Querido diário, feliz dia dos namorados! Fiz arte! Nasci com
esta sede de fazer tudo enquanto respirar. Os pulmões me cobram! Escrevi e
reescrevi este texto várias vezes. O primeiro falava de Darwin, me pediram para
escrever sobre o dia dos namorados, aí, tanta coisa aconteceu, que todo o
escrito já não era tão fiel à realidade. Não sei por que eu teimo em escrever
tão antes, se chega no dia de publicar a tua versão digital, reviso e refaço. Olha
só, na vida, nunca aguardei tanto por um doze de junho! Vou ganhar o
melhor presente! Olha quantas exclamações!!! Estou escrevendo em modo pipoca,
saltitando. Quando ganho presente muito desejado, uso na hora, mal desembrulho,
se bem que, neste caso, pela moral e bons costumes, melhor não fazer isso. Vou
esperar chegar em casa, porque vou buscar no aeroporto. Por falar em presente,
passado e futuro, fiz um trato com o tempo. Eu mantinha as horas bem recheadas
para que ele aderisse à minha urgência. Tomamos chá, lemos juntos, ri e
desenhei. Hoje, já me emburrei um pouco com ele, pode ter sido culpa minha, que
esqueci de negociar com a saudade, mas é que ela nunca me beliscou. Quando eu
tinha seis anos, meu pai passou quase um ano morando no Japão. Sabe como era a
comunicação em 1986? Depois disso, fiquei cascuda para sentir saudade. Quando
perdi a minha vó, atualizei as definições de ausência e aprendi a conviver com
o que ela me deixou correndo nas veias.
Diário, o tempo é sempre muito
gentil comigo, mesmo quando eu tento trapacear com ele, impondo os meus tic-tacs.
Preciso reconhecer que o tempo me educa. Adestra os meus impulsos de quero já,
quero tudo, quero agora, faço e aconteço. Lembro de uma conversa que escutei na
fila do mercado. Um moço confessava para o outro o amor por alguém com quem ele
se importava, gostava de estar, tinha intimidade, se entendia e sentia retribuído
na mesma moeda. Disse que estar com ela era divertido e prazeroso, traçou um
bom perfil da guria, afirmou que conversavam bastante, porém (afe, o porém),
não podia levar as coisas adiante porque não era o momento. Sou da opinião que
se deve dar nome às coisas. Com bico de pato, pena de pato, jeito de andar de
pato, pé de pato e falando “quack”, é pato. Não é ornitorrinco. Ele já havia
dado o próximo passo, sentido o frio na espinha, era relacionamento, e este
blábláblá foi só um jeito de amordaçar a coragem de assumir: isso é sério,
seríssimo. O amor acontece, o namoro acontece, antes do eu te amo, antes do
quer namorar comigo. O elo se forma antes das palavras. Os gregos diziam que antes
do fato, do material, tudo já existe em um plano das ideias. Outra hora chamo Platão
para este assunto. Senti um ímpeto de falar para o moço que a vida passa enquanto
ele está esperando a pocaria da hora certa, que não existe. Eu não consigo nem
acordar na hora que o alarme do celular desperta, abro os olhos antes. Imagina
esperar a tal hora certa. Mais fácil esperar o Papai Noel. Desejo à moça que
encontre alguém mais corajoso, que negligencie ponteiros, que faça a hora.
Posso implicar muito com o tempo,
mas não o culpo por coisa alguma. Sabe, quando beijei o Beto – sustento esta
versão porque é assim que quero contar para os netos -, já habitava em mim um
sentimento sem nome e uma vontade que me dava bastante dor de ideia. Minha irmãzinha
me deu aspirina em palavras. Nada como ter a melhor amiga dentro de casa,
quando tento explicar a conexão que a bebezinha e eu temos, nem desenhando é possível.
Eu tenho mesmo é muita sorte.
Beijei e quis sustentar no outro
dia muita calma. “Estamos nos conhecendo”, justifiquei para os presentes, levei
pito e puxão de orelhas – sim, estou ampliando o drama do momento em prol dos
netos. Eu disse que o namoro começou no primeiro beijo, fake, convencionamos a
data para poder contabilizar. Já sentia saudade antes, já abastecia preocupações,
zelo e cuidado. Já amava sem reconhecer e namorava sem dizer. Minhas guerras e
eu. A paz do meu Guerra e eu. Recebi, hoje, a mensagem mais doce que um
namorado poderia escrever. Quero abraçar o tempo e toda a saudade que eu senti
durante esses dias. Obrigada. É bom ser de alguém a ponto de carregar o amor na
pele. Para onde eu for, onde ele estiver, juntos. Daqui a pouco, te abraço, meu amor.
Feliz dia dos namorados!
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