quarta-feira, 31 de março de 2021

pólem do riso

 


Costumo me abandonar às vezes, apenas para não me esgotar. Não uso até o fim todas de mim. Vivo e morro muitas vezes, até num mesmo dia. Posso cansar de tudo, jamais suportaria meu próprio tédio. Por falar em tédio, este é um senhor de quem esqueci o cartão de visitas no fundo de alguma gaveta. Dificilmente lembro-me de vivê-lo. Tenho muito riso para dar.

Eu me agrado fácil. Hoje ri porque uma flor pousou no meu ombro enquanto eu revirava a bolsa atrás da chave do carro. Uma florzinha branca, dessas sem vaidade, que já nascem com a beleza que precisam. Veio e se sentou, como um papagaio. Encarei com dúvida até me convencer do que era. Ela me encarou com pólen.

Olhei em volta para procurar a mãe da flor, a árvore mora quase na outra esquina. Com a ajuda do vento e um pouco de sorte, unimos nossos destinos. Deus existe nesses momentos. Não é na súplica, na raiva ou na devoção, Deus existe em tudo que nos toca. Sorrir é simples e divino. Às vezes tudo que a outra pessoa precisa é de um sorriso. É mais contagiante que bocejar. Ao sorrir emprestamos alegria aos olhos, que por alguma ligação que a fisiologia não explica – ou explica e eu não sei – leva para o coração. A sensação é de conforto. É a minha carta na manga para espalhar amor.

Vivo muitas em mim, criando intimidade. Ser estranha à própria vida seria egoísmo. Permito-me repetir. Permito a reinvenção e as reformas. Isso multiplica as minhas chances de felicidade. Fico perdida em mim mais pelas surpresas da procura do que pela redenção do encontro. Não nasci para ser sempre a mesma. Não acredito em caminho de linha reta. Qualquer olhar perdido me seduz, vira farol.

Evito me explicar demais, eu sei que os meus porquês confundem. Apenas sou. Oferecer a mão, ceder um sorriso para alguém ou o ombro para uma flor é questão de sensibilidade, não de explicação. É espalhar o meu pólen no dia alheio. É multiplicar a minha vida em outras vidas.


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