quarta-feira, 31 de março de 2021

ciência, arte e nós com isso

 agosto 31, 2011




Nunca comprei um relógio que já viesse com a hora certa. Mesmo quando a vendedora arrumava na loja, ainda não era a minha hora. Oito minutos na frente caminham os meus relógios. Os  que pararam por falta de pilha, assim marcavam. Oito minutos nos ponteiros, mas não no meu tempo. Esse voa.

E porque meu tempo é diferente do cronológico, com meus tic-tacs atípicos, eu não uso relógio. Gosto de ter, ganhar, comprar. É um objeto lindo, cheio de simbolismos. Quando falei sobre deles e da hora certa, estava falando de pessoas. Nunca vi os ponteiros das pessoas marcando hora certa já de início. Nem presenciei ponteiros que não precisassem de ajustes com o passar do tempo.

Cada um tem seu tempo e seu espaço. Isso é real, é fato, é científico. Einstein se dedicou a escrever sobre a teoria da relatividade restrita. Esta é diferente da primeira teoria da relatividade, de Newton, onde as forças e espaços são iguais para todos os observadores inertes. Einstein não disse que Newton estava errado, apenas referiu que em caso de mais de um observador em movimento, a uma determinada velocidade, as noções de tempo e espaço se alteram. O que isso tem a ver com as pessoas? Simples. Somos seres em constante movimento, mas não em velocidade constante e jamais na mesma velocidade. Somos nômades das próprias ideias, variáveis infinitas de possibilidades e isso sem sairmos da circunferência do umbigo.

Ainda assim, estamos em movimento!

Nesta teoria, Einstein foi muito filosófico (obrigada, querido!), considerou que o tempo não tem uma duração absoluta. Acredito que depois disso, ele também deve ter abolido o uso do relógio. Ah, mais uma coisa importante, para essa variação, o movimento dos observadores não deve ser a esmo, é um movimento entre si. Eu, calçando as meias do romance, neste momento, já imagino Gardel na vitrola. Dois corpos em movimento num belíssimo tango. A dança é um movimento perfeito de pessoas – mesmo para quem, como eu, não sabe dançar. Ofereço perigo ao pé do par mesmo quando danço dois pra lá e dois pra cá. Admiro muito quem sabe dançar junto, quem utiliza com perfeição o espaço que o outro deixa para encaixar o seu corpo no ritmo. Dançar é uma arte, é Vettriano em movimento, com trilha sonora.


Salvador Dali pintou essa teoria da relatividade restrita através de relógios em três momentos: A persistência da memória, Relógio mole no momento da primeira explosão e A desintegração da persistência da memória. No primeiro quadro, três relógios moles, moldáveis e maleáveis marcam horas distintas em três partes do quadro – passado, presente e futuro. A paisagem de fundo é uma praia onde ele costumava ir na infância. No segundo quadro, Dali pinta um relógio mole com peças soltas e os ponteiros flutuando sobre a caixa. Dá ideia do tempo se moldando ao momento, o observador define o momento, a hora de quem vê. Por fim, no último quadro, Dali revela elementos não aparentes no primeiro e fragmenta os objetos do quadro, com exceção dos relógios. Na física, todos os elementos são fragmentados, formando o todo que podemos perceber. O tempo é moldado pelo espaço, dependendo mais uma vez do observador e do seu movimento.

Na física ou na arte, os ponteiros estão lá, aguardando ansiosos o ajuste. Eu sou a primeira a votar a favor das conversas francas. Acredito que pessoas dispostas a estarem juntas podem ser sinceras. Conversar não é sinônimo de briga. Discutir a relação é hábito saudável, tanto quanto não fumar e comer verduras. Não há mal em dizer o que pensa, confessar o que se sente, compartilhar vontades. Está em dúvida, pergunte. Isso cura dor de ideia.

Lógico, é necessário um cuidado. Não podemos sair falando tudo sem edição alguma, isso é preguiça, falta de preocupação. A palavra pode beijar, mas também pode morder. Acaricia e belisca. Eu não acredito em relações onde tudo é varrido para baixo do tapete. Uma hora isso volta. É uma questão prática nada complexa. Quando a nossa casa está suja, limpamos. Se a pia está cheia de louça suja, lavamos. O relógio não marca a hora certa, ajustamos os ponteiros. Organizamos tanta coisa e somos negligentes com a vida pessoal.

Observo uma falta de coragem muito grande para tomar atitudes. Quando duas pessoas estão em movimento entre si, o tempo e o espaço não são os mesmos, o que não quer dizer que seja impossível uma área de contato. Os ponteiros não se ajustam ao acaso, a equação matemática se dá pela palavra. Parar para escutar é fundamental, mas parar para falar também.

Nunca comprei um relógio que viesse com a hora certa, nunca conheci ponteiros que não pudessem se acertar. Como nos relógios de Dali, nosso tempo é moldável ao espaço, perfeito para que se encontre a sintonia. Basta boa vontade e doses cuidadosas de sinceridade.




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