domingo, 29 de maio de 2022

quebra-cabeças


Querido Diário, vou te contar uma história. Sim, mais uma. Era uma vez, – histórias costumam começar deste jeito – um deus egípcio chamado Osíris, deus dos homens, primeiro faraó, ensinou a agricultura e a cerveja. Ele foi morto e picadinho pelo próprio irmão, Seth. O motivo? Pura inveja. Seth era deus do deserto, não gostava muito disso. O calor lhe dava brotoejas, dizem. Os catorze pedacinhos de Osíris foram espalhados ao longo do Nilo para dificultar a vida de quem o procurasse. Ísis não só encontrou todinhos, como montou o deus (e marido) de novo. Bom, faltou um pedacinho, que ela improvisou, agora, não vem ao caso. Osíris, reconstituído, foi mumificado e ressuscitado, por isso a sua representação nos desenhos é um deus morto, com a pele levemente esverdeada (teria sido Osíris o primeiro zumbi?). Meu sobrinho Felipe pediu ajuda para montar um quebra-cabeças no final de semana. Impaciente com os adultos pulando por cima das peças espalhadas pelo corredor, armou uma barricada com bancos e cadeiras. Ele conseguiu encaixar várias pequenas partes, separadas, dos cantinhos, do meio, que formariam, depois, a unidade. Eu gosto muito de crianças, me dou bem com elas. Talvez, expressem melhor uma originalidade que a memória vai abandonando com o passar dos dias. Crianças têm uma filosofia atípica que deveria ser polida. Osíris, (re)montado, passou a ser um deus do mundo inferior. Pesava o coração dos mortos, que deveria ser mais leve do que uma pluma. Essa história toda relampejou nos meus pensamentos com o Felipe montando e protegendo o quebra-cabeças. Nossas pecinhas da vida são bem mais do que catorze e, às vezes, faltando uma, o improviso de Ísis se faz necessário. É importante proteger e não perder nenhuma. Quando a vida fica assim, um monte de pecinhas desconectadas, é hora de selecionar, agrupar, arrumar. São fases anteriores à montagem. Pode-se ter uma ideia da imagem, porém, apenas montada, estará plenamente visível. A montagem pode demandar ajuda, pode demorar anos. O meu sobrinho, pela idade, não conseguiria sucesso sozinho se a atividade fosse muito complexa. A experiência da vida é a professora mais graduada para isso. O que se vê? Como se interpreta? Com honestidade, cada um só conseguirá enxergar aquilo que é capaz. Como agir? O que fazer? Diário, muitas das minhas pecinhas estão transformadas em palavras nas tuas folhas. É uma das maneiras que eu seleciono, monto e observo. Ah, as palavras, adoro, até quando me faltam. Gosto de pessoas, da complexidade. Essa semana, encontrei a imagem de um quebra-cabeças de quatro peças, mas, difícil de montar, porque se tratavam de quatro virtudes, que só se encaixam quando têm o mesmo tamanho, em equilíbrio: sabedoria, temperança, coragem e justiça. Acredito que, na hora do julgamento de Osíris, haja grande influência dessas peças no peso que a balança marcará. Costumo pensar nessas virtudes com certa constância, uso de balizadoras na educação dos meus defeitos. Linhas na condução das atitudes e, mesmo um tantinho impulsiva, reconheço que, com o tempo, até o arco reflexo da mente fica mais domesticado. Deu trabalho e ainda dá, exige uma presença integral na própria vida e isso é tão bom. Porque, se tem uma coisa que eu gosto mais que tudo, é deste tempo chamado agora. É desta vida. Olha só, tenho companhia na montagem das pecinhas. Uma companhia organizada, muito mais do que eu. Um amor! Adora calcular e dizer que duvida de mim, só para eu responder “não me subestime”. O encaixe está muito bom, perfeito. E, vai melhorar, é o que dizem. Eu confio (e zelo pelas pecinhas). 

Alô, Osíris, sou eu, a Kuky. Sabe a pluma? Pois é, ando leve que nem ela. 

Beijos, Kuky. 


 

domingo, 22 de maio de 2022

fez vento

 


Querido diário, eu dou trabalho? É o que dizem. Mercúrio está retrógrado, há um risco imenso pairando no ar. Sempre bom avisar, caso seja necessário colocar a culpa em alguém, na falta de um oportuno inferno astral, óbvio. Sorte ou revés? Jogue os dados, pegue sua pecinha e retroceda três casinhas. Voltou? Calma. A primeira regra, é manter o espírito tranquilo. Esta recomendação não é minha, é do Marco Aurélio, pessoa que muito me inspira. (Há quem prefira Anitta). Por mais agitada que eu possa ser, gosto do espírito tranquilo. Fico aborrecida se saio da minha homeostase. Abandonar a constância é como usar um sapato apertado. É possível caminhar, mas incomoda. Faz bolha. Meu pé é temperamental. Minha alma é de tergal. A rima foi sem querer. Nas próximas linhas vou escrever sobre um ocorrido sem querer.

Ter dor de ideia, desafina meu humor. Porém, boas leituras, sem aviso ao lido, abastecem a memória com argumentos que me abraçam no apagar da luz de cabeceira. A janela e eu estamos cada vez mais íntimas. Artista de contornos, faroleira das manhãs, é através dela que dançam as luzes nas mechas das cortinas adormecidas. Eu vou edificando outros hábitos. Gosto das manhãs. Minha dor lombar me deixou.

Diário, sabe que o mero desconhecimento da lei não torna a conduta menos delinquente? Uma vez, eu pensei em pedir perdão sem saber exatamente do quê. Caberia mais ou menos na mesma lógica. Medindo bem. Não consegui concluir se estaria sendo egoísta de minha parte. Estiquei os olhos e os outros sentidos para o perímetro externo, cumprindo minha penitência sem atenuantes. Quem fez a dosimetria da pena, devia gostar de mim. Foi sem querer. Viu que anunciaram um baita ciclone? No fim, não passou de um sopro no olho, daqueles para tirar cisco. Vendaval intenso fez pelo meu castelo, sem chuvas e trovoadas. Só vento. Acho a palavra vento lindíssima.

Desmontei o meu quarto, encontrar uma meia é quase uma aventura. A casa está um misto de estoque desorganizado com loja do centro. Aliás, na semana passada, poderia ter feito um desses avisos de grudar nas paredes: ao entrar na minha vida, desculpa a bagunça. Como tenho muita sorte, aprendi a organizar bem minhas caixinhas e selecionar o que vai para o baú de guardados. Queria ter este mesmo talento para arrumar o armário. Seria útil. Olha só, carrego a mão no lápis preto de olho quando durmo pior do que o de costume. Nos últimos dias, poderiam ter me confundida com um panda, não fosse eu, infinitamente, mais fofa. Já te contei que abro a geladeira para pensar? Refresca as ideias. Ok, foi péssima.

Li a Bella dizendo que quem não sabe contar a própria história, não sabe quem é. Concordo integralmente. Então, deixa eu te narrar a cena mais linda da minha vida no final de semana. Eu estava desempelotando um bechamel na cozinha. Fui atingida em cheio por canto (e cantada) sussurrado em francês no ouvido, esboço de dança e beijo. Tem uma discoteca secreta na copa.

A segunda linha original deste texto, antes das quinhentas edições que fiz para diminuir a acidez e aliviar da pimenta, dizia que eu sou mimada. Apaguei. Há destinatários de mais mimo do que eu. Eu sou a que dá trabalho. Concorda?

 Beijos, Kuky.


Ah, pê ésse: hoje é aniversário da minha sogra! Saúde, felicidade, vida longa e bons drinks! 💙

domingo, 15 de maio de 2022

Pronomes e sofrência

Querido Diário, te aborrece se eu te chamar de meu diário? Tenho dois assuntos para tagarelar. Sinceramente, tenho vários, por maioria de votos, dois foram eleitos. Meus assuntos, meus votos, meus eleitos. Tudo meu e este é o primeiro assunto. Na conversa em volta da mesa do café, um dos amigos contou que falou da Fulana, namorada do Fulano. Levou xingão da própria namorada: “Fulana é Fulana, não é do Fulano”. Passaram-se minutos de argumento sobre ser ou não ser, eis a questão. Beijo, Shakespeare. Fiquei escutando, tricotando as ideias, enquanto alternava os golinhos de água com os de café. Há quem se ofenda por ser de alguém. Olha só, desde criança, minha mãe me apresenta “esta é a minha filha, a Kuky”. Alguns amigos do Eduardo me chamam de “a mãe do Duca”. O ser humano é concebido sendo de alguém. Já viu uma pulseirinha de maternidade, no pequeno pulso do bebê, está lá: filho de. Pronto, é de alguém. Nem por isso, deixa de ser próprio, único e infungível. Nem dele mesmo ou ele mesmo! Saí de fininho, cantando mentalmente “já sei namorar”. Temos muitos donos, pertencemos à várias pessoas ao mesmo tempo (por favor, não é promiscuidade). Eu gosto de tudo que é meu.


Então, diário, se te chamo de meu, te alegra. Diário, coisa boa ser de alguém que se ama. Coisa boa ter alguém para amar. Imagina só, a pessoa ser de alguém que detesta, por exemplo, Batman é o arqui-inimigo do Coringa! Então, é um título de propriedade do desafeto. Deixa-me voltar para o bat-assunto número um. Há anos, tinha uma propaganda de um cartão de crédito com o monstrinho da anuidade, que ficava repetindo meu, meu, meu. Sou a favor da descriminalização do pronome possessivo. Acho lindo. Uso bastante e sem moderação, em mão dupla. Sou tua, tu és meu. Tem tanta beleza nisso, nesta entrega. Fala-se muito em se apropriar de situações, ter lugares de fala, sentimento de pertencimento. Por que isso é motivo de puxão de orelha nas relações? Sou árdua defensora da entrega total, absoluta e irrestrita. Irrevogável! Quer saber? É libertador. Não, diário, não estou sendo contraditória, reconhecer este tipo de vínculo, é pura liberdade. É lindo ser de alguém. Olho para os meus pais, os lindinhos, tão um do outro. Eu digo e repito: meu amor, meu bem, meu lindo, minha vida. Não me canso de dizer: sou tua. Quer colar etiqueta com o nome? Vai ser engraçado. Pode sim. Nasci por estas bandas para me entregar, pelo copo cheio, pelo muito. Tenho ranço do menos é mais. Menos é menos, mais é mais e cada um tem um uso adequado, embora, eu ande, raramente, devagar. Eu me alimento de pressa e visto a certeza da tranquilidade dentro de um abraço horizontal na manhã de domingo. Antes da oração. Antes de dar oi para o dia. Ponto, nova linha, assunto dois. Cansou? Escrevo depois? Ah, sim, ficou curioso. Entendo, porque sou curiosa assumida. Torci o nariz esta semana para uma frase da Frida Kahlo, sobre amuralhar o sofrimento e ser devorada por ele de dentro pra fora. Olha só... até meu sofrimento é meu, bem meu, reconheço até certo egoísmo com ele, nas raríssimas vezes que ocorre. Tenho dor de ideia, o que é diferente, posso escrever outra hora sobre isso. O fato é definir o que é sofrimento, o que dói mesmo e não é frescura. Um filho doente é sofrido, perder um amor é sofrido. Impossível sofrer por tudo: chuva, o trânsito, sopa fria, falta de chocolate. Filtro. E força. Vai lá, levanta, faz, dá os pulinhos. Bebe um monster! Dois, se for o caso. A maior parte dos sofrimentos que eu conheço são vizinhos da apatia. Quem se ocupa pouco sofre. Eu não sossego. O movimento é repelente do sofrimento. Bom. Era isso. Acabei de dar uma cantada no Beto, que nem nas quartas-feiras publicaria. Só não ficou vermelho porque, além de gremista, é MEU morenito. Ganhei beijo e sorriso. Prova de que as cantadas realmente funcionam! Antônio segue lindo e calmo. Será boleiro, galã e pagodeiro, dormiu praticamente dentro de um banjo. Esperamos que não o perca. Beijos, da TUA Kuky

pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...