quarta-feira, 15 de julho de 2020

brevidades

   
Café em Valadares 

Brevidades são bolinhos feitos com ovos, açúcar e polvilho doce. Já fiquei sabendo que existem versões com maisena, pequi e canela. Provei o tradicional, por insistência da moça da padaria, quando estive em Governador Valadares, ou melhor, Valadares. Lugar onde o "xis" se chama gauchão. 

   As brevidades originais são gostosinhas, farinhentas e grudam um pouco no céu da boca, a dica é consumir com café. Pode ser que tenham parentesco com o bolo inglês. A casquinha de cima é crocante, mas cede fácil à mordida, de modo que, se você usa chapa, ponte, aparelho ou dentadura, não terá dificuldades. Não sei se foram batizadas assim por serem rápidas de fazer ou por serem rápidas de comer. De qualquer forma, são breves nos dois quesitos.  

   Breve como este texto para falar de brevidades. Outras brevidades. Pequenas coisas nem sempre tão açucaradas como os bolinhos, sobre as quais, sejamos ligeiros, não percamos nosso precioso tempo. Então, rapidinho, vamos lá. Tenho cada vez mais convicção de que foco e planejamento podem nos levar mais longe naquilo que queremos. Escolher uma meta e traçar o caminho do maior para o menor. Cinco anos, um ano, um mês, um dia, este momento. A pergunta é: como você age agora para o objetivo que está a cinco anos daqui? É importante saber o que devemos fazer e consumir, bem como o que devemos descartar. Avaliar a utilidade neste momento sem tirar o olho do longo prazo, ponderar sobre o tempo investido. 

   Já li em algum lugar que o erro é inevitável, então que se erre rápido. Sendo breve, traz um bom aprendizado com pouco gasto de tempo. Erro no início, erro no percurso, ou erro no resultado, que a avaliação seja certeira, assim, haverá uma lição. Afinal, toda a falha tem algo a ensinar. Quem tem sucesso não é quem não erra, é quem não carrega a culpa. Nota - breve - não falei em se isentar da responsabilidade ou culpar as circunstâncias, o outro, os astros, o gato preto que cruzou a estrada. 

   A responsabilidade é sua, sim, por suas escolhas, logo, a culpa é sua. O que eu disse é que não precisa fazer dela um tijolo, uma rocha, algo tão pesado que impeça suas asas de te fazer voar. E, acredite, todos podemos voar tirando dos bolsos as pedras que juntamos nas tristezas do caminho. Conhecemos cada uma delas, chamamos pelo nome, reconhecemos e agradecemos. Ser grato pelas amarguras é nobre. Aprendemos e nos despedimos delas. Tchau. Sem apego, se desfaça dela. Você pode jogar na cabeça de alguém - mentalmente, óbvio - se isso fizer sentido. 

   Tudo ocupa espaço, tudo é energia. Como pretende ter lugar na vida para alegria se não varre a tristeza diariamente? Um coração só se expande para o amor se pratica o perdão. Mágoa, tristeza, raiva e decepção são pedrinhas feias e pesadas. Ocupam o lugar dos seus diamantes, se for voar, carregue estes que são leves, preciosos, transparentes. Isso, sem falar na maneira como refletem a luz. É a expansão mágica. As asas não sofrem por carregar diamantes. 

   Eu disse que seria breve. Comecei com bolinhos em Valadares, passei pelas pedras do caminho e encerrei na luz dos diamantes. 





RECEITA DE BREVIDADE 

6 ovos
300 gramas de açúcar refinado
500 gramas de polvilho doce
1 pitada de sal

Bata as claras em neve, quando estiver em picos firmes, coloque as gemas, uma a uma para bater em velocidade alta. Adicione aos poucos o açúcar refinado, bata bem até ficarem fofo e aerado. Desligue a batedeira, acrescente o polvilho doce, mexa com delicadeza. Coloque a pitada de sal, deixe a massa homogênea e leve para assar em forno pré-aquecido (180°C) por aproximadamente 30 minutos.


Rendimento: 24 porções


(acharam que eu não ia dar a receita?) 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

nobre


           As minhas pontuais flores-de-maio, neste ano, começaram a colorir a casa no início de junho. Não questionei o atraso, cuidei das regas para que os botões pudessem cumprir seus destinos. Ainda em julho, há algumas flores e  botões agarrados nas pendentes folhas verdes. Tenho convicção da alegria botânica nesta casa, até um pé de abacate vive por aqui. Sucesso para a planta é poder ser planta. Nasce, vive e morre com seu propósito bem definido. Ignoram agenda e calendário sem sofrimento. Alegria é fotossíntese. 

Vivem em harmonia, musgo, orquídea, gerânio, avenca, alecrim e suculenta. Quando não há parasita, um verdinho não toma o que é do outro. A minha avenca não almeja florir, não é da sua natureza. Fico indecisa se posso chamar isso de sabedoria, existe, certamente, um senso de justiça entre elas. 

A nossa vida já é bem mais dinâmica. Pulsa no ser humano uma constante de atitude e movimento vital. Produzimos e gastamos energia por outros meios. Nós podemos - graças ao bom Deus - agir para transformar. Relendo alguns dos meus escritos mais idosos, reconheço a minha letra, certos pensamentos já mudaram. A constatação é clara, desde que nasci, sou a mesma pessoa. Desde quando não sabia caminhar, não sabia falar, passando pela fase das brincadeiras pela rua, escola, adolescência, não deixei de ser eu em constante movimento interno e externo. Há uma essência que nos define que ultrapassa aquilo que fazemos. Como você se definiria sem dizer o que você trabalha? Sem dizer o que você estuda? Quantas coisas já fez que hoje não têm mais sentido? Não faria ou faria diferente? 

Uma pessoa não vive como uma planta, nem sempre seus propósitos são tão verdes, digo, claros. Passamos por etapas diárias em busca de um norte, caso contrário, estaremos perdidos na nossa breve eternidade. Será um passeio por este lapso temporal chamado vida, tristemente dedicado à existência. Mais fácil ter nascido samambaia. Menos divertido, menos complicado. 

Ter a consciência do lugar no qual se pretende chegar, traçar um planejamento e ter um propósito é trabalhoso. Ser a melhor versão de si que se pode. Ter a consciência de que o outro é a melhor versão do que ele pode nos oferecer naquele momento e não o condenar por isso. Sem julgar, oferecer os laços do afeto. Esta consciência é libertadora. Não vivemos para fazer fotossíntese, vivemos por virtudes, princípios e valores que nos fazem escalar o próximo degrau. O caminho é para cima, talvez, mais do que para a frente. Elevar a alma e o pensamento de modo que sejamos dignos da vida que recebemos. 
"Não há nada nobre em ser superior ao seu semelhante; a verdadeira nobreza é ser superior ao seu antigo eu”, escreveu Hemingway. Não passaremos ilesos pela vida, ou não terá valido apenas nascer. É nesta transformação que a mágica acontece. Existe uma grande virtude naqueles que buscam crescer. A régua é sempre própria. Não se meça pelos outros, nem meça os outros pelo teu tamanho. Levante com generosidade legítima aqueles que tropeçam. 

Com a frase de Hemingway, fica a pergunta, onde mora um nobre hoje? Meditei sobre isso e sobre as respostas que recebi. Acredito que um nobre reside no amanhã constante de cada dia, se souber reconhecer o ontem como sua identidade, como um degrau que foi subido rumo ao crescimento virtuoso. Neste percurso, estender a mão, aprender, deixar um pouco de si é mais eficiente do que se apoiar no outro para subir. Cada degrau de uma vida digna constrói a escada que eleva o ser humano. Não é subir nos outros, ultrapassar o próximo. É vencer a nós mesmos sem perder os olhos do propósito e a alma da essência. 

A minha avenca que não almeja florir

pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...