Querido Diário, gosto de
sentir frio na barriga. Quando algo me abala, não é o acontecimento em si, é o
que eu sinto a respeito, medo, esperança, qualquer coisa. Aprendi a pensar
sobre isso. É como saber que existe uma goteira. Olha-se para cima para
identificar de onde vem, porque de pingo em pingo, se faz uma poça, se enche o
balde. Antes que a próxima tempestade inunde a casa, é imperativo cobrir os
pequenos furos. Conheci pessoas que levam a vida no piloto automático. Cedinho
decidi que não seria uma dessas pessoas, jamais. Invisto tempo em pensamento. Meu
porto é sempre o agora, ponto de partida para onde vou, ajuste nas velas para o
que eu quero e aquela implicância com as horas cronológicas. Gosto de tempo, funciono
bem no meu, sem tic-tacs, sou pontualmente alternativa neste quesito, mas não
costumo me atrasar aos compromissos. Hoje, eu desliguei o tempo. Às vezes, eu
preciso, principalmente quando quero oxigenar as ideias, temperar o pensamento.
Quarta-feira, trabalhei na
frente da janela, improvisei uma mesa para o computador e um espaço para o
caderno de anotações. Permaneço solar, me fez bem. Tenho me sentido mais forte
e corajosa, o morenito que me inspira tem cotas de participação nisso. Alma grande,
pessoa irresistível. Os abraços com suspiros ainda me surpreendem com a delicadeza
de uma pétala.
Sempre fui de arriscar, imprudente,
impulsiva, quase suicida, se não fosse imortal até que me provem o contrário. Sabia
que pensar é uma habilidade? Pode ser treinada. Não sou uma expert no
assunto. Meu achismo diz que a inteligência de uma pessoa não cresce ou diminui
de limiar, porém, a atividade de pensar é capaz de conduzir a mente com clareza
até melhores resultados. Falei estes dias, em conversas de balcão de cozinha: a
astúcia é tão importante quanto a inteligência. Se ambas puderem ser amigas,
melhor. Diário, estou escrevendo sobre isso, porque passou como um pé de vento pela
minha mente, uma coisa que me desagrada, a pergunta “por que eu não fiz isso
antes?”. Justifico o porquê do desagrado. Defendo que tudo que já me aconteceu
na vida, foi da melhor maneira que poderia ter ocorrido e no melhor momento.
Afinal, eu tenho sorte! Claro, não é só isso, evito este tipo de pensamento por
todos os “e se...” que nascem dele. Eu sou um ser pensante, evito gastar
energia naquilo que não dará resultado. O que foi, foi. Feito e acabado,
perfeito à sua maneira. Penso sim sobre o passado para resgatar ou descobrir
lições, não para me punir, lamentar, julgar ou desejar eventos alternativos que
vêm de brinde com os “e se...”. Nada acontece sendo apenas hipótese. A brisa
suave da sabedoria da alma retira o pó das ilusões. Isso justifica o meu frio
na barriga, minha empolgação, confiança e força. Tem dias que eu desligo o
tempo, acendo a lanterna de Diógenes. Não é por nada que a imagem de uma
lâmpada em cima da cabeça simboliza ideias.
Ultimamente, a Nasa tem confundido a minha cabeça com Las Vegas, cidade que se pode ver do espaço.
Beijos de luz (estou
quase gratiluznamaste) Kuky
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