domingo, 12 de junho de 2022

dia dos namorados


 

Querido diário, feliz dia dos namorados! Fiz arte! Nasci com esta sede de fazer tudo enquanto respirar. Os pulmões me cobram! Escrevi e reescrevi este texto várias vezes. O primeiro falava de Darwin, me pediram para escrever sobre o dia dos namorados, aí, tanta coisa aconteceu, que todo o escrito já não era tão fiel à realidade. Não sei por que eu teimo em escrever tão antes, se chega no dia de publicar a tua versão digital, reviso e refaço. Olha só, na vida, nunca aguardei tanto por um doze de junho! Vou ganhar o melhor presente! Olha quantas exclamações!!! Estou escrevendo em modo pipoca, saltitando. Quando ganho presente muito desejado, uso na hora, mal desembrulho, se bem que, neste caso, pela moral e bons costumes, melhor não fazer isso. Vou esperar chegar em casa, porque vou buscar no aeroporto. Por falar em presente, passado e futuro, fiz um trato com o tempo. Eu mantinha as horas bem recheadas para que ele aderisse à minha urgência. Tomamos chá, lemos juntos, ri e desenhei. Hoje, já me emburrei um pouco com ele, pode ter sido culpa minha, que esqueci de negociar com a saudade, mas é que ela nunca me beliscou. Quando eu tinha seis anos, meu pai passou quase um ano morando no Japão. Sabe como era a comunicação em 1986? Depois disso, fiquei cascuda para sentir saudade. Quando perdi a minha vó, atualizei as definições de ausência e aprendi a conviver com o que ela me deixou correndo nas veias.

Diário, o tempo é sempre muito gentil comigo, mesmo quando eu tento trapacear com ele, impondo os meus tic-tacs. Preciso reconhecer que o tempo me educa. Adestra os meus impulsos de quero já, quero tudo, quero agora, faço e aconteço. Lembro de uma conversa que escutei na fila do mercado. Um moço confessava para o outro o amor por alguém com quem ele se importava, gostava de estar, tinha intimidade, se entendia e sentia retribuído na mesma moeda. Disse que estar com ela era divertido e prazeroso, traçou um bom perfil da guria, afirmou que conversavam bastante, porém (afe, o porém), não podia levar as coisas adiante porque não era o momento. Sou da opinião que se deve dar nome às coisas. Com bico de pato, pena de pato, jeito de andar de pato, pé de pato e falando “quack”, é pato. Não é ornitorrinco. Ele já havia dado o próximo passo, sentido o frio na espinha, era relacionamento, e este blábláblá foi só um jeito de amordaçar a coragem de assumir: isso é sério, seríssimo. O amor acontece, o namoro acontece, antes do eu te amo, antes do quer namorar comigo. O elo se forma antes das palavras. Os gregos diziam que antes do fato, do material, tudo já existe em um plano das ideias. Outra hora chamo Platão para este assunto. Senti um ímpeto de falar para o moço que a vida passa enquanto ele está esperando a pocaria da hora certa, que não existe. Eu não consigo nem acordar na hora que o alarme do celular desperta, abro os olhos antes. Imagina esperar a tal hora certa. Mais fácil esperar o Papai Noel. Desejo à moça que encontre alguém mais corajoso, que negligencie ponteiros, que faça a hora.

Posso implicar muito com o tempo, mas não o culpo por coisa alguma. Sabe, quando beijei o Beto – sustento esta versão porque é assim que quero contar para os netos -, já habitava em mim um sentimento sem nome e uma vontade que me dava bastante dor de ideia. Minha irmãzinha me deu aspirina em palavras. Nada como ter a melhor amiga dentro de casa, quando tento explicar a conexão que a bebezinha e eu temos, nem desenhando é possível. Eu tenho mesmo é muita sorte.

Beijei e quis sustentar no outro dia muita calma. “Estamos nos conhecendo”, justifiquei para os presentes, levei pito e puxão de orelhas – sim, estou ampliando o drama do momento em prol dos netos. Eu disse que o namoro começou no primeiro beijo, fake, convencionamos a data para poder contabilizar. Já sentia saudade antes, já abastecia preocupações, zelo e cuidado. Já amava sem reconhecer e namorava sem dizer. Minhas guerras e eu. A paz do meu Guerra e eu. Recebi, hoje, a mensagem mais doce que um namorado poderia escrever. Quero abraçar o tempo e toda a saudade que eu senti durante esses dias. Obrigada. É bom ser de alguém a ponto de carregar o amor na pele. Para onde eu for, onde ele estiver, juntos. Daqui a pouco, te abraço, meu amor.

Feliz dia dos namorados!

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