Já declarei a minha admiração por quem sabe dançar. E também já confessei que sou uma desengonçada. Dançando sozinha, até engano. Mexo um pouco pra lá, um pouco pra cá. No auge do entusiasmo posso até arriscar os vexatórios dois dedinhos apontados para cima. Os amigos me guilhotinam os dedos com o olhar. Nunca tentei fingir que sabia. Até faz parte do meu show não saber. Eu sou partidária da ideia que quem tudo sabe ou tudo faz não se dedica a nada. Eu me dedico a cantar desafinadamente todas as músicas, muitas vezes errando a letra. Dançar que é bom, nada. Ou muito pouco. Ok, nada. Mas me mexo. Com ritmo!
Se eu admiro as pessoas que dançam bem, admiro mais ainda as que dançam bem juntas. Alguém que sabe dançar, que nasceu com o dom da molinha nos quadris, baila sozinha sem preocupação. Mas ao dançar com alguém, depende que encaixe um passo seu, no do outro. Falo isso com relação à dança de improviso, não das coreografias de palco, ensaiadas.
Lembro de um ensaio do Francisco Bosco, onde ele cita a explicação de Antônio Gades – dançarino de flamenco – quando tentava definir o que era dança. Dizia que não ocorre no passo certo, mas que é o que ocorre entre eles. É o momento entre um e outro, a formação do conjunto. Francisco usa essa definição para descrever o que é escrever, fala sobre a alegria do improviso na dança e das possibilidades criativas do improviso.
Ora bolas, criatividade é uma coisa que sempre me foi farta. Tenho mais criatividade do que sardas. Uma vez a minha mãe perguntou se eu tinha resposta pra tudo. Respondi que sim porque o que eu não sabia, eu inventava. Ela não repreendeu. Tenho a sorte de ter uma mãe esperta. Fui tacitamente autorizada a inventar. Numa época onde a maior preocupação era ganhar no bafo a figurinha que faltava para completar o álbum da Copa, ou qual a tabuada que ia cair na prova de matemática, autorização para criar rendia mundos. Ainda rende, galáxias.
Depois aprendi o mais importante, que inventar, pode. Enganar, não.
A invenção deixa usar uma parte bonita da subversão. É pensar fora da caixa, permite a observação do todo. A criatividade trabalha com o lado bom da subversão. Não reprime os instintos, mas exige uma certa verdade. Invenção inventada sobre o vento, não se sustenta. Daí de nada adianta. Tudo leva um pouco de mim, nada se cria do vazio. Então, como pessoa criativa, decidi que eu tenho o direito de saber dançar. Descobri que eu sei dançar. O que surpreende é que não descobri isso dançando, mas pensando.
Imagino que eu jamais saberei fazer um entrechat ou um assemblé. Nasci com jogo de cintura na imaginação. Sei dançar a costura de um passo no outro e apenas por isso sei dançar. Ballet, tango, samba, rumba, qualquer ritmo, desde que seja de improviso. Desde que o parceiro de dança não tente me ensinar, esteja disposto apenas a improvisar junto. Há infinitas possibilidades, muitos movimentos em que os acertos rendem como prêmio sorrisos. As risadas são os aplausos dos lábios.
Sempre me atraiu a invenção em conjunto. Conto nos dedos os parceiros que tive. A delícia de dançar junto está em conhecer aos poucos os sinais que o outro dá. Saber qual espaço do corpo se pode ceder, qual espaço que o outro deixa e se pode ocupar. Se relacionar com alguém é isso, rir do improviso que deu certo. Aceitar qualquer ritmo não em busca do acerto simétrico, da regra, de seguir a batuta. É inventar a dança dentro do ritmo. É não ensaiar. É inventar a coreografia e deixar levar pelo momento.
Um casal será singular quando deixar de acreditar nas fórmulas prontas de felicidade. Aprenderá a dançar seus próprios passos para usar no caminho, independente do ritmo. Aprendi que sei dançar porque sei criar. A vida é muito divertida para quem tem disposição. E nesses tempos de solidão, descobri que dançar a dois pode ser mais divertido ainda. Mais sorriso, mais aplauso, mais platéia. Simples? Muito. Simplicidade é o pulo do gato, pas de chat!
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