domingo, 22 de maio de 2022

fez vento

 


Querido diário, eu dou trabalho? É o que dizem. Mercúrio está retrógrado, há um risco imenso pairando no ar. Sempre bom avisar, caso seja necessário colocar a culpa em alguém, na falta de um oportuno inferno astral, óbvio. Sorte ou revés? Jogue os dados, pegue sua pecinha e retroceda três casinhas. Voltou? Calma. A primeira regra, é manter o espírito tranquilo. Esta recomendação não é minha, é do Marco Aurélio, pessoa que muito me inspira. (Há quem prefira Anitta). Por mais agitada que eu possa ser, gosto do espírito tranquilo. Fico aborrecida se saio da minha homeostase. Abandonar a constância é como usar um sapato apertado. É possível caminhar, mas incomoda. Faz bolha. Meu pé é temperamental. Minha alma é de tergal. A rima foi sem querer. Nas próximas linhas vou escrever sobre um ocorrido sem querer.

Ter dor de ideia, desafina meu humor. Porém, boas leituras, sem aviso ao lido, abastecem a memória com argumentos que me abraçam no apagar da luz de cabeceira. A janela e eu estamos cada vez mais íntimas. Artista de contornos, faroleira das manhãs, é através dela que dançam as luzes nas mechas das cortinas adormecidas. Eu vou edificando outros hábitos. Gosto das manhãs. Minha dor lombar me deixou.

Diário, sabe que o mero desconhecimento da lei não torna a conduta menos delinquente? Uma vez, eu pensei em pedir perdão sem saber exatamente do quê. Caberia mais ou menos na mesma lógica. Medindo bem. Não consegui concluir se estaria sendo egoísta de minha parte. Estiquei os olhos e os outros sentidos para o perímetro externo, cumprindo minha penitência sem atenuantes. Quem fez a dosimetria da pena, devia gostar de mim. Foi sem querer. Viu que anunciaram um baita ciclone? No fim, não passou de um sopro no olho, daqueles para tirar cisco. Vendaval intenso fez pelo meu castelo, sem chuvas e trovoadas. Só vento. Acho a palavra vento lindíssima.

Desmontei o meu quarto, encontrar uma meia é quase uma aventura. A casa está um misto de estoque desorganizado com loja do centro. Aliás, na semana passada, poderia ter feito um desses avisos de grudar nas paredes: ao entrar na minha vida, desculpa a bagunça. Como tenho muita sorte, aprendi a organizar bem minhas caixinhas e selecionar o que vai para o baú de guardados. Queria ter este mesmo talento para arrumar o armário. Seria útil. Olha só, carrego a mão no lápis preto de olho quando durmo pior do que o de costume. Nos últimos dias, poderiam ter me confundida com um panda, não fosse eu, infinitamente, mais fofa. Já te contei que abro a geladeira para pensar? Refresca as ideias. Ok, foi péssima.

Li a Bella dizendo que quem não sabe contar a própria história, não sabe quem é. Concordo integralmente. Então, deixa eu te narrar a cena mais linda da minha vida no final de semana. Eu estava desempelotando um bechamel na cozinha. Fui atingida em cheio por canto (e cantada) sussurrado em francês no ouvido, esboço de dança e beijo. Tem uma discoteca secreta na copa.

A segunda linha original deste texto, antes das quinhentas edições que fiz para diminuir a acidez e aliviar da pimenta, dizia que eu sou mimada. Apaguei. Há destinatários de mais mimo do que eu. Eu sou a que dá trabalho. Concorda?

 Beijos, Kuky.


Ah, pê ésse: hoje é aniversário da minha sogra! Saúde, felicidade, vida longa e bons drinks! 💙

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