domingo, 15 de maio de 2022

Pronomes e sofrência

Querido Diário, te aborrece se eu te chamar de meu diário? Tenho dois assuntos para tagarelar. Sinceramente, tenho vários, por maioria de votos, dois foram eleitos. Meus assuntos, meus votos, meus eleitos. Tudo meu e este é o primeiro assunto. Na conversa em volta da mesa do café, um dos amigos contou que falou da Fulana, namorada do Fulano. Levou xingão da própria namorada: “Fulana é Fulana, não é do Fulano”. Passaram-se minutos de argumento sobre ser ou não ser, eis a questão. Beijo, Shakespeare. Fiquei escutando, tricotando as ideias, enquanto alternava os golinhos de água com os de café. Há quem se ofenda por ser de alguém. Olha só, desde criança, minha mãe me apresenta “esta é a minha filha, a Kuky”. Alguns amigos do Eduardo me chamam de “a mãe do Duca”. O ser humano é concebido sendo de alguém. Já viu uma pulseirinha de maternidade, no pequeno pulso do bebê, está lá: filho de. Pronto, é de alguém. Nem por isso, deixa de ser próprio, único e infungível. Nem dele mesmo ou ele mesmo! Saí de fininho, cantando mentalmente “já sei namorar”. Temos muitos donos, pertencemos à várias pessoas ao mesmo tempo (por favor, não é promiscuidade). Eu gosto de tudo que é meu.


Então, diário, se te chamo de meu, te alegra. Diário, coisa boa ser de alguém que se ama. Coisa boa ter alguém para amar. Imagina só, a pessoa ser de alguém que detesta, por exemplo, Batman é o arqui-inimigo do Coringa! Então, é um título de propriedade do desafeto. Deixa-me voltar para o bat-assunto número um. Há anos, tinha uma propaganda de um cartão de crédito com o monstrinho da anuidade, que ficava repetindo meu, meu, meu. Sou a favor da descriminalização do pronome possessivo. Acho lindo. Uso bastante e sem moderação, em mão dupla. Sou tua, tu és meu. Tem tanta beleza nisso, nesta entrega. Fala-se muito em se apropriar de situações, ter lugares de fala, sentimento de pertencimento. Por que isso é motivo de puxão de orelha nas relações? Sou árdua defensora da entrega total, absoluta e irrestrita. Irrevogável! Quer saber? É libertador. Não, diário, não estou sendo contraditória, reconhecer este tipo de vínculo, é pura liberdade. É lindo ser de alguém. Olho para os meus pais, os lindinhos, tão um do outro. Eu digo e repito: meu amor, meu bem, meu lindo, minha vida. Não me canso de dizer: sou tua. Quer colar etiqueta com o nome? Vai ser engraçado. Pode sim. Nasci por estas bandas para me entregar, pelo copo cheio, pelo muito. Tenho ranço do menos é mais. Menos é menos, mais é mais e cada um tem um uso adequado, embora, eu ande, raramente, devagar. Eu me alimento de pressa e visto a certeza da tranquilidade dentro de um abraço horizontal na manhã de domingo. Antes da oração. Antes de dar oi para o dia. Ponto, nova linha, assunto dois. Cansou? Escrevo depois? Ah, sim, ficou curioso. Entendo, porque sou curiosa assumida. Torci o nariz esta semana para uma frase da Frida Kahlo, sobre amuralhar o sofrimento e ser devorada por ele de dentro pra fora. Olha só... até meu sofrimento é meu, bem meu, reconheço até certo egoísmo com ele, nas raríssimas vezes que ocorre. Tenho dor de ideia, o que é diferente, posso escrever outra hora sobre isso. O fato é definir o que é sofrimento, o que dói mesmo e não é frescura. Um filho doente é sofrido, perder um amor é sofrido. Impossível sofrer por tudo: chuva, o trânsito, sopa fria, falta de chocolate. Filtro. E força. Vai lá, levanta, faz, dá os pulinhos. Bebe um monster! Dois, se for o caso. A maior parte dos sofrimentos que eu conheço são vizinhos da apatia. Quem se ocupa pouco sofre. Eu não sossego. O movimento é repelente do sofrimento. Bom. Era isso. Acabei de dar uma cantada no Beto, que nem nas quartas-feiras publicaria. Só não ficou vermelho porque, além de gremista, é MEU morenito. Ganhei beijo e sorriso. Prova de que as cantadas realmente funcionam! Antônio segue lindo e calmo. Será boleiro, galã e pagodeiro, dormiu praticamente dentro de um banjo. Esperamos que não o perca. Beijos, da TUA Kuky

Um comentário:

  1. Vim para ler um e não consegui parar de ler. Li 10 na sequência
    .
    Bj

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