domingo, 19 de junho de 2022

cuidado e café

 


Querido diário, contemplação e ação fazem parte do processo das virtudes. Na agenda, horários reservados para imprevistos e lições. Bati os pés de apreensão enquanto mergulhava em filosofia para me distrair. Parágrafos acompanhados de bebidas instantâneas. Testei todas, fui graduada sommelier de maquininha em sala de espera. Já deslizava os dedos sobre os botões com a eficiência de uma datilógrafa. O café expresso é delicioso e tem espuma na medida certa; o carioquinha é suave, recomendo para quem prefere menos acidez; o mokatino, doce e encorpado, mesmo sem adição de açúcar; o capuccino, suave com um perfume final de amêndoa e canela; e o chá de pêssego não pêssego, o aroma é melhor do que o sabor. No feriado, uma lição: merecemos bons cafés. Contrabando de tortinha melhora o estado clínico. Merecemos tudo do melhor, sorrimos tentando não provocar a dor. Discretos, como desafiamos as regras, premeditando armadilhas. Improviso, é o que a casa oferece.

Diário, passam tantas pessoas diferentes em uma sala de espera. Um território soberano de população inconstante. A moça do balcão trabalha bastante. Saindo daquela caixinha de concreto, cada um segue seu rumo a outros destinos. Troquei a original pela segunda opção, com janela e sol. Sigo bem solar.

Sabe guardar segredo? Meus librianos hedonistas sabem, só não sabem adivinhar. Gostei tanto deste segredo. É bom escolher a cicatriz que a pele vai abrigar, o cuidado muda. Discreta, sem deixar de ser exibida. Não tem contradição, explico depois. Sabia que o contrário do medo é o amor? O inverso não é verdadeiro, o maior contrário do amor é a indiferença. Contemplação e ação, comecei o texto assim, porque não sei dimensionar um tipo de amor que só me faz agir. Duca me deu presentes, que eu adorei. Dias de glória, eu agradeço.

Lembra, quando eu estava cursando psicologia, precisei fazer um tema de casa, perguntar a três pessoas próximas sobre características minhas. Quando meu pai escreveu “resiliente”, senti um treco. Chamo de treco, porque não tem nome – o que é muito normal até que eu batize os trecos. Concordei ao custo de dobradura entre as sobrancelhas. A resiliência fica guardada no fundo da carteira, como aquela nota grande que resistimos para quebrar até precisar do troco. Quando não tenho mais como impor o que quero, findo o estoque da teimosia, me adapto. Eu sou mais elástica do que pareço, tenho os posteriores da coxa encurtados, culpa da corrida, o que não me torna menos flexível no que preciso. A vida é tão boa, eu gosto tanto que gasto à vista. Meus rendimentos são bons, sem deixar cair a peteca. Eu tenho sorte? Ah, se tenho.

Dormir no sofá, abrir os olhos com suspiros, vigiar o sono, distrair a impaciência, colorir o quarto, assistir filmes (quero um com tiros!), colocar a meia, fechar a bata, devolver o papagaio (não vamos usar), arrumar o travesseiro, segurar o amiguinho, misturar a água no pó para virar leite (sou quase alquimista), coçar as costas e ter histórias para contar. Esta versão é para os netos; já isso, não podemos falar! Descobri que meu Dragão faz fogo em outras tochas. Uma sensação de sossego. Levantei a persiana para a janela emoldurar a aurora, distração conveniente de uma frente leste. Sempre escolho quartos com frente leste, o acaso me deu de presente. Fui embora em dia de chuva, rezei e caminhei sem fazer muito barulho. Conheci uma senhora tão elegante no elevador e perdi o carro várias vezes.

Cuidar do amor é o passo além de amar. Avanço no tabuleiro do jogo da vida. Na alegria e com leveza. Esta deveria ser a jura matrimonial. A melancolia não encaixa, é como a fileira de cor errada que atrapalha a montagem do cubo mágico. Receber as preocupações e o carinho por mensagens, responder cada uma, ligar para a vó, ter a visita do tio, mandar notícias do mimoso, tranquilizar o filhote, rir com a entrevista da cunhada, sentir aconchego com o vídeo dos sobrinhos, a dinda cantora e tanto afeto! É muito bom segurar as mãos que eu nunca vou soltar. Um brinde com chá, à alegria de estar em casa, respirando paz. Manhãs espichadas na cama, distantes do relógio, na medida do possível, seguindo as recomendações médicas.

Beijos, Kuky.

P.S.: Pequeno Antônio veio ver o tio Beto. Segue lindo, tranquilo e risonho, com novas expressões. Deu sorte na Arena. Caminhamos pela sala conversando, difícil foi devolver. Já deixei combinado com ele: vale night da mamãe e do papai, vem pra cá! Ele topou.

OUTRO P.S.: A rosa do Pequeno Príncipe é uma manipuladora.

ÚLTIMO P.S. DESTE TEXTO: Passeio de namoradinhos da terceira idade, passos lentinhos, pausa para recuperar o fôlego lomba acima, até a farmácia. Volta lomba abaixo, numa mão, a mão do amado. Na outra, a sacolinha azul dos medicamentos.

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