quarta-feira, 31 de março de 2021

tecle o que você quiser


Quando ligo pra alguém que não me atende, geralmente, mando mensagem depois. Se não é urgente, espero retorno. Nunca deixo mensagem na secretária. Detesto deixar a minha voz gravada. A ideia de um recado meu viver aprisionado em alguma caixa postal de celular me dá claustrofobia vocal. O que eu falo é pra ser levado pelos ares, diferente do que escrevo, o que me faz pensar que eu deveria ter mais cuidado com o que escrevo do que com aquilo que eu falo. Mas não tenho. Ultimamente não ando tendo cuidado com nada. Os descuidos têm invadido meus dias, eu nem me importo, tropeço.

Não gosto das secretárias eletrônicas de celular. Odeio apertar um para ouvir, dois para não ouvir, três para apagar, quatro para saber de onde veio, cinco para saber pra onde vai, seis para chamar a sua mãe, sete para repetir tudo. Ignoro a cartinha com sorriso no canto superior direito do visor.

Dezessete mensagens.

Foi questão de vida ou morte, precisei acessar o serviço. Quase ameaçada, entre a cruz e a espada, sucumbi ao asterisco-sei-lá-o-quê. Aperta aqui, aperta ali e não tem como ouvir só o último recado. Ai, ai, as belezas dos pequenos sacrifícios. Uma vez ouvi uma mulher dizer para o marido na fila da padaria: “eu sempre perco a minha novela para fazer a tua janta!”. Colocar uma televisão na cozinha, nem pensar! Seria o fim da reclamação, o fim do sacrifício, o fim da vítima, porém, sem morte. Muito indigno. Aproveitar para envenenar o marido dia após dia, também não? Jantar romântico diariamente, nem pensar? Escrever um livro de receitas práticas, muito práticas mesmo, para não perder a novela, jamais? E greve de janta? E todos os dias pão com ovo?

Acho que as pessoas têm pouca criatividade doméstica. Os relacionamentos adoecem disso. A rotina definitivamente não é a culpada.

As mensagens acumuladas de um mês são surpreendentes. Amigos bêbados, pai, mãe, avó, gerente do banco, amigo sóbrio e um engano. A observação mais interessante fica por conta das três mensagens da mesma pessoa que enviou aquela última que eu precisava ouvir. Não foram gravadas no mesmo dia, tiveram tempos e acontecimentos distintos. Preocupantes.

Há quem diga – e esse quem tem nome, sobrenome, endereço e apelido – que eu me preocupo com coisas vagas que eu mesma invento. Prefiro eu fazer pequenos boicotes e colher preocupações vazias do que ser atropelada por dúvidas terceirizadas. Por outro lado, preocupações que deveriam ser verdadeiras e tirarem o meu precioso sono acabam sendo motivo de piadas. Li em algum lugar que humor obscuro pode ser culpa de vírus e bactérias. Posso parar de dizer “é que eu sou de aquário”. Vou trocar por “a culpa é dos meus bichinhos e acho que isso pega.”

Voltando ao trio de mensagens. A primeira, logo quando nos conhecemos, por conflito de compromissos, não conseguimos nos encontrar como havíamos combinado. “Oi (um oi bem tímido), me liga quando puderes. Agora já estou livre. Se quiseres podemos almoçar (era 4 da tarde!) ou tomar um café. Beijo.” Recado dado na ponta dos pés. Foi, praticamente, o recado de uma bailarina, tamanha delicadeza e cuidado empregados nas palavras e no convite.

O segundo recado já foi mais íntimo, depois de uma dessas noites em que as garrafas vão surgindo em cima da mesa, os copos vão alternando muito rapidamente entre cheios e vazios. “Oi, só quero saber se já chegou em casa e está tudo bem.” A voz era de quem ia dormir com o pé no chão pra cama não girar. Só possuímos preocupações por quem já nutrimos certa dose de intimidade. Eu sempre alinhavo essa preocupação com curiosidade em saber se fui mesmo pra casa. Eu moro a mais ou menos cento e cinquenta quilômetros da praia, muitas vezes já errei o caminho e acabei vendo o sol nascer na frente do mar. Como era uma terça-feira, perto das duas da madrugada, acredito mesmo na hipótese do zelo.

A terceira mensagem que me fez escutar todas as dezesseis anteriores. “Oi, tudo. Olha só, eu sei que combinamos lá pelas 9:30, mas está passando um filme muito bom que começa às 7:30, então não sei se às 9:30 vou estar pronto, porque vou no cinema. Mas, me liga. Ah, se eu não atender é porque ainda estou no cinema. Bom, qualquer coisa, me liga depois. Beijos.” Nota da autora – eu mesma! – a pessoa já nem se prepara psicologicamente para me ver. Mata a família e vai ao cinema. Melhor, vai ao cinema e depois mata a família! Foi-se o tempo em que um jantar romântico exigia concentração.

Dona moça dos recados do meu celular, para intimidade, teclo o quê?

Vou cancelar o serviço de secretária eletrônica com a operadora. Não quero mais descobrir o tanto que as minhas relações modificam pelas mensagens que eu recebo. O único perigo será chegar em casa algum dia e encontrar o cidadão de cueca no meu sofá, zapeando o controle remoto da televisão bem na hora da novela. Daí, eu vou ser amiga da mulher da padaria – mentira.

(Parênteses: já que o blog é MEU, posso inventar, modificar, omitir, furtar, fuzilar, esquecer de propósito, adicionar, dramatizar e todos os outros verbos que impliquem em, resumidamente, fazer o que eu bem entender, inclusive mentir!) Bem digno narrar fatos alheios em primeira pessoa. 



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