As minhas pontuais flores-de-maio, neste ano, começaram a colorir a casa no início de junho. Não questionei o atraso, cuidei das regas para que os botões pudessem cumprir seus destinos. Ainda em julho, há algumas flores e botões agarrados nas pendentes folhas verdes. Tenho convicção da alegria botânica nesta casa, até um pé de abacate vive por aqui. Sucesso para a planta é poder ser planta. Nasce, vive e morre com seu propósito bem definido. Ignoram agenda e calendário sem sofrimento. Alegria é fotossíntese.
Vivem em harmonia, musgo, orquídea, gerânio, avenca, alecrim e suculenta. Quando não há parasita, um verdinho não toma o que é do outro. A minha avenca não almeja florir, não é da sua natureza. Fico indecisa se posso chamar isso de sabedoria, existe, certamente, um senso de justiça entre elas.
A nossa vida já é bem mais dinâmica. Pulsa no ser humano uma constante de atitude e movimento vital. Produzimos e gastamos energia por outros meios. Nós podemos - graças ao bom Deus - agir para transformar. Relendo alguns dos meus escritos mais idosos, reconheço a minha letra, certos pensamentos já mudaram. A constatação é clara, desde que nasci, sou a mesma pessoa. Desde quando não sabia caminhar, não sabia falar, passando pela fase das brincadeiras pela rua, escola, adolescência, não deixei de ser eu em constante movimento interno e externo. Há uma essência que nos define que ultrapassa aquilo que fazemos. Como você se definiria sem dizer o que você trabalha? Sem dizer o que você estuda? Quantas coisas já fez que hoje não têm mais sentido? Não faria ou faria diferente?
Uma pessoa não vive como uma planta, nem sempre seus propósitos são tão verdes, digo, claros. Passamos por etapas diárias em busca de um norte, caso contrário, estaremos perdidos na nossa breve eternidade. Será um passeio por este lapso temporal chamado vida, tristemente dedicado à existência. Mais fácil ter nascido samambaia. Menos divertido, menos complicado.
Ter a consciência do lugar no qual se pretende chegar, traçar um planejamento e ter um propósito é trabalhoso. Ser a melhor versão de si que se pode. Ter a consciência de que o outro é a melhor versão do que ele pode nos oferecer naquele momento e não o condenar por isso. Sem julgar, oferecer os laços do afeto. Esta consciência é libertadora. Não vivemos para fazer fotossíntese, vivemos por virtudes, princípios e valores que nos fazem escalar o próximo degrau. O caminho é para cima, talvez, mais do que para a frente. Elevar a alma e o pensamento de modo que sejamos dignos da vida que recebemos.
"Não há nada nobre em ser superior ao seu semelhante; a verdadeira nobreza é ser superior ao seu antigo eu”, escreveu Hemingway. Não passaremos ilesos pela vida, ou não terá valido apenas nascer. É nesta transformação que a mágica acontece. Existe uma grande virtude naqueles que buscam crescer. A régua é sempre própria. Não se meça pelos outros, nem meça os outros pelo teu tamanho. Levante com generosidade legítima aqueles que tropeçam.
Com a frase de Hemingway, fica a pergunta, onde mora um nobre hoje? Meditei sobre isso e sobre as respostas que recebi. Acredito que um nobre reside no amanhã constante de cada dia, se souber reconhecer o ontem como sua identidade, como um degrau que foi subido rumo ao crescimento virtuoso. Neste percurso, estender a mão, aprender, deixar um pouco de si é mais eficiente do que se apoiar no outro para subir. Cada degrau de uma vida digna constrói a escada que eleva o ser humano. Não é subir nos outros, ultrapassar o próximo. É vencer a nós mesmos sem perder os olhos do propósito e a alma da essência.
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| A minha avenca que não almeja florir |


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