Querido diário, um tantinho de sol invadiu a cama desarrumada
hoje pela manhã. Eu, oportunista, mergulhei naquela luz, porque estou com
saudade de dias ensolarados. Gosto de inverno. Destes dias cinzentos, não. O meu
humor é de chuva ou é de sol. Eu sou bem colorida. Sempre estranho um pouco as
camas dos hotéis. Desta vez, estranhamento duplo. Sabe, diário, muito se diz
por aí, que os opostos se atraem. Estive observando, logo, disconcordo. Lógico,
não existe uma pessoinha exatamente igualzinha à outra no mundo, ainda bem. Nossa
fábrica não é uma forminha de gelo. Não somos como aqueles doces, perfeitamente
idênticos, lustrosos, que desfilam nas esteiras de vitrines nas confeitarias em
Paris. Pura arte com generosa quantidade de manteiga.
O ser humano é um produto complexo, as variáveis são tantas,
que a fórmula é impossível de ser reproduzida. Tem o fator genético, tem o que
os pais ensinam, o que se desaprende, a escola da vida, os amigos, inimigos, colégio,
faculdade, amores, filmes, o que vem de fábrica, o que os livros trazem, o que
varremos para baixo do tapete, os porões da mente e as falsas memórias. Tem o
que se aprende nos tutoriais. Já arrombei a minha própria porta orientada por
vídeo de celular, o que me salvou de dormir no corredor do prédio. Estou
brincando, se não conseguisse, daria um search atrás de chaveiro ou pé-de-cabra
com entrega expressa pelo aplicativo. Nunca tentei usar um pé-de-cabra, mas
tenho astúcia, criatividade e ousadia. Já arrombei coisas minhas que estavam
emperradas usando suspiro e pensamento. Conheço uma pessoa que troca o
comportamento conforme o livro de autoajuda que lê. Viver tem muitas hipóteses.
Verbo dinâmico.
Olha só, quando se unem duas pessoas muito, muito, muito
diferentes, uma não completa a outra. O que eu mais vejo, é uma competir com a
outra. Há relacionamentos que são verdadeiras provas de força, queda de braço
com pequenos intervalos de bandeira branca. Pouquíssimo romance, quase zero
beijo na boca e um bocado de insistência batizado de amor. O amor é outra
coisa, já dizia um papel de carta dos anos oitenta. Eu te amo vira reflexo
medular. A cama é protocolar. Existe um tipo de invenção, sobre ter alguém que preencha
a existência com aquilo que nos falta. Ilusão, história para boi dormir. Ninguém
fará isso. Acredite em mim, o que nos falta, é problema nosso, ou resolvemos,
ou aprendemos a viver sem (e bem!). Geralmente, o que está em falta não tem na
farmácia, no mercado, na ferragem. Livrarias podem ter indícios na mesma
proporção que perigos. Se o coração está vazio, que se aprenda a fazer com que
ele transborde. Quanto mais temos, mais podemos dar, ainda que ninguém peça. A
doação é orgânica. Muitas vezes, fico lendo quem está ao meu lado, seguindo com
os olhos, observando os movimentos. Sei que mexe as mãos, juntando os dedos,
quando quer explicar o que pensa, que olha para o chão para juntar as palavras,
que deixou cair, porque é cauteloso. Aprendo tanto. Olha só, uma vez, ganhei um
livro com a dedicatória “que os justos, finalmente, se encontrem”. Entendi o
recado nas últimas palavras da última página, fechando a contracapa, aposentando
o marcador de páginas. Momentos e livros são melhores compreendidos quando vistos
na íntegra da obra. Um capítulo, um frame, pode tirar do contexto toda a moral.
Então, que se encontrem os justos, na justa medida dos encontros. Estar com
alguém parecido faz convergir os caminhos.
Vamos por Galópolis? Vamos por qualquer lugar, vamos juntos,
é o que importa. Curvas e conversas com o chimarrão de ontem, sem água porque
esquecemos de encher a garrafa térmica. Encher a vida ocupa bastante tempo. Eu
não me enjoo de mim, deu bastante trabalho ser eu, um investimento de
longíssimo prazo em permanente construção. Fico alegre em reconhecer
semelhanças. Nossos pensamentos são amigos, nossos desejos são entrelaçados. Me
surpreendo várias vezes, pensando, com riso escapando no canto da boca, que
sorte a nossa. Tive crise de riso, acho que estou rouca de rir. Não é raro. Sou
pessoa feliz, repito mil vezes, nasci assim e assim me mantenho. Quando se unem
os semelhantes, as virtudes se potencializam. Um puxa o outro para cima, as
forças se retroalimentam na mesma direção. A sensação é de paz e potência. A
evolução do relacionamento é natural. Há momentos em que nada mais existe além
do abraço que eu estou vestindo. A alma grande me seduz. Combinamos em grau e intensidade,
pode ser por isso que tão facilmente me apropriei das amizades, já degusto as
histórias como se fossem as minhas, “mil gols nestas goleiras”. Abro mais
portas do que jamais abri. Somos tranquilos em ebulição. Conversamos com
olhares e nos entendemos de olhos fechados. Bem parecidos em coleções de vários
tudos. Admiro, sinto orgulho.
Gostei da fala de improviso, a coragem me ganhou, desde
antes de entrar em campo no Gauchão. Se inventar de viajar de foguete, risco o
palito para acender o pavio. Por falar em assuntos incendiários, me foi pedido
para não deixar o fogo morrer. O churrasco já conta com horas de atraso, eu
controlo as labaredas. Amo domingo, os ponteiros do relógio amolecem. Busquei
mais um saco de lenha. Dentre todas as promessas que eu faço, prometo que,
jamais, a chama será branda. Esta é mais uma das nossas felizes coincidências,
morno, nem o chá. Concluímos, depois dos quarenta minutos do melhor atraso do mundo,
que não sabemos brincar. Minha vó dizia que eu era fogo na roupa. Dizem que
isso significa que sou danada. Vai melhorar, também dizem. Sou boa com esse
negócio de fogo. Somos. Fogo e paixão. Diário, toca um Wando aí. Fomos num bar
de vinhos, saí na contramão. Repito, não sabemos brincar.
Beijos, com raio, estrela e luar, Kuky.

Como sempre perfeitooo
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