domingo, 28 de agosto de 2022

pontualidade

 

Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto que é relativo, Einstein me daria razão. Quis ser poética, estou escrevendo em uma mesa bamba, num posto de gasolina enquanto trocam o óleo do carro com quilômetros de atraso que irão se transformar em quilômetros de vantagens. Sinto cheiro de pão de queijo, gasolina e mais alguma coisa. Pela janela, a Avenida Ipiranga sem a esquina com a São João, o Arroio Dilúvio e o trânsito da cidade. Pedi um café expresso, a xícara está mal lavada com cheiro de ovo, não vou tomar, porque deve fazer mais de dez anos que me vacinei com a antitetânica. Foi quando cortei dois dedos com uma faca de queijo na tentativa de obter um furo a mais em um cinto de couro. Na saída, pegarei um energético.

Onde eu me desligo? Recostei na cadeira e pensei isso. Mal passou do meio-dia, fiz um bocado de coisas, falei com pessoas, fiz mais de uma reunião, resolvi problemas, defini o que precisava, respondi clientes, fui na academia, mandei mensagem para o filho, namorei o namorado. Não desligo, isso não me incomoda. Nem um pouco me estressa. Eu gosto de me sentir viva e se fico um tantinho mais quietinha por fora, pode ter certeza, estou borbulhando por dentro.

A cronologia que é chata, porque é quantitativa, cronometrada. Quantos minutos são necessários para se apaixonar? Quantas horas dura uma saudade?

Eu me apaixonei rápido. Sinto saudade do namorado na primeira fração de segundo que estou longe. Desejo o tempo todo, uso vários tic-tacs em beijos. O Beto já é mais de contar, mas não esconde a pressa. Confessa urgências e, a cada viagem, riscamos juntos os palitinhos de uma parede imaginária da prisão da distância. É um passatempo na tradução mais crua da palavra. Diário, sabia que euzinha já fui contada?

O Beto faz contas olhando para cima, quase consigo enxergar os números dançando, somando, multiplicando. Está sempre com créditos. Tem cartão ilimitado do meu afeto, ações em alta na bolsa do amor e subindo.

Em uma das conversas virtuais, antes do primeiro beijo, Beto foi um pouco mais direto nas intenções. Devo ter demorado para responder, estudando a melhor rota até a tangente por onde costumo sair quando fujo das respostas. Esperto, sempre educado, quis saber se eu achava que era cedo. Me deu a chance de explicar que não tenho apego a estas dosagens, gasto a vida à vista. Tenho uma noção própria do tempo, mais ligada às intensidades do que aos ponteiros do relógio.

Nos dias ímpares da semana passada, expliquei como começamos a namorar. A pergunta foi “há quanto tempo vocês estão juntos?” Engraçado que já nos perguntavam isso antes de termos passado vinte e quatro horas juntos (foi quando levei pito!). Exercitando o poder de síntese, poderia responder, sem mentir, que faz uma vida. Quase oito meses no calendário gregoriano. Fomos atingidos pela intimidade instantânea, mais rápida do que fazer um miojo.

O namoro começou no primeiro beijo, o amor chegou antes. Talvez, muito antes, perto daquele dia que sentei embaixo de uma árvore na praça Japão e “isso que estou sentindo se chama saudade”. Pisquei rápido os olhos num misto de pavor e eureca.

O meu tempo despreza as horas, os ponteiros marcam intensidades. Conta o que eu sinto. Nunca é cedo, nem tarde. Sou pontualíssima. 

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