Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a
cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com
ele, posto que é relativo, Einstein me daria razão. Quis ser poética, estou
escrevendo em uma mesa bamba, num posto de gasolina enquanto trocam o óleo do
carro com quilômetros de atraso que irão se transformar em quilômetros de
vantagens. Sinto cheiro de pão de queijo, gasolina e mais alguma coisa. Pela
janela, a Avenida Ipiranga sem a esquina com a São João, o Arroio Dilúvio e o
trânsito da cidade. Pedi um café expresso, a xícara está mal lavada com cheiro
de ovo, não vou tomar, porque deve fazer mais de dez anos que me vacinei com a
antitetânica. Foi quando cortei dois dedos com uma faca de queijo na tentativa
de obter um furo a mais em um cinto de couro. Na saída, pegarei um energético.
Onde eu me desligo? Recostei na cadeira e pensei isso. Mal
passou do meio-dia, fiz um bocado de coisas, falei com pessoas, fiz mais de uma
reunião, resolvi problemas, defini o que precisava, respondi clientes, fui na
academia, mandei mensagem para o filho, namorei o namorado. Não desligo, isso
não me incomoda. Nem um pouco me estressa. Eu gosto de me sentir viva e se fico
um tantinho mais quietinha por fora, pode ter certeza, estou borbulhando por
dentro.
A cronologia que é chata, porque é quantitativa,
cronometrada. Quantos minutos são necessários para se apaixonar? Quantas horas
dura uma saudade?
Eu me apaixonei rápido. Sinto saudade do namorado na
primeira fração de segundo que estou longe. Desejo o tempo todo, uso vários
tic-tacs em beijos. O Beto já é mais de contar, mas não esconde a pressa.
Confessa urgências e, a cada viagem, riscamos juntos os palitinhos de uma parede
imaginária da prisão da distância. É um passatempo na tradução mais crua da
palavra. Diário, sabia que euzinha já fui contada?
O Beto faz contas olhando para cima, quase consigo enxergar
os números dançando, somando, multiplicando. Está sempre com créditos. Tem
cartão ilimitado do meu afeto, ações em alta na bolsa do amor e subindo.
Em uma das conversas virtuais, antes do primeiro beijo, Beto
foi um pouco mais direto nas intenções. Devo ter demorado para responder,
estudando a melhor rota até a tangente por onde costumo sair quando fujo das
respostas. Esperto, sempre educado, quis saber se eu achava que era cedo. Me
deu a chance de explicar que não tenho apego a estas dosagens, gasto a vida à
vista. Tenho uma noção própria do tempo, mais ligada às intensidades do que aos
ponteiros do relógio.
Nos dias ímpares da semana passada, expliquei como começamos
a namorar. A pergunta foi “há quanto tempo vocês estão juntos?” Engraçado que
já nos perguntavam isso antes de termos passado vinte e quatro horas juntos
(foi quando levei pito!). Exercitando o poder de síntese, poderia responder,
sem mentir, que faz uma vida. Quase oito meses no calendário gregoriano. Fomos
atingidos pela intimidade instantânea, mais rápida do que fazer um miojo.
O namoro começou no primeiro beijo, o amor chegou antes. Talvez,
muito antes, perto daquele dia que sentei embaixo de uma árvore na praça Japão
e “isso que estou sentindo se chama saudade”. Pisquei rápido os olhos num misto
de pavor e eureca.
O meu tempo despreza as horas, os ponteiros marcam
intensidades. Conta o que eu sinto. Nunca é cedo, nem tarde. Sou pontualíssima.


