quarta-feira, 31 de março de 2021

desarmada e perigosa

 



Não sou do tempo das cartas de amor. Sou no máximo do tempo de bilhetes em guardanapos. Eu gosto dos recados curtos de amor. Compenso a economia de palavras nos gestos. Isso não me leva a comprar cartões com dizeres ou me utilizar do que alguém já disse, não. Uso as minhas palavras originais de fábrica, ainda que encontre nas citações alheias e nas canções muito do que eu quero dizer.  Minhas declarações são um sem-fim de sem-tempo. São quase impensadas, quando não são de fato! É uma autenticidade mucho loca.

 Tenho vivido o que acredito. Pena que não posso dizer "desde que nasci", outra hora isso vira assunto. Tenho encontrado o escambo de informações, filosofias, palavras, carinhos, peculiaridades que me absorvem como faria um buraco negro. Tem sido interessante me entregar às mesmas coisas que sempre me fizeram correr léguas sem olhar pra trás. Não tem como negar a série de incríveis começos que estão acontecendo, a atração de tudo como se houvesse imã, o encaixe desenhado por dedicados arquitetos. Ando me dedicado como nunca, por vontade minha. Fiz até tema de casa, só não ganhei estrelinha no caderno. Faço por mim. Quando fico sozinha, concentrada em algum afazer, uma sacola de pensamentos voadores invade minha mente. Peço licença, não sai. Em seguida vem a lembrança. 

Esse negócio de gente com alma grande me fascina. Alma que não cabe no corpo, com tanta energia acumulada que se sente preso. 

 Eu me pego rindo sozinha, até durante o banho. “Eu sou uma ridícula” é o que vem logo depois do meu próprio flagrante de devaneio. Fico até encabulada na frente do sabonete.

 Ando quase uma terrorista. Esbarro em mais coisas por metro quadrado. Eu, apaixonada, sou quase uma tragédia ambiental. Respondo coisas desconexas para perguntas simples:

- Açúcar ou adoçante?

- Quarta-feira.

- CPF na nota?

- Prefiro verde.

Se me pedem para abrir a janela, volto com um copo de água. Preciso ligar para alguém, pego o celular e verifico se tem mensagem. Não. Ligar pra quem, mesmo? Quase dei banho na cadela usando carpex, vidrex, errorex. Ando perigosa. 

Escovei os dentes duas vezes antes de dormir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...