segunda-feira, 26 de outubro de 2020

adaptação e resiliência

 



Fiz alguns anos de aula de piano e até hoje sei tocar umas notinhas. Aprender música, porém, não é como andar de bicicleta. Eu me viro bem se a partitura  for simples, ainda lembro algumas musiquinhas de cabeça, como o parabéns, o índio alegre e a barata na careca do vovô. Já repararam como os vovôs andam menos carecas? Se não, sem problemas, foi só um comentário aleatório para criar mais intimidade no primeiro parágrafo. 


Anos atrás, quando havia mais vovôs carecas, fiz uma prova bem difícil na faculdade. Virei a noite estudando, bebendo café, energético e chimarrão, cheguei na sala de aula trêmula. Muito mais culpa dos estimulantes do que medo das questões. Sabia o conteúdo, acho que fui bem. Não me recordo do resultado, mas lembro do professor entregando a prova e comentando enquanto eu tremia os dedinhos ajeitando as canetas da sorte para fora do estojo: “dedos longos de pianista”. Ele nem reparou nos meus espasmos, o que significa que o tamanho dos meus dedos chamava bem mais a atenção. Compreensível. 


São dedos longos e estranhos. Eu não tenho uma mão muito feminina, delicada, não consigo ter unhas compridas, dificilmente as pinto. Poderia participar das aulas de anatomia, ilustrando o sistema venoso, porque todas as veias da minha mão são bem exibidas. Já quebrei dedos que são tortos, outros são tortos sem quebrar. Eu tenho calos de escrever, desenhar e pintar (atualmente, tenho uma tendinite de Quervain pelo mesmo motivo). As minhas unhas são uma de cada tipo, que nem as do meu pai. Aliás, as minhas mãos são fotocópias autenticadas das mãos dele. Ouso dizer que os pés também. Por óbvio, as mãos e pés dele ficam muito bem nele. Em mim, bom, eu me adaptei. Faço bom uso. 


Como em tantas coisas da vida, adaptação é melhor opção do que sofrimento. Dizem que, para a evolução dos seres, a capacidade de adaptação foi determinante no processo de seleção natural. Certo, Darwin? Tudo bem, não temos centenas de anos para isso. Precisamos nos adaptar neste lapso temporal que estamos no aqui e agora chamado vida. 


Nem todos os eventos têm potencial para promover no nosso peito um impacto avassalador. Não sejamos tolos, muito menos frágeis. O ser humano é feito para se adaptar. Reconhecer isto é inteligente. A grande verdade sobre a tão falada resiliência, talvez seja esta. 


Resiliência é uma das palavras que está na moda. Tem curso sobre o assunto, live, e-book, floral, meditação, conselho em palito de picolé. Ser resiliente, como já ouvi muitas vezes, é diferente de ser sempre a mesma coisa, voltar a que já se foi. Em matéria de ser humano, graças a Deus, isso é quase impensável. Um dia após o outro, sendo igual, é impossível, a menos que a pessoa seja uma estátua, indiferente por completo, desatenta e insensível ao mundo. Viver um dia a mais é ter um dia a menos, o que já faz a diferença. E quando há algo tão definitivo que não se pode mudar, aceitar isso de peito aberto e entender o que significa. Adaptar-se ao mundo real. Afivele o cinto, não levante enquanto as luzes estiverem acesas, porque aqui também tem turbulência. 


Não posso mudar os meus dedos longos e mãos pouco femininas, mas fico bem feliz quando reconheço esta característica no meu pai e vejo que meu filho também a tem. Carrego três canecas de café em cada mão sem derrubar, alcanço objetos bem mais alto, faço teatro de sombra com personagens incríveis. Uso as mãos com charme. Eu sou muito hábil para tudo que envolve baralho, seja truque de mágica, furto na canastra ou apenas uma embaralhada de fazer babar! Um dia ainda aprendo tarô. Posso usar muitos anéis com história nos dedos longos, os meus, os que foram da minha mãe, os que ganhei da minha vó. 


Esconder as mãos em luvas? Nem pensar. Eu mostro as mãos e ostento todos os centímetros dos meus dedos, com calo, cicatriz, veias, tendinite, histórias e utilidades. Aceitação e adaptação não são rivais, são dedos da mesma mão, que tocam as teclas precisas no teclado da vida para que a melodia seja linda. 


Aprendi a usar a falta de delicadeza em favor da precisão. Uma vez, terminando a pintura de um trabalho do colégio, uma colega travestiu de elogio uma desfeita: “Com essa mão desengonçada, até o resultado ficou muito bom”. 


Sorri sem mostrar os dentes e lhe apresentei o dedo do meio em resposta. A falta de delicadeza em favor da precisão. Fui clara? 





pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...