domingo, 26 de junho de 2022

159 e brilho

 


Querido diário, eu amo esta vida, amo viver. Pode ser que a minha alegria em celebrar aniversário venha daí. Ja escutei pessoas que não comemoram o próprio aniversário dizendo que é porque não gostam de envelhecer, que a morte fica mais próxima com mais aniversários. São inevitáveis, independem do parabéns. Nascemos, vira a ampulheta. A quantidade de areia, só sabemos na despedida. Já nascemos para morrer. Não ignoro a morte, penso, diariamente, nela como validação da intensidade dos meus dias. Eu vivo muito bem, obrigada. Estava pensando nisso enquanto olhava um sorriso, entre tantos na festa que fui sábado. Espontâneo, fugido, sincero, orgânico. Longe de ser um sorriso social. Uma alegria rasgando a face. Eu tenho a boca imensa, riso fácil, disfarçar é trabalhoso. Libero logo. A alegria de quem eu amo, me alegra. Gosto de alegria compartilhada entre amigos e amores, amigos de amores pelos quais me afeiçoo.

O brilho de uma personalidade não se mensura em quilates.

Diário, o que acontece quando a pressão da cabine fica estranha e máscaras de oxigênio não caem de lugar algum? Posso te contar a minha experiência? Bom, mantive a calma, respirei lentamente. Sou afoita, respiro errado, em engasgo com ar e tenho soluço. Cozinho quase sempre em fogo alto, há tempos não faço pudim porque fico entediada com o banho-maria. A minha alquimia é veloz. Compreendi que o jogo de cintura precisa de tempo para o rebolado entrar no ritmo. Não sei dançar, me limito ao movimento descoordenado disforme, minha versão do movimento retilíneo uniforme. Pelo menos, carrego certa graça. Tenho sangue felino, às vezes, preciso virar leoa. Malabarista-equilibrista-mágica. Respirei, já te disse. Às vezes, as pessoas se perdem facilmente. O labirinto nem sempre ensina a saída e aprender é comigo mesmo. Vou lendo pessoas, momentos, histórias e movimentos. Inabilidades, diria a minha amiga Zabeti em uma das nossas tantas conversas giratórias em pilares e mesas de bar. Paulinho, água com bolinhas, por favor. Sou portadora de educação e bom senso. Evito falar de cabeça cheia e usar roupas inadequadas. Descombino meus auto-tratos. 

O meu dragão está alegre. Fiz brownie com a Nina. Eduardo está maior que eu. Joana ainda tem furinhos nas mãos como bebês. Pequeno Antônio ama a sua tia e Alice dormiu vestida de caipira. Maria Clara lotou o teatro. Termômetro de festa: o sucesso é diretamente proporcional à quantidade de histórias dos seus desdobramentos. Dada, não foge, ainda me deves detalhes do figth.


 Beijos com brilhos da noite, Kuky.

domingo, 19 de junho de 2022

cuidado e café

 


Querido diário, contemplação e ação fazem parte do processo das virtudes. Na agenda, horários reservados para imprevistos e lições. Bati os pés de apreensão enquanto mergulhava em filosofia para me distrair. Parágrafos acompanhados de bebidas instantâneas. Testei todas, fui graduada sommelier de maquininha em sala de espera. Já deslizava os dedos sobre os botões com a eficiência de uma datilógrafa. O café expresso é delicioso e tem espuma na medida certa; o carioquinha é suave, recomendo para quem prefere menos acidez; o mokatino, doce e encorpado, mesmo sem adição de açúcar; o capuccino, suave com um perfume final de amêndoa e canela; e o chá de pêssego não pêssego, o aroma é melhor do que o sabor. No feriado, uma lição: merecemos bons cafés. Contrabando de tortinha melhora o estado clínico. Merecemos tudo do melhor, sorrimos tentando não provocar a dor. Discretos, como desafiamos as regras, premeditando armadilhas. Improviso, é o que a casa oferece.

Diário, passam tantas pessoas diferentes em uma sala de espera. Um território soberano de população inconstante. A moça do balcão trabalha bastante. Saindo daquela caixinha de concreto, cada um segue seu rumo a outros destinos. Troquei a original pela segunda opção, com janela e sol. Sigo bem solar.

Sabe guardar segredo? Meus librianos hedonistas sabem, só não sabem adivinhar. Gostei tanto deste segredo. É bom escolher a cicatriz que a pele vai abrigar, o cuidado muda. Discreta, sem deixar de ser exibida. Não tem contradição, explico depois. Sabia que o contrário do medo é o amor? O inverso não é verdadeiro, o maior contrário do amor é a indiferença. Contemplação e ação, comecei o texto assim, porque não sei dimensionar um tipo de amor que só me faz agir. Duca me deu presentes, que eu adorei. Dias de glória, eu agradeço.

Lembra, quando eu estava cursando psicologia, precisei fazer um tema de casa, perguntar a três pessoas próximas sobre características minhas. Quando meu pai escreveu “resiliente”, senti um treco. Chamo de treco, porque não tem nome – o que é muito normal até que eu batize os trecos. Concordei ao custo de dobradura entre as sobrancelhas. A resiliência fica guardada no fundo da carteira, como aquela nota grande que resistimos para quebrar até precisar do troco. Quando não tenho mais como impor o que quero, findo o estoque da teimosia, me adapto. Eu sou mais elástica do que pareço, tenho os posteriores da coxa encurtados, culpa da corrida, o que não me torna menos flexível no que preciso. A vida é tão boa, eu gosto tanto que gasto à vista. Meus rendimentos são bons, sem deixar cair a peteca. Eu tenho sorte? Ah, se tenho.

Dormir no sofá, abrir os olhos com suspiros, vigiar o sono, distrair a impaciência, colorir o quarto, assistir filmes (quero um com tiros!), colocar a meia, fechar a bata, devolver o papagaio (não vamos usar), arrumar o travesseiro, segurar o amiguinho, misturar a água no pó para virar leite (sou quase alquimista), coçar as costas e ter histórias para contar. Esta versão é para os netos; já isso, não podemos falar! Descobri que meu Dragão faz fogo em outras tochas. Uma sensação de sossego. Levantei a persiana para a janela emoldurar a aurora, distração conveniente de uma frente leste. Sempre escolho quartos com frente leste, o acaso me deu de presente. Fui embora em dia de chuva, rezei e caminhei sem fazer muito barulho. Conheci uma senhora tão elegante no elevador e perdi o carro várias vezes.

Cuidar do amor é o passo além de amar. Avanço no tabuleiro do jogo da vida. Na alegria e com leveza. Esta deveria ser a jura matrimonial. A melancolia não encaixa, é como a fileira de cor errada que atrapalha a montagem do cubo mágico. Receber as preocupações e o carinho por mensagens, responder cada uma, ligar para a vó, ter a visita do tio, mandar notícias do mimoso, tranquilizar o filhote, rir com a entrevista da cunhada, sentir aconchego com o vídeo dos sobrinhos, a dinda cantora e tanto afeto! É muito bom segurar as mãos que eu nunca vou soltar. Um brinde com chá, à alegria de estar em casa, respirando paz. Manhãs espichadas na cama, distantes do relógio, na medida do possível, seguindo as recomendações médicas.

Beijos, Kuky.

P.S.: Pequeno Antônio veio ver o tio Beto. Segue lindo, tranquilo e risonho, com novas expressões. Deu sorte na Arena. Caminhamos pela sala conversando, difícil foi devolver. Já deixei combinado com ele: vale night da mamãe e do papai, vem pra cá! Ele topou.

OUTRO P.S.: A rosa do Pequeno Príncipe é uma manipuladora.

ÚLTIMO P.S. DESTE TEXTO: Passeio de namoradinhos da terceira idade, passos lentinhos, pausa para recuperar o fôlego lomba acima, até a farmácia. Volta lomba abaixo, numa mão, a mão do amado. Na outra, a sacolinha azul dos medicamentos.

domingo, 12 de junho de 2022

dia dos namorados


 

Querido diário, feliz dia dos namorados! Fiz arte! Nasci com esta sede de fazer tudo enquanto respirar. Os pulmões me cobram! Escrevi e reescrevi este texto várias vezes. O primeiro falava de Darwin, me pediram para escrever sobre o dia dos namorados, aí, tanta coisa aconteceu, que todo o escrito já não era tão fiel à realidade. Não sei por que eu teimo em escrever tão antes, se chega no dia de publicar a tua versão digital, reviso e refaço. Olha só, na vida, nunca aguardei tanto por um doze de junho! Vou ganhar o melhor presente! Olha quantas exclamações!!! Estou escrevendo em modo pipoca, saltitando. Quando ganho presente muito desejado, uso na hora, mal desembrulho, se bem que, neste caso, pela moral e bons costumes, melhor não fazer isso. Vou esperar chegar em casa, porque vou buscar no aeroporto. Por falar em presente, passado e futuro, fiz um trato com o tempo. Eu mantinha as horas bem recheadas para que ele aderisse à minha urgência. Tomamos chá, lemos juntos, ri e desenhei. Hoje, já me emburrei um pouco com ele, pode ter sido culpa minha, que esqueci de negociar com a saudade, mas é que ela nunca me beliscou. Quando eu tinha seis anos, meu pai passou quase um ano morando no Japão. Sabe como era a comunicação em 1986? Depois disso, fiquei cascuda para sentir saudade. Quando perdi a minha vó, atualizei as definições de ausência e aprendi a conviver com o que ela me deixou correndo nas veias.

Diário, o tempo é sempre muito gentil comigo, mesmo quando eu tento trapacear com ele, impondo os meus tic-tacs. Preciso reconhecer que o tempo me educa. Adestra os meus impulsos de quero já, quero tudo, quero agora, faço e aconteço. Lembro de uma conversa que escutei na fila do mercado. Um moço confessava para o outro o amor por alguém com quem ele se importava, gostava de estar, tinha intimidade, se entendia e sentia retribuído na mesma moeda. Disse que estar com ela era divertido e prazeroso, traçou um bom perfil da guria, afirmou que conversavam bastante, porém (afe, o porém), não podia levar as coisas adiante porque não era o momento. Sou da opinião que se deve dar nome às coisas. Com bico de pato, pena de pato, jeito de andar de pato, pé de pato e falando “quack”, é pato. Não é ornitorrinco. Ele já havia dado o próximo passo, sentido o frio na espinha, era relacionamento, e este blábláblá foi só um jeito de amordaçar a coragem de assumir: isso é sério, seríssimo. O amor acontece, o namoro acontece, antes do eu te amo, antes do quer namorar comigo. O elo se forma antes das palavras. Os gregos diziam que antes do fato, do material, tudo já existe em um plano das ideias. Outra hora chamo Platão para este assunto. Senti um ímpeto de falar para o moço que a vida passa enquanto ele está esperando a pocaria da hora certa, que não existe. Eu não consigo nem acordar na hora que o alarme do celular desperta, abro os olhos antes. Imagina esperar a tal hora certa. Mais fácil esperar o Papai Noel. Desejo à moça que encontre alguém mais corajoso, que negligencie ponteiros, que faça a hora.

Posso implicar muito com o tempo, mas não o culpo por coisa alguma. Sabe, quando beijei o Beto – sustento esta versão porque é assim que quero contar para os netos -, já habitava em mim um sentimento sem nome e uma vontade que me dava bastante dor de ideia. Minha irmãzinha me deu aspirina em palavras. Nada como ter a melhor amiga dentro de casa, quando tento explicar a conexão que a bebezinha e eu temos, nem desenhando é possível. Eu tenho mesmo é muita sorte.

Beijei e quis sustentar no outro dia muita calma. “Estamos nos conhecendo”, justifiquei para os presentes, levei pito e puxão de orelhas – sim, estou ampliando o drama do momento em prol dos netos. Eu disse que o namoro começou no primeiro beijo, fake, convencionamos a data para poder contabilizar. Já sentia saudade antes, já abastecia preocupações, zelo e cuidado. Já amava sem reconhecer e namorava sem dizer. Minhas guerras e eu. A paz do meu Guerra e eu. Recebi, hoje, a mensagem mais doce que um namorado poderia escrever. Quero abraçar o tempo e toda a saudade que eu senti durante esses dias. Obrigada. É bom ser de alguém a ponto de carregar o amor na pele. Para onde eu for, onde ele estiver, juntos. Daqui a pouco, te abraço, meu amor.

Feliz dia dos namorados!

domingo, 5 de junho de 2022

zero cinco zero seis vinte vinte e dois

 

Querido diário, parabéns! Há um ano, eu publiquei por aqui, os primeiros escritos da tua versão digital. Ainda não descobri o tamanho do mundo, sigo atenta às mensagens que o silêncio manda de tempos em tempos, penduro bandeirolas, carrego tralhas nos bolsos, levo sorrisos e meu coração tem soluço. Persisto inchorável (quase), bruta (porém, amável), queridinha (Felipe confirma) e ruiva (não mais tão convicta). A insônia segue pontual, mas o sonho do mergulho no olho castanho está mais raro. Bela e breve retrospectiva. Fiquei sabendo, um pouco antes de vir te escrever, que a tua versão virtual foi um dos fatores responsáveis pelas alegres badaladas do meu coração. Pensava que eram os passinhos, porque levei até puxão de orelhas pelo atraso de uma manhã.

Olha só, estou sem livros inéditos, então, estou relendo os que deixo por perto. Há pouco, li, prestando a atenção que não havia dado na primeira leitura, sobre a corporeidade do amor e a amplitude que toma na vida. Sobre a profundidade do olhar entre duas pessoas, quando uma faz parte da outra. A vida amorosa é a própria vida, sem capítulo apartado, quando o amor é de corpo e alma, integral. Coincidência ou não, escrevi algo bem parecido nas tuas folhas analógicas. Na semana passada, uma leitora muito querida destes escritos, perguntou se acredito que cada panela tem a sua tampa. A resposta é muito mais analítica (barra, filosófica) do que romântica.

Outras páginas repetidas me fizeram pensar sobre o passado. Diziam, em forma de conselho: “não se acostume a acorrentar a sua volatilidade em votos” e que o passado é um teste. De fato, é. Talvez, na primeira vez, eu tenha lido vitalidade, no lugar de volatilidade e a frase tenha me parecido óbvia. Volatilidade. É a mudança, é a transformação. É mais volátil quem tem maior capacidade de evaporar, mudar de estado. Os amigos costumam brincar que eu toco uma fumaça ninja e sumo. Evaporo dos eventos. Ultimamente, evaporo antes de ir. Não é só isso. 

Às vezes prometemos nunca mais fazer tal coisa, por uma experiência desagradável. Ou, prometemos fazer, por um motivo que deixa de existir e persistimos, insistindo na promessa que nos acorrenta, impedindo de ajustar as velas. Se não é naufrágio, é deriva. Qualquer um, não fará bom marinheiro na imprecisão da vida, afinal, só navegar é preciso. Mesmo assim, olha onde foi parar o Titanic. Todas as poucas vezes que insisti por motivos pueris, perdi tempo. Ganhei sabedoria. Foi um teste, não há remorso. Talvez, uma coisinha, cujo nome escutei hoje: arrependimento. Isso é muito humano. Serve para olhar pra frente. Foi um teste. Passei a semana testando ir à academia no final do dia. Não me serve. Preciso começar o dia suando, esbaforida, fazendo força. Claro, deste teste, não me arrependo, mas, não prometo que nunca mais.

Pode ser que algumas convicções e certezas venham dos testes, outras, são de fábrica. Reconheço características que tenho, investigando os porquês, encontro certas respostas. Lembro da infância, marchas com dedo em riste, declarando o que iria ou não fazer. 

Nas tuas folhas, Diário, há poucos figurantes. Raras pinceladas para contar fatos ou discorrer sobre conclusões, possibilidades e análises da minha própria vida. Pitadas de pessoas à gosto. Ou, contragosto. Aí, tu tentarás me corrigir, me pedindo para ler os últimos meses de escritos. Calma, seu folhento, cuida que te faço orelhas! Reforço o que digo agora e o que disse antes, sobre a corporeidade do amor. Segundo parágrafo, volta lá: uma pessoa faz parte da outra, não existe um capítulo a parte. Olha só, se não te destes conta, nem um diário apartado. Surpreso? Impossível desentranhar.

Por isso, agradeço. Sentir amor é subir um degrau para onde o ser humano deve ir, para frente e para cima, ao mesmo tempo. Junto. Juntos, é divino*.

Diário, tua próxima publicação digital vai ser tri importante. No próximo domingo, será dia dos namorados e eu adoro este dia! Namorando ou não (sempre escrevo isso). Estou contando os dias, porque vou ganhar o melhor presente. Óbvio que eu já sei, nem encomendei, mas vou buscar! Confesso um misto de nervoso com cócegas pelo lado de dentro das costelas, taquicardia, impaciência e chiclé de menta. Estou que nem presidiário riscando os palitinhos de dias de prisão na parede do cárcere. Não, não vou a óbito, vou ao aeroporto. Depois, sim, morro de alegria em vida, como sempre, bem vivida.

Beijos, Kuky, riscando mais um palitinho na parede.

 

*NOTA DE RODAPÉ SEM RODAPÉ: Divino, na definição do dicionário, é relativo a ou originário de Deus ou de deuses. Relativo às coisas divinas; sagrado. Que se assemelha a Deus ou a deuses. (Para frente e para cima)

P.s.: A mamãe encontrou a minha pombinha do Espírito Santo, presente da minha Dedé!



pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...