segunda-feira, 22 de agosto de 2022

confissão

 

Querido diário, sempre te digo que escrevo mais para me prender do que para me libertar? Este texto é um confessionário. Ajoelho aqui, esperando a penitência de arrastar as correntes das linhas que virão. Existe um tipo de sensibilidade que permite ver além dos olhos e escutar o que as palavras não dizem. Eu, que sou do partido do “me deixa saber”, abuso do contraditório, nem sempre uso palavras, mesmo apaixonada por elas. Crio caminhos alternativos, pouco convencionais e, quem sabe, sem querer. Arriscado? Qual diálogo não é? Por mais hábil que se possa ser com as palavras ditas, nem sempre, do outro lado, estarão os ouvidos dotados das mesmas qualidades. Sou fluente em suspiros. Não preciso de óculos para as entrelinhas. A melhor escola de idiomas é a atenção. Filosofia e psicologia ajudam. Isoladas, é como ter a faca e as mãos, sem o queijo.

Eu peco quando calo e quero que me entendam. Carrego bons contraditórios em mim, este é só mais um deles. Figurinha dourada da coleção, página do meio do álbum. Gosto das palavras e pratico silêncio, se os olhos querem me entregar, pisco apelando para a sedução da simpatia. O contrário também acontece, simulo e me ganham. Peço um dedinho e ganho o meio do peito, aconchegada entre os dois braços que fecham em volta das minhas costelas, se cruzando em cima da minha coluna com ternura e com carinho. A sensibilidade faz a tradução. A convivência ajuda.

Helena Blavatsky disse que todas as formas são produtos da força dual que existe na natureza. A força centrípeta não se manifesta sem a centrífuga. Identifico fortemente estas dualidades quando reflito no espelho. Minha forja. Peco quando descuido, o resultado é sair do prumo. Penso bem, procuro o plano de voo que tracei para adequar a rota – planos podem ser reformados. Meditar sobre si não é egoísmo, é fundamental para entender a pequenice maravilhosa que é um ser humano. Carregamos uma força divina, a própria vida habitando o corpo. Ao mesmo tempo, somos um pingo do oceano.

Olha só, nunca neguei que eu sou uma pessoa forte. Abasteço este caráter, tanque cheio, aditivada. Disciplino o corpo para que não fique para trás. O que não quer dizer que não seja vulnerável. Descobri há pouco, tem que ser muito forte para falar de fragilidades. Confesso e aqui, sei que pode ter penitência, ainda não consigo, não sei e fujo de aprender.

Confesso, sou ruim de despedidas, não consigo, não sei e fujo de aprender.




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