Procura-se alguém disposto a fazer mundo. Porque das pessoas que fazem tempestades em copo d’água, eu já estou farta. Por favor, apaguem esse holofote, desliguem a fumaça, mandem embora a platéia. Não quero esse picadeiro por aqui. Pelo menos não pra falar de amor. Não para sentir paixão.
Andei aprendendo que sentimento é confissão e que não se gosta sem antes ajoelhar para assinar na linha pontilhada a autoria de pelo menos um crime. Que por mais que alguma sedução seja necessária, a cara lavada das manhãs de domingo é o que faz um par seguir. Não é o amor cru, não é o ciúme ou a falta dele, não é o bilhete de eu te amo postado embaixo do travesseiro ou as rosas mandadas sem motivos, não é o romantismo, nem as noites de sexo ou os jantares à luz de velas, beijos de cinema, despedidas de novela no portão de casa. Isso alimenta, é o que engorda. E não é a não entrega o que preserva ou protege ninguém de chorar na companhia dos azulejos do banheiro. A gente toma paulada na cabeça e é proibido que isso justifique o desamor, a inércia de gostar, o vazio de sentimento. Os dias precisam de cor. Amigos são as melhores coisas do planeta, família é indispensável, trabalho é prioridade, mas o sentido da engrenagem vai pro lado certo com o coração quentinho. Mesmo que seja um coração saltitante, conjugar o verbo que o faz bater é uma necessidade física, talvez biológica, que a química tenta explicar.
Ninguém se salva de ser surpreendido por um abraço com encaixe perfeito. Um sorriso racha no meio da nossa cara e a gente nem se dá conta.
Fazer mundo é complicado. Precisa de investimento, precisa ficar descalço dos costumes e nem sempre a pisada é confortável. E por que abrir mão da liberdade para abrigar na vida um estranho?
Nem romântica eu sou.
Desagrada-me quem faz de um fio novelo. Costumo amarrar meus fios, costurar com eles, unir, dou aquele laço no dedo pra lembrar. Gosto de quem me dá linha, mais ainda de quem me dá corda. Gosto quando tudo parece combinar e nada parece ter sentido. Eu gostava de estar fazendo a coisa errada e jamais querer saber se haveria acerto. Tenho saudade de pequenos gestos, como ajeitar minha franja que insiste em cair nos meus olhos... E quando tudo se afoga em um copo d’água, somos forçados a deixar os dias pra trás.
Voltaremos a sorrir. Voltaremos.
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