Querido Diário, vou te contar uma história. Sim, mais uma. Era uma vez, – histórias costumam começar deste jeito – um deus egípcio chamado Osíris, deus dos homens, primeiro faraó, ensinou a agricultura e a cerveja. Ele foi morto e picadinho pelo próprio irmão, Seth. O motivo? Pura inveja. Seth era deus do deserto, não gostava muito disso. O calor lhe dava brotoejas, dizem. Os catorze pedacinhos de Osíris foram espalhados ao longo do Nilo para dificultar a vida de quem o procurasse. Ísis não só encontrou todinhos, como montou o deus (e marido) de novo. Bom, faltou um pedacinho, que ela improvisou, agora, não vem ao caso. Osíris, reconstituído, foi mumificado e ressuscitado, por isso a sua representação nos desenhos é um deus morto, com a pele levemente esverdeada (teria sido Osíris o primeiro zumbi?). Meu sobrinho Felipe pediu ajuda para montar um quebra-cabeças no final de semana. Impaciente com os adultos pulando por cima das peças espalhadas pelo corredor, armou uma barricada com bancos e cadeiras. Ele conseguiu encaixar várias pequenas partes, separadas, dos cantinhos, do meio, que formariam, depois, a unidade. Eu gosto muito de crianças, me dou bem com elas. Talvez, expressem melhor uma originalidade que a memória vai abandonando com o passar dos dias. Crianças têm uma filosofia atípica que deveria ser polida. Osíris, (re)montado, passou a ser um deus do mundo inferior. Pesava o coração dos mortos, que deveria ser mais leve do que uma pluma. Essa história toda relampejou nos meus pensamentos com o Felipe montando e protegendo o quebra-cabeças. Nossas pecinhas da vida são bem mais do que catorze e, às vezes, faltando uma, o improviso de Ísis se faz necessário. É importante proteger e não perder nenhuma. Quando a vida fica assim, um monte de pecinhas desconectadas, é hora de selecionar, agrupar, arrumar. São fases anteriores à montagem. Pode-se ter uma ideia da imagem, porém, apenas montada, estará plenamente visível. A montagem pode demandar ajuda, pode demorar anos. O meu sobrinho, pela idade, não conseguiria sucesso sozinho se a atividade fosse muito complexa. A experiência da vida é a professora mais graduada para isso. O que se vê? Como se interpreta? Com honestidade, cada um só conseguirá enxergar aquilo que é capaz. Como agir? O que fazer? Diário, muitas das minhas pecinhas estão transformadas em palavras nas tuas folhas. É uma das maneiras que eu seleciono, monto e observo. Ah, as palavras, adoro, até quando me faltam. Gosto de pessoas, da complexidade. Essa semana, encontrei a imagem de um quebra-cabeças de quatro peças, mas, difícil de montar, porque se tratavam de quatro virtudes, que só se encaixam quando têm o mesmo tamanho, em equilíbrio: sabedoria, temperança, coragem e justiça. Acredito que, na hora do julgamento de Osíris, haja grande influência dessas peças no peso que a balança marcará. Costumo pensar nessas virtudes com certa constância, uso de balizadoras na educação dos meus defeitos. Linhas na condução das atitudes e, mesmo um tantinho impulsiva, reconheço que, com o tempo, até o arco reflexo da mente fica mais domesticado. Deu trabalho e ainda dá, exige uma presença integral na própria vida e isso é tão bom. Porque, se tem uma coisa que eu gosto mais que tudo, é deste tempo chamado agora. É desta vida. Olha só, tenho companhia na montagem das pecinhas. Uma companhia organizada, muito mais do que eu. Um amor! Adora calcular e dizer que duvida de mim, só para eu responder “não me subestime”. O encaixe está muito bom, perfeito. E, vai melhorar, é o que dizem. Eu confio (e zelo pelas pecinhas).
Alô, Osíris, sou eu, a Kuky. Sabe a pluma? Pois é, ando leve que nem ela.
Beijos, Kuky.

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