domingo, 28 de agosto de 2022

pontualidade

 

Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto que é relativo, Einstein me daria razão. Quis ser poética, estou escrevendo em uma mesa bamba, num posto de gasolina enquanto trocam o óleo do carro com quilômetros de atraso que irão se transformar em quilômetros de vantagens. Sinto cheiro de pão de queijo, gasolina e mais alguma coisa. Pela janela, a Avenida Ipiranga sem a esquina com a São João, o Arroio Dilúvio e o trânsito da cidade. Pedi um café expresso, a xícara está mal lavada com cheiro de ovo, não vou tomar, porque deve fazer mais de dez anos que me vacinei com a antitetânica. Foi quando cortei dois dedos com uma faca de queijo na tentativa de obter um furo a mais em um cinto de couro. Na saída, pegarei um energético.

Onde eu me desligo? Recostei na cadeira e pensei isso. Mal passou do meio-dia, fiz um bocado de coisas, falei com pessoas, fiz mais de uma reunião, resolvi problemas, defini o que precisava, respondi clientes, fui na academia, mandei mensagem para o filho, namorei o namorado. Não desligo, isso não me incomoda. Nem um pouco me estressa. Eu gosto de me sentir viva e se fico um tantinho mais quietinha por fora, pode ter certeza, estou borbulhando por dentro.

A cronologia que é chata, porque é quantitativa, cronometrada. Quantos minutos são necessários para se apaixonar? Quantas horas dura uma saudade?

Eu me apaixonei rápido. Sinto saudade do namorado na primeira fração de segundo que estou longe. Desejo o tempo todo, uso vários tic-tacs em beijos. O Beto já é mais de contar, mas não esconde a pressa. Confessa urgências e, a cada viagem, riscamos juntos os palitinhos de uma parede imaginária da prisão da distância. É um passatempo na tradução mais crua da palavra. Diário, sabia que euzinha já fui contada?

O Beto faz contas olhando para cima, quase consigo enxergar os números dançando, somando, multiplicando. Está sempre com créditos. Tem cartão ilimitado do meu afeto, ações em alta na bolsa do amor e subindo.

Em uma das conversas virtuais, antes do primeiro beijo, Beto foi um pouco mais direto nas intenções. Devo ter demorado para responder, estudando a melhor rota até a tangente por onde costumo sair quando fujo das respostas. Esperto, sempre educado, quis saber se eu achava que era cedo. Me deu a chance de explicar que não tenho apego a estas dosagens, gasto a vida à vista. Tenho uma noção própria do tempo, mais ligada às intensidades do que aos ponteiros do relógio.

Nos dias ímpares da semana passada, expliquei como começamos a namorar. A pergunta foi “há quanto tempo vocês estão juntos?” Engraçado que já nos perguntavam isso antes de termos passado vinte e quatro horas juntos (foi quando levei pito!). Exercitando o poder de síntese, poderia responder, sem mentir, que faz uma vida. Quase oito meses no calendário gregoriano. Fomos atingidos pela intimidade instantânea, mais rápida do que fazer um miojo.

O namoro começou no primeiro beijo, o amor chegou antes. Talvez, muito antes, perto daquele dia que sentei embaixo de uma árvore na praça Japão e “isso que estou sentindo se chama saudade”. Pisquei rápido os olhos num misto de pavor e eureca.

O meu tempo despreza as horas, os ponteiros marcam intensidades. Conta o que eu sinto. Nunca é cedo, nem tarde. Sou pontualíssima. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

confissão

 

Querido diário, sempre te digo que escrevo mais para me prender do que para me libertar? Este texto é um confessionário. Ajoelho aqui, esperando a penitência de arrastar as correntes das linhas que virão. Existe um tipo de sensibilidade que permite ver além dos olhos e escutar o que as palavras não dizem. Eu, que sou do partido do “me deixa saber”, abuso do contraditório, nem sempre uso palavras, mesmo apaixonada por elas. Crio caminhos alternativos, pouco convencionais e, quem sabe, sem querer. Arriscado? Qual diálogo não é? Por mais hábil que se possa ser com as palavras ditas, nem sempre, do outro lado, estarão os ouvidos dotados das mesmas qualidades. Sou fluente em suspiros. Não preciso de óculos para as entrelinhas. A melhor escola de idiomas é a atenção. Filosofia e psicologia ajudam. Isoladas, é como ter a faca e as mãos, sem o queijo.

Eu peco quando calo e quero que me entendam. Carrego bons contraditórios em mim, este é só mais um deles. Figurinha dourada da coleção, página do meio do álbum. Gosto das palavras e pratico silêncio, se os olhos querem me entregar, pisco apelando para a sedução da simpatia. O contrário também acontece, simulo e me ganham. Peço um dedinho e ganho o meio do peito, aconchegada entre os dois braços que fecham em volta das minhas costelas, se cruzando em cima da minha coluna com ternura e com carinho. A sensibilidade faz a tradução. A convivência ajuda.

Helena Blavatsky disse que todas as formas são produtos da força dual que existe na natureza. A força centrípeta não se manifesta sem a centrífuga. Identifico fortemente estas dualidades quando reflito no espelho. Minha forja. Peco quando descuido, o resultado é sair do prumo. Penso bem, procuro o plano de voo que tracei para adequar a rota – planos podem ser reformados. Meditar sobre si não é egoísmo, é fundamental para entender a pequenice maravilhosa que é um ser humano. Carregamos uma força divina, a própria vida habitando o corpo. Ao mesmo tempo, somos um pingo do oceano.

Olha só, nunca neguei que eu sou uma pessoa forte. Abasteço este caráter, tanque cheio, aditivada. Disciplino o corpo para que não fique para trás. O que não quer dizer que não seja vulnerável. Descobri há pouco, tem que ser muito forte para falar de fragilidades. Confesso e aqui, sei que pode ter penitência, ainda não consigo, não sei e fujo de aprender.

Confesso, sou ruim de despedidas, não consigo, não sei e fujo de aprender.




domingo, 14 de agosto de 2022

desculpe o auê

 



Querido diário, desculpe o auê, que eu sei que faço. Pense nisso com a voz de bossa da Rita Lee e as minhas faíscas. Uma vez, já te contei, me disseram uma coisa que eu duvido, ou melhor, du-vi-do, assim, separadinho, para preservar o apelo dramático. “Tu me irrita”, esta foi a frase. Não só duvido, como discordo. Eu, no máximo, incomodo, incomodo muito mais do que um elefante. Nasci inquieta, um tanto insone com pitadas de agito. Sou boa de silêncio, ótima em ler entrelinhas, fluente em suspiros. O que quer dizer que, além de atenta, oscilo nos extremos. Segredo do equilíbrio, água e fogo, ar e terra. Como passei algum tempo escutando “sossega”, achei que deveria andar mais na ponta dos pés. Desculpa, foi engano. Deveria continuar com as premissas da infância, baixava a bola quando a vovó pedia, só. Aí sim, era sério, porque, com a habitual doçura, ela dava risadas das minhas gracinhas, dizendo que eu era fogo na roupa, que nem o vovô. Eu ficava imaginando o lookinho em chamas, não me desagradava, era engraçado. A minha mãe foi conivente com as minhas ironias, o que se justifica por eu nunca ter ofendido ninguém, não era agressiva ou mal educada. Pelo contrário, minha simpatia era quase felina. Era? Bom, eu ainda ronrono, sei miar nos telhados.

Ainda hoje, escutei do urso, que vivo com os dedinhos na tomada. E, da minha mana, que nunca desligo. Imparável, está escrito no meu whatsapp. Gosto deste movimento em mim, deve ser por isso que não sei posar para os retratos. Não sou fotogênica. Ainda sei dançar o morto muito louco com direito a voltinha em cima do salto, sem perder o rebolado – porque não se perde o que não se tem. Gingado não habita este esqueleto. Uma certa graça, talvez.

Estava te contando outra coisa, sobre o mesmo assunto. 

Um dia, eu não quis incomodar.

 Para ser mais sincera, exata e pontual, uma noite. Durante a semana, minha rotina é uma loucura. Trabalho até tarde, durmo pouco. Até tocar o despertador, acordo e me mexo mil vezes, deixo a janela aberta, bebo água. Às 5 da manhã, já estou na academia. Minha locomotiva passa a todo o vapor. Naturalmente, acaba respingando em quem está em volta. Inquietação é contagioso, a menos que se esteja muito bem vacinado.

O combinado da quinta, era dormir em dupla, na mais merecida conchinha. Eu, com mil afazeres de adentrar a noite, cedíssimo, pular da cama para o supino, até conseguir “sextar”. O outro lado da conchinha vinha de uma sequência de dias intensos de trabalho, eventos, viagens, preocupações que desaguaram em algumas noites de pouco sono e, no crediário, em parcelas incontáveis. “Vou cedo para a cama, preciso dormir bem e muito para render”. Sabendo do estrago que costumo fazer ao silêncio e ao sossego, disse que dormiria em casa, para não incomodar. Levei puxão de orelhas. Um pito, de leve. Percebi a gafe. Mochila feita, notebook, ponte área Gothan City – Metrópole, passando pelo Laçador.

Cheguei com o amor dormindo, saí do mesmo jeito. Segui o acordo, conchinha, cuidado, conferi se as costas estavam cobertas durante a madrugada, pés quentinhos, acomodei o ângulo do pescoço no conforto do travesseiro. Beijo de até logo, antes do sol aparecer. 

Ficar longe é o que incomoda, não é a minha rotina, não são os meus barulhos, o meu agito. Este foi o recado dito e interpretado naquelas entrelinhas que te disse que sei ler. A minha vida é bem-vinda na vida dele. Foi a primeira vez que tive a sensação de unidade em harmonia. O amor aumenta o tempo inteiro. Sinto orgulho, admiração. Honro e sirvo.

Juntar as escovas de dentes é barbadinha.

Acolher os detalhes é a verdadeira troca de alianças.
Beijos de 220, Kuky. 

domingo, 7 de agosto de 2022

fica a dica

 Querido diário, estava lendo uma coisa bem aleatória, enquanto esperava um cafezinho depois do almoço. Dizia a manchete: dicas simples para um bom relacionamento amoroso. Desconfiei do título, insisti com a leitura, torcendo meio nariz. “A nossa vida precisa estar em ordem antes da chegada do amor”, torci o resto do nariz na primeira dica. Não era para ser simples? SIM-PLES. Diário, defina: vida em ordem. Concordas que é complexo? Simples, pode ser arrumar a gaveta das meias, e, certamente, sobrarão algumas sem par. Imagina arrumar a vida para encontrar um par! Considere, ainda, que tem par que baderneiro de meias e de vida. 

Olha só, eu sei que o Universo é cosmos, não caos, porém, isso não quer dizer que seja ruim um desalinho para os viventes. Os desafios nos movem, antídotos para o piloto automático da existência. A direção é para o alto e para frente, ao mesmo tempo. Só assim, subimos os degraus até os andares mais altos. Nossas vidinhas nunca estão perfeitamente organizadas, isso é muito humano. Vivemos entre humanos. Tenho por hábito fazer uma gestão do meu tempo, reservo um tantinho aos imprevistos e outro, para o aprendizado. São tão certos quanto duas medidas de água para uma de arroz. É bom procurar uma inquietude para se importar. Eu gosto. Tenho uma gavetinha de ideias. Nada simples. A ordem plena é impossível enquanto os pulmões estiverem trabalhando. 

Diário, te digo mais, não consigo imaginar alguém arrumando a vida para o amor chegar, como se fosse uma visita que vem para o jantar. Toc-toc. Nunca se sabe quando chega, nunca se sabe quando ele começa. Não tem como pedir para esperar um pouquinho, voltar mais tarde, fingir que não está ou que não ouviu a campainha. “O amor não sabe esperar”, cantavam os Paralamas do Sucesso!  

Se a porta fecha, o amor pula janela. Dá uma brecha, ele inunda, provoca bobeira, crise de riso, suspiros, desejos e saudade. É espaçoso, não cabe em lugar algum, tem que carregar no peito mesmo. Com tudo isso, o amor consegue ser leve, brisa, barulho de onda na areia grossa da Praia Brava com direito a cheiro de sal e beijo crocante. É um céu azul, uma seda, uma palavra. A intimidade é uma delícia, a rotina é uma festa, a cozinha vira altar, as panelas são testemunhas. Às vezes, parece que o corpo se perde, desintegra. 

Aconteceu comigo. Verdade. Estava colecionando pequenas desordens, porta trancada, duas voltas na chave, cadeado e corrente, um dragão, cortinas fechadas. Lá de fora, amor quebrou a vidraça, tem boa pontaria. Pulou a janela, quando vi, era tarde. Já me puxava pela cintura e bebia cerveja com o meu pai. Preenchia as minhas horas, inspirava as minhas ideias, furtava sorrisos à mão beijada. “Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser." Clarice Lispector, eu te entendo muito bem. 

Ah, sobre as dicas que eu estava lendo, as demais eram, igualmente, terríveis. Hashtag fica a dica, só que ao contrário.

 Para não dizer que não falei de filosofia, pensei na expressão “amor fati”, amar o destino, porque nem todas as coisas podem ser inteiramente controladas por nós. Antes do amor chegar, é bom saber que ele vai entrar de qualquer maneira. Impedir, é sofrer. Deixar passar, é não viver. 

Se me pedissem uma dica para um bom relacionamento amoroso, seria “ame”, pode não ser simples, mas é a única coisa que pode ser feita. Isso é uma ordem. Antes do amor chegar, saiba que ele não aceita ordens e não esquece, que não sabe esperar. Eu também não.





domingo, 31 de julho de 2022

pensar é humano


 

Querido Diário, gosto de sentir frio na barriga. Quando algo me abala, não é o acontecimento em si, é o que eu sinto a respeito, medo, esperança, qualquer coisa. Aprendi a pensar sobre isso. É como saber que existe uma goteira. Olha-se para cima para identificar de onde vem, porque de pingo em pingo, se faz uma poça, se enche o balde. Antes que a próxima tempestade inunde a casa, é imperativo cobrir os pequenos furos. Conheci pessoas que levam a vida no piloto automático. Cedinho decidi que não seria uma dessas pessoas, jamais. Invisto tempo em pensamento. Meu porto é sempre o agora, ponto de partida para onde vou, ajuste nas velas para o que eu quero e aquela implicância com as horas cronológicas. Gosto de tempo, funciono bem no meu, sem tic-tacs, sou pontualmente alternativa neste quesito, mas não costumo me atrasar aos compromissos. Hoje, eu desliguei o tempo. Às vezes, eu preciso, principalmente quando quero oxigenar as ideias, temperar o pensamento.

Quarta-feira, trabalhei na frente da janela, improvisei uma mesa para o computador e um espaço para o caderno de anotações. Permaneço solar, me fez bem. Tenho me sentido mais forte e corajosa, o morenito que me inspira tem cotas de participação nisso. Alma grande, pessoa irresistível. Os abraços com suspiros ainda me surpreendem com a delicadeza de uma pétala.

Sempre fui de arriscar, imprudente, impulsiva, quase suicida, se não fosse imortal até que me provem o contrário. Sabia que pensar é uma habilidade? Pode ser treinada. Não sou uma expert no assunto. Meu achismo diz que a inteligência de uma pessoa não cresce ou diminui de limiar, porém, a atividade de pensar é capaz de conduzir a mente com clareza até melhores resultados. Falei estes dias, em conversas de balcão de cozinha: a astúcia é tão importante quanto a inteligência. Se ambas puderem ser amigas, melhor. Diário, estou escrevendo sobre isso, porque passou como um pé de vento pela minha mente, uma coisa que me desagrada, a pergunta “por que eu não fiz isso antes?”. Justifico o porquê do desagrado. Defendo que tudo que já me aconteceu na vida, foi da melhor maneira que poderia ter ocorrido e no melhor momento. Afinal, eu tenho sorte! Claro, não é só isso, evito este tipo de pensamento por todos os “e se...” que nascem dele. Eu sou um ser pensante, evito gastar energia naquilo que não dará resultado. O que foi, foi. Feito e acabado, perfeito à sua maneira. Penso sim sobre o passado para resgatar ou descobrir lições, não para me punir, lamentar, julgar ou desejar eventos alternativos que vêm de brinde com os “e se...”. Nada acontece sendo apenas hipótese. A brisa suave da sabedoria da alma retira o pó das ilusões. Isso justifica o meu frio na barriga, minha empolgação, confiança e força. Tem dias que eu desligo o tempo, acendo a lanterna de Diógenes. Não é por nada que a imagem de uma lâmpada em cima da cabeça simboliza ideias.

Ultimamente, a Nasa tem confundido a minha cabeça com Las Vegas, cidade que se pode ver do espaço.

Beijos de luz (estou quase gratiluznamaste) Kuky

domingo, 24 de julho de 2022

trago seu amor

 


Querido diário, trago o seu amor em três dias. Brincadeira, tu sabes, a minha carreira - nada promissora - de Cupida foi mais rápida do que um espirro. Dou boas dicas para relacionamentos entre pessoas, são aproveitáveis, inclusive, para os assuntos do coração. Por falar nisso, felicitei pelo aniversário com votos de sucesso e amor. Fui agradecida pela lembrança e pelo desejo de sucesso, enquanto o amor foi maldito. Existe sucesso sem amor? Amar é próprio do ser humano, assim como servir. Arriscaria dizer que é o maior projeto do homem. Nem sempre declarar o amor é dizer eu te amo, às vezes, eu faço um chá com bolo, compro chocolate, puxo a camiseta para baixo. E, dizer eu te amo pode, muitíssimo bem, ser protocolar, automático, uma quase um reflexo medular ou um hábito de higiene. É dito da boca para fora, quando, do coração para dentro, resta, no máximo, uma compaixão, uma preocupação compreensível com o indivíduo. Às vezes, nem isso.

Diário, lembra que uma vez, escrevi nas tuas páginas, que eu não tinha a menor ideia de quando o amor havia começado, só sabia que havia nascido, antes de dizer que amava. Precisei digerir e assumir, parar meus passinhos (é raro, mas acontece). Olhei para o momento como um quadro estático. Estava ali, em todas as cores sobre tela. Pincéis rápidos e la mano de Dios, clicando certo em aplicativos tortos. Um ano, dia vinte e cinco, assim me contam. Sou bem de acreditar. Este exercício é necessário, vez que outra: dar um print do momento, é o novo apertar o “pause” do tempo. Ainda existe videocassete? Dali em diante, foi barbada, saí prometendo mundos e fundos, a luz do sol em um potinho, fui pendurando tudo no varal, pintando a boca, tingindo a pele, invadindo a arquitetura, adquirindo plantas, derrubando sorrisos, abraçando os amigos, compartilhando a família, confessando manias, colecionando o pó das estrelas e lendo vorazmente.

O maior eu te amo que eu já disse foi “eu aceito fazer planos contigo”. O mundo parou para eu subir, porque estava em outra parte da existência quando percebi as palavras que saíram da minha boca. Diário, não sou a melhor criadora de planos, meu dragão é melhor (mal)criado. Posso aderir aos planos alheios, transformá-los em meus. Muito meus, tanto, que acreditaria fácil que foi ideia minha. Viu como eu sou bem de acreditar? Vou voltar para o projeto e a natureza humana. Para um bom resultado, quando surgem desafios, análise e planejamento são bons ingredientes. Já viu construir uma casa sem a planta? Sem o cálculo da fundação? É ver antes do existir. Tudo já está no mundo das ideias, lá ficará sem a execução. Intenção e ação. Podem vir as reformas depois, a mudança no projeto, o rombo no orçamento. Cada tijolo é importante. A planta é o plano, o projeto, mapa da ideia, que partirá de uma instalação real e concreta, a fundação de sustentação, que é a pessoa. Amar alguém tem total relação com o interesse e o envolvimento com o plano do outro. Ao fim e ao cabo, é o núcleo, caso contrário, estará se coisificando o outro. Importar-se com o projeto. Importar-se com o desafio. Este é o interesse pelo outro ser humano, chave das relações. “Somos heróis, combatemos sempre por algo distante e pisamos belas flores pelo caminho”, a frase é de Ortega y Gasset.

Olha só, lembro direitinho de uma conversa, ano passado, estava saindo do trabalho, primavera, escurecia mais tarde. Trocando áudios sobre o Grêmio, amenidades e trabalho. Falei sobre uma ideia, juridicamente, brilhante (pelo menos para mim, que vivo entre tapas e beijos com o processo), a resposta foi: “guria, nós fazemos uma dupla perfeita, juntos, somos imbatíveis”. Visionário. Inteligentíssimo. Admiro intensamente com explosões de orgulho. Descobri há pouco, que anda de um jeito diferente pela sala quando se irrita. Não comigo, porque eu sou uma gracinha. Não sou fluente em ser detestável. Conheço o idioma o suficiente para colocar no currículo sem mentir.

Eu me considero uma pessoa forte, não desde sempre, mas, já há algum tempo. Admito um lapso de amnésia temporária. Tenho me tornado cada vez mais forte e tenho a convicção que isso acontece em mão dupla, como ele mesmo disse, imbatível. Compartilhamos de bom ânimo. Sempre tenho mais uma coisinha para aprender prestando atenção nas leituras e nas palavras. A vida nos faz alguns vestibulares, nos quais não podemos chutar. Não há decoreba, fórmula, musiquinha ou estudo, é pura sabedoria. Sábado, a aula foi linda, recheada de informações importantes para guardar para sempre. Base, direção, projeto. Mais um tantinho de disposição. O que torna uma pessoa interessante, não é o que fala, é a maneira como ela se interessa. Isso, sim, cria vínculo, identificação e solidifica relacionamentos – de amor ou não.

 

Beijos afônicos, Kuky.

 

P.s.: Estou perebenta, eu que sempre me vangloriava de não ficar doente, nem que a vaca tussa, fui abatida por vírus, bactérias e sei lá mais o quê. Tossi por todas as vacas que já conheci na vida, de quatro ou duas patas, em forma de churrasco ou não. Ponto, nova linha. Vamos muuu-dar de assunto.

domingo, 17 de julho de 2022

aterrissagem


Querido diário, o Duca tirou um notão no teste de matemática. Dedicou tempo, teve muita coragem de mudar os hábitos para melhor. Veio a recompensa. Boa intenção, bons meios, bons resultados. Estou orgulhosa. Sorrisos que estão brotando, naturalmente, fáceis, estão enchendo meu coração de satisfação e alegria. Se, antes, encontrava pequenos olhos de noite, desconfiados; agora, fogem as estrelas do céu, brilhando em constelação de peraltice e inteligência. Um humor delicioso, com pimenta e doçura, idêntico ao que ganhou a minha atenção.

Diário, acredito que a aspereza da última semana tenha sido diluída pela chuva. Quando o céu quer tocar o solo, derrete as nuvens. Quando eu quero, ando descalça. Meu pai me mandava caminhar de pés descalços (y de sueños blancos) na grama, sempre que eu estava meio... digamos... elétrica? Boa palavra, porque chegava a queimar lâmpadas, cafeteira, chuveiro e torradeira numa mesma semana. “Tira os sapatos e dá uma volta pelo jardim.” Obedecia. Resolvia de verdade, eu dava menos choque. Às vezes, esta conexão com a terra ajuda a equilibrar, descarrega, aterrissa. Nem sempre com trem de pouso, pode ser na base da barrigada, pouso forçado. Acabei me habituando, nem lembro de apertar o cinto.

Acho que eu não sei xingar. Nem brigar muito. Olha só, eu já morri muitas vezes sem que ninguém soubesse. É muito tolo pensar que o ser humano seja apenas matéria, esta outra parte que me compõe já teve frações que não existem mais. Outro dia, conversava sobre isso com um amigo que passou dez anos amando uma mulher e, quando, finalmente, ficaram juntos (outra vez), ele arrumou trezentos motivos (bem bobos) para que não desse certo (que besta!). Agora, ela está namorando um cara bacana e ele, jururu. Escutei pacientemente, até o momento que perguntou: e se ela for a mulher da minha vida e casar com outro? Respondi: vocês vão viver. Claro, segurei a língua para não falar o que pensei na hora, embora ele saiba. Diário, é fácil encontrar motivos para descartar a alegria em nome das dúvidas. As palavras tiveram um duplo sentido, óbvio. Viverão, sendo ou não o amor da vida. Juntos ou não, agora, depois, nunca mais. Tome um gole de água com a pílula da realidade, ela é um tantinho graúda, fácil trancar na garganta. Vão viver, seja o amor entre os dois juntos, separados, em forma de lembrança. Viver em vontade, em pensamento, em desejo, na forma puramente platônica. Ou, esta parte será velada e sepultada, para que se vá adiante. Isso é fluxo, a constância. Pode não ser fácil, nem indolor. A caneta está entre os nossos dedos até que a tinta termine.

Diário, amar é pura realidade, presença constante e muita inteligência. Indispensável ancorar na terra, ter estabilidade, ser receptivo no alto grau, generoso com o outro. Eu fico bem intrigada com isso, serve para todos os amores. Agora, estou falando do amor romântico. Palavras da madrugada, entre terça e quarta, colaboraram com a chuva para diluir a aspereza. Mais do que isso, me fizeram aprender. Organizo meus dias, sempre com espaço para receber algo que não sei ou entender o que não havia percebido. Geralmente, é na hora da meditação. Desta vez, foi uma surpresa, que talvez, nem seja lembrada por quem falou. Na garagem do shopping, tema de casa para pensar. Perguntas que eu ainda não havia respondido, sem alternativas, prova surpresa. Por isso, não se ama quando se é idiota. Se ama quando se compreende que é indispensável estar disposto, disponível, desperto, forte, esperto, leve, presente. O amor precisa de inteligência e atenção. Quem não se interessa pelo outro, será sempre um egoísta solitário e desinteressante, emaranhado no próprio ego frágil. Eu estive pensando sobre o amor e se penso, logo, não resisto. Amo mesmo, gosto e digo. Isto me fortalece. Tocar a terra e estar no céu. 

O amor é mais trabalho da alma e do espírito do que do próprio corpo (ainda que ele seja deliciosamente útil). Suave, rebolado de onda, brisa que desloca a nuvem, raio de sol entre as folhas das árvores. Chego a ronronar. Lembrei de um texto que escrevi sobre as desculpas que eu não peço, tinha duplo sentido. Mariana me fez recordar um outro texto, escrevi “talvez seja o amor um beco pintado de amarelo. Talvez seja um poço vazio.” Não tinha sentido. As coisas, simplesmente, são o que são, sem culpa alguma.


Beijos, com amor, sendo bem Kuky, aquela que desenha corações no espelho embaçado do banheiro.

pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...