Querido Diário, meu coração tem soluço. Coisa de quem não sabe respirar. Eu, de fato, não sei. Desaprendi um pouco mais na semana passada. Empilhei um monte de tarefas, sentei em cima para caber nas horas, tal qual se faz para fechar uma mala. Fiquei agitada. Sempre penso no manual de instruções do iogurte “agite antes de beber”. Eu, agitada demais, estrago.
Por falar em malas, já estão todas vazias. Cheio está o baú de guardados. Sigo provocando zidanismo, gateando os gatos. Tenho inquilino no bolso do meu casaco. Arrumei o abajur sozinha, usando apenas duas faquinhas e muita astúcia.
Eu vou dormir na MINHA cama, de verdade. Sabe há quanto tempo isso não acontecia? Sabia que eu gosto de gente de alma grande? Que ando comendo muito doce? Que eu penduro coisas estranhas em lugares inusitados? Que, definitivamente, o corpo com frio é bem mais interessante do que com calor? Que perdi os óculos - todos - pela casa e as canecas - algumas - também? Que eu senti saudade, até funguei? Que eu fiquei com dor no abdômen de rir e achei que fosse da academia? Que eu menti em uma, só uma, dessas frases? Não inteira.
Ainda não encontrei as folhas que abastecem o diário físico e só restam duas ilesas às minhas palavras. Por que será que eu escrevo tanto? Ultimamente, nem eu ando saindo muito ilesa a elas. Acontece com quem confessa. É sentença ou liberdade. De qualquer forma, eu escrevo para me prender.Já conversamos sobre isso.
Ontem, dormi tarde, aliás, não lembro de ter dormido cedo esta semana. Talvez tenha dormido pouco e suficiente. Não gosto mesmo de dormir. Fiquei pensando que não foi tão grave. Ouvi, li, repeti.
Conheci histórias tão incríveis. Uma, em especial, convidei para tomar café da manhã comigo e a minha saudade. Entre uma e outra colher de mumu, fiquei pensando sobre quando dois querem e dois não fazem. Não faz nenhum sentido, ao mesmo tempo que faz sentir muito. Eu sinto mesmo. Eu sinto o mesmo.
Diário, escrevi e apaguei esta linha dez vezes. Não consegui concluir se escreveria para sentença ou liberdade. Vou ali dar um susto no meu coração pra ver se passa o soluço. Não é incrível como isso também não faz nenhum sentido? Beijo, Kuky.
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