Querido diário, sou mutável, tenho apego a poucas coisas. Cansei de usar
a cota das ruivas. Sábado, disse que eu sou a Kuky, pura economia de
explicações para me livrar das etiquetas. Houve um tempo em que pensei ser
grande Cupida. Falácia. Uso a sorte do amor em benefício próprio. No jogo, eu
roubo, honestamente. Tento ser coach do amor, acontece, que os
meus mentorandos são desobedientes. Ser eu tem me dado mais trabalho do que o
habitual, isso não tem qualquer relação com as minhas funções profissionais, a
propósito, completei um ano no escritório. Fui na Arena, não a amo como o
Olímpico. O Grêmio ainda me arranca as lágrimas que não chorei a vida toda. Há
histórias que poucos conhecem, ninguém quer ouvir e, mesmo assim, eu conto,
porque existem. Escrevo histórias em várias pessoas e tempos, respeito o que
escuto, me reservando a pequena edição do autor. Diário, não acha a hostilidade
algo muito estranho? Tanto quanto jeitos de tratamentos que, às vezes, fico em
dúvida se quem recebe já se habituou ou deixa passar. A academia é uma boa
fonte criativa, uso fones para não precisar conversar, o que não quer dizer que não presto atenção.
Entre pesos e filosofia, cada dia mais forte. A creatina ajuda.
Olha só, já tive semanas menos acidentadas. Saí com pressa, acendeu a
luz indicativa no painel do carro: reserva de combustível. Abasteci-nos, para
ele, gasolina; para mim, energético. O lençol que voltou da lavanderia me deu
alergia, a gata jogou a chave de casa para baixo do sofá. Pelo menos, encontrei
a tarraxa perdida de um brinco. Acabou o gás no meio da produção de janta, às
21h. Que horas as entregas de gás param de atender? Sim, às 21h. Dei meus
jeitinhos, Papai do Céu me fez ser humano cativante. Usei salto altíssimo
quando precisei caminhar uma maratona. Meu crachá rasgou a meia-calça, do
joelho até as ideias. Coloquei a mão no bolso, encontrei o que julgo ser os
restos mortais de uma paçoca, já em forma de farelo. O chimarrão entupiu.
Precisei colocar pingos nos “is”, esta parte é chata e necessária em iguais
proporções. Dormi cansada em cima do livro, de óculos, tenho um discreto
hematoma em lugar pouco convencional. As usual. Tudo bem. Tudo bem?
É o que quase ninguém pergunta, porque todo mundo diz o que deve ser feito, ou
te entrega um pacote de culpa. Carregamos nossos próprios atropelos, junto com
espelhos que refletem mais sobre nós, do que sobre o que
refletimos. Refletir é preciso. Minha mana perguntou se estava tudo bem sei que
eu vivo perguntando. Farol em meio a tormenta. Meu escafandro. Nós temos isso
em comum, interesse genuíno pelos nossos e pela humanidade. Gostamos de pessoas
e gatos. Gosto de um (meu) urso. Estudamos pessoas a sério, cada uma de um
jeito. A bandeira do sorriso flamulou, como de costume. Adaptável, flexível. Vim
feliz e criativa de fábrica. Uma gracinha, deste sempre. Posso não saber
dançar, mas tenho muito jogo de cintura e um tanto de sorte. Para os
imprevistos, lições e soluções. Pouco reclama quem muito faz.
Diário, tenho um tanto de estranhamento com reclamações contumazes,
tanto com isso, quanto com a hostilidade. Tenho por hábito acordar o sol. Faço
mundo, enquanto esquenta a água para passar o café. Antes do rímel. Dentro da
semana que passou, senti que vivi outra vida, quase que não a minha, parei numa
sinaleira enquanto tocava “I walk this empty street, on the Boulevard
of Broken Dreams. Where the city sleeps and I'm the only one, and I walk alone”.
Greenday me dava razão, “my shadow's the only one that walks beside
me”. Entendi. Sempre sei. Tantos estranhamentos, banho com
maior minutagem, faço careta sem querer, minhas ideias não sossegam, qualquer
coisa passageira. Sou mimada, mal acostumada, me passaram açúcar, a
cordialidade e o dengo são meus amigos, vou embora quando não ganho, que nem
gato que troca de casa. Meu DNA é felino, lembra? O agora dos últimos dias,
até então, estrangeiro adquiriu visto de permanência, não me restou
alternativa. Cumpriu requisitos formais e não uso energia para combater o que
vai além das minhas possibilidades. Que se adapte logo ou a imigração será
acionada, neste meu mundo, cinza, só em bons looks (e produto final do
churrasco).
Não garanto a integridade da louça.

AH, AS IRMÃS HEINE. UMA É UM ANJO, A OUTRA DÁ TRABALHO.
ResponderExcluirMega foda, bocuda. Tu é o cara. G.M.
ResponderExcluirLouise, eu leio teu blog faz mto tempo. Me identifico com todos os textos. Este último é incrível de rico. Sim, hostilidade é uma merda.
ResponderExcluirEu te amo por quem és e pelo que entregas ao escrever. Raio x da tua verdade.
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