Olha só, eu sei que o Universo é cosmos, não caos, porém, isso não quer dizer que seja ruim um desalinho para os viventes. Os desafios nos movem, antídotos para o piloto automático da existência. A direção é para o alto e para frente, ao mesmo tempo. Só assim, subimos os degraus até os andares mais altos. Nossas vidinhas nunca estão perfeitamente organizadas, isso é muito humano. Vivemos entre humanos. Tenho por hábito fazer uma gestão do meu tempo, reservo um tantinho aos imprevistos e outro, para o aprendizado. São tão certos quanto duas medidas de água para uma de arroz. É bom procurar uma inquietude para se importar. Eu gosto. Tenho uma gavetinha de ideias. Nada simples. A ordem plena é impossível enquanto os pulmões estiverem trabalhando.
Diário, te digo mais, não consigo imaginar alguém arrumando a vida para o amor chegar, como se fosse uma visita que vem para o jantar. Toc-toc. Nunca se sabe quando chega, nunca se sabe quando ele começa. Não tem como pedir para esperar um pouquinho, voltar mais tarde, fingir que não está ou que não ouviu a campainha. “O amor não sabe esperar”, cantavam os Paralamas do Sucesso!
Se a porta fecha, o amor pula janela. Dá uma brecha, ele inunda, provoca bobeira, crise de riso, suspiros, desejos e saudade. É espaçoso, não cabe em lugar algum, tem que carregar no peito mesmo. Com tudo isso, o amor consegue ser leve, brisa, barulho de onda na areia grossa da Praia Brava com direito a cheiro de sal e beijo crocante. É um céu azul, uma seda, uma palavra. A intimidade é uma delícia, a rotina é uma festa, a cozinha vira altar, as panelas são testemunhas. Às vezes, parece que o corpo se perde, desintegra.
Aconteceu comigo. Verdade. Estava colecionando pequenas desordens, porta trancada, duas voltas na chave, cadeado e corrente, um dragão, cortinas fechadas. Lá de fora, amor quebrou a vidraça, tem boa pontaria. Pulou a janela, quando vi, era tarde. Já me puxava pela cintura e bebia cerveja com o meu pai. Preenchia as minhas horas, inspirava as minhas ideias, furtava sorrisos à mão beijada. “Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser." Clarice Lispector, eu te entendo muito bem.
Ah, sobre as dicas que eu estava lendo, as demais eram, igualmente, terríveis. Hashtag fica a dica, só que ao contrário.
Para não dizer que não falei de filosofia, pensei na expressão “amor fati”, amar o destino, porque nem todas as coisas podem ser inteiramente controladas por nós. Antes do amor chegar, é bom saber que ele vai entrar de qualquer maneira. Impedir, é sofrer. Deixar passar, é não viver.
Se me pedissem uma dica para um bom relacionamento amoroso, seria “ame”, pode não ser simples, mas é a única coisa que pode ser feita. Isso é uma ordem. Antes do amor chegar, saiba que ele não aceita ordens e não esquece, que não sabe esperar. Eu também não.

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