princípios que ainda têm salvação são mandados para a tinturaria, voltam remodelados para me vestirem melhor, adequados ao tamanho que eu resolvo medir. Mesmo assim, nada é definitivo.

Nas minhas caminhadas pelos becos do conhecimento – sobre tudo e nada – sempre encontro pessoas carregadas de bagagem. Furto um pouquinho delas e deixo nelas um pouquinho de mim. E, mesmo quando algumas diferenças são gritantes, é possível encontrar um ponto de convergência. Veja bem, não falei de concordância, não disse que entre as diferenças existe um ponto de opinião comum. Disse que há convergência, um momento onde o sentido apontado é o mesmo. E isso acontece por intuição, não por raciocínio.

Esta mesma intuição faz surgir um sentimento de intimidade, quase instantânea – palavra que eu não gosto muito. Eu não acredito em amores instantâneos, em paixões à primeira vista, nem em eternidades estáticas, mas acredito sim que haja uma maneira de reconhecer em alguém uma energia que nos faz aproximar. Esta teoria não é minha, isso é física quântica. Acredito que isso possa tanto somar experiências e sensações quanto diminuir o que somos, provocando vazio. Aí que começa a diversão, selecionar aquilo que vai ocupar esse espaço deixado. Ou apenas escolher mais um elemento para ser agregado ao que já existe.


Se estiver muito abstrato, eu vou tentar concretizar. Algumas pessoas fazem uma pequena participação na nossa vida. Essas guardamos na nossa estante, são estátuas, porta-retratos, dicionários. Sabemos que estão ali, podemos recorrer a elas sempre, as mãos alcançam com facilidade. Tiramos o pó, arrumamos a disposição de maior ou menor destaque. São facilmente removidas quando deixam de combinar com o resto da mobília. Outras pessoas são cicatrizes, são as marcas gravadas na pele. Dependendo de como tratamos, a ferida volta e sangra. Exigem mais cuidado. Dessas, eu me orgulho. Acredito que são essas as que me fazem brotar minhas inquietudes.

Não consigo imaginar uma felicidade sem conflito, uma vida completa sem sangramento. Não sei se eu conseguiria me desconstruir e reconstruir a ponto de ficar empatada entre sentimentos e atitudes. A minha filosofia é baseada em viver.

Preciso dessa tensão, o gosto cítrico e adocicado da ambiguidade acaricia meu paladar.

E antes que pensem que eu tenho talento para arrumar confusão (e eu tenho), vou dizer que está tudo bem. Meu pequeno universo de caos é harmônico. Não me transtorna. Eu assumo onde me dói, o que me sangra. Eu tenho meus furacões e explodo com facilidade. O que ninguém entende é que minha explosão é traduzida em um sorriso largo. Eu tenho satisfação em ser uma inquieta. Quando eu não tenho os porquês, faço questão de criá-los. Não faço questão alguma das respostas, mas das perguntas, eu preciso. O meu compromisso está em não ter certezas.

Inspiro interrogações, expiro exclamações, reticências e muitas vírgulas.

Minha sensação de liberdade reside onde eu possa conviver bem, independente dos erros, dos acertos, do círculo fechado, da pouca margem de negociação. Quem ouve minha fala calma nem imagina, né?!

Talvez eu não seja uma caixinha de surpresas. Talvez eu seja a própria caixa de Pandora.

(E só quem sabe bem a mitologia vai entender que isso é muito bom!)

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