quarta-feira, 31 de março de 2021

óculos para ver encrenca

 junho 18, 2011




Se eu tivesse que pedir algum conselho amoroso, jamais pediria pra mim. Opto com muita frequencia pelos riscos, por avançar os limites do que apenas parece ser. Prefiro testar, não sei, sou da opinião que é válido o que faz o coração bater ou parar. Mais parar do que bater. Aliás, sou a favor do que consegue parar tudo. Ponteiros do relógio paralíticos, pessoas brincando de estátua, paisagem pintada em escala de cinza, nada mais existe além de um número: dois. Olhando bem, um. Mas são dois. Dois, inteiros, completos, únicos no mundo que tiveram a insensata felicidade de se encontrar – ultimamente ando reparando na felicidade, ela é insensata, outra hora eu explico o porquê, preciso falar sobre conselhos e óculos.

Sem entrar em detalhes sobre os personagens da história, peço licença a toda a literatura de qualidade para iniciar o relato da forma mais clichê que consigo: Noite dessas um amigo me procurou. Queria conselho amoroso. Estava sentado em um muro, pra lá namoro, pra cá, a solteirice. O que ele queria? Namorar. Por que não namorava? Porque acreditava que a pretendente era, nas palavras dele, encrenca. Não conversamos um suspiro sobre os motivos dela ser ou não encrenca. O que meu amigo queria não era bem um conselho. Queria me usar de óculos.

Para as questões que já sabemos as respostas, óculos. É a prova real da certeza, melhor de três, escolha por maioria de votos. Ao perguntar o que o outro acha, já sabemos o que é. Precisamos da concordância, do aval. Fazemos empréstimos dos argumentos. É como pegar livro na biblioteca.

O fato da pretendente em questão ser encrenca, já estava diagnosticado. Sabemos o que as coisas são por seus contornos. Identificamos o cheiro, onde estão, o que fazem, que cor têm. Sabemos o que é ainda que não seja perfeitamente nítido. Sabemos o que é quando a certeza do equívoco é menor do que a certeza da certeza. Mas a gente tem astigmatismo da verdade, enxergamos fora de foco e distorcido o que já sabemos que é. Usamos o outro como óculos. São nossas lentes tóricas. Nossos óculos permitirão a concordância com o que narramos, não a certeza, essa já existia.

Quanto ao fato de ser encrenca, não justifica descartar a pessoa. Boas encrencas rendem boas histórias. Passados não podem condenar futuros quando o assunto é relacionamento***. Há riscos. E eu acho os riscos muito tentadores... Talvez desafiar a razão seja a melhor pedida. Talvez desequilibrar a balança pro outro lado possa valer a pena. Eu sei que ninguém mais quer brincar de namorar. Sei que ninguém mais quer levar a vida amorosa como quem empina pipa, conforme sopra o vento. Somos todos conscientes disso, não?!

Mas o que se perde? Umas noites de sono, umas fronhas de travesseiro, umas garrafas de vinho. Ouvir “eu te avisei”de alguém que tenha avisado vai fazer eco no ouvido tanto tempo quanto doerá a queda. Mais uma cicatriz, mais um band-aid emocional. Mais porquês sem resposta. Isso se houver a queda. Só cai quem sobe e só sobe quem quer arriscar. Arrisca quem está vivo. Respirar já é arriscado.

Ainda não encontrei amores enlatados, com indicação de consumo e quantidade de calorias. Se for light, então, nem quero! O amor é improvável. Partindo daqui, qualquer risco está justificado. A próxima jogada é exercitar a sinceridade. Assuma o medo, ele existe e é seu. Mas não deixe que ele cochiche no ouvido o que deve fazer. O medo é prático e patético. Amigo perfeito da preguiça.

Estamos tão mergulhados na ideia de encontrar a pessoa certa que não percebemos que nem nós somos a pessoa certa. Existe a relação certa, com alegrias, tristezas, frustrações e desmedidos amores inclusos no pacote. O encontro certo. Toda a encrenca tem direito ao amor! Às vezes tudo que uma boa encrenca quer é alguém disposto a fazer confusão junto. Alguém disposto a errar junto, pra depois rir junto e aprender junto. Alguém disposto a estar junto, esta é a grande raridade. É monótono estar sempre certo. É triste estar certo separado.

Um voto a favor da encrenca.

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