domingo, 3 de julho de 2022

QUASEIGUAIS

 

Querido diário, um tantinho de sol invadiu a cama desarrumada hoje pela manhã. Eu, oportunista, mergulhei naquela luz, porque estou com saudade de dias ensolarados. Gosto de inverno. Destes dias cinzentos, não. O meu humor é de chuva ou é de sol. Eu sou bem colorida. Sempre estranho um pouco as camas dos hotéis. Desta vez, estranhamento duplo. Sabe, diário, muito se diz por aí, que os opostos se atraem. Estive observando, logo, disconcordo. Lógico, não existe uma pessoinha exatamente igualzinha à outra no mundo, ainda bem. Nossa fábrica não é uma forminha de gelo. Não somos como aqueles doces, perfeitamente idênticos, lustrosos, que desfilam nas esteiras de vitrines nas confeitarias em Paris. Pura arte com generosa quantidade de manteiga.

O ser humano é um produto complexo, as variáveis são tantas, que a fórmula é impossível de ser reproduzida. Tem o fator genético, tem o que os pais ensinam, o que se desaprende, a escola da vida, os amigos, inimigos, colégio, faculdade, amores, filmes, o que vem de fábrica, o que os livros trazem, o que varremos para baixo do tapete, os porões da mente e as falsas memórias. Tem o que se aprende nos tutoriais. Já arrombei a minha própria porta orientada por vídeo de celular, o que me salvou de dormir no corredor do prédio. Estou brincando, se não conseguisse, daria um search atrás de chaveiro ou pé-de-cabra com entrega expressa pelo aplicativo. Nunca tentei usar um pé-de-cabra, mas tenho astúcia, criatividade e ousadia. Já arrombei coisas minhas que estavam emperradas usando suspiro e pensamento. Conheço uma pessoa que troca o comportamento conforme o livro de autoajuda que lê. Viver tem muitas hipóteses. Verbo dinâmico.

Olha só, quando se unem duas pessoas muito, muito, muito diferentes, uma não completa a outra. O que eu mais vejo, é uma competir com a outra. Há relacionamentos que são verdadeiras provas de força, queda de braço com pequenos intervalos de bandeira branca. Pouquíssimo romance, quase zero beijo na boca e um bocado de insistência batizado de amor. O amor é outra coisa, já dizia um papel de carta dos anos oitenta. Eu te amo vira reflexo medular. A cama é protocolar. Existe um tipo de invenção, sobre ter alguém que preencha a existência com aquilo que nos falta. Ilusão, história para boi dormir. Ninguém fará isso. Acredite em mim, o que nos falta, é problema nosso, ou resolvemos, ou aprendemos a viver sem (e bem!). Geralmente, o que está em falta não tem na farmácia, no mercado, na ferragem. Livrarias podem ter indícios na mesma proporção que perigos. Se o coração está vazio, que se aprenda a fazer com que ele transborde. Quanto mais temos, mais podemos dar, ainda que ninguém peça. A doação é orgânica. Muitas vezes, fico lendo quem está ao meu lado, seguindo com os olhos, observando os movimentos. Sei que mexe as mãos, juntando os dedos, quando quer explicar o que pensa, que olha para o chão para juntar as palavras, que deixou cair, porque é cauteloso. Aprendo tanto. Olha só, uma vez, ganhei um livro com a dedicatória “que os justos, finalmente, se encontrem”. Entendi o recado nas últimas palavras da última página, fechando a contracapa, aposentando o marcador de páginas. Momentos e livros são melhores compreendidos quando vistos na íntegra da obra. Um capítulo, um frame, pode tirar do contexto toda a moral. Então, que se encontrem os justos, na justa medida dos encontros. Estar com alguém parecido faz convergir os caminhos.

Vamos por Galópolis? Vamos por qualquer lugar, vamos juntos, é o que importa. Curvas e conversas com o chimarrão de ontem, sem água porque esquecemos de encher a garrafa térmica. Encher a vida ocupa bastante tempo. Eu não me enjoo de mim, deu bastante trabalho ser eu, um investimento de longíssimo prazo em permanente construção. Fico alegre em reconhecer semelhanças. Nossos pensamentos são amigos, nossos desejos são entrelaçados. Me surpreendo várias vezes, pensando, com riso escapando no canto da boca, que sorte a nossa. Tive crise de riso, acho que estou rouca de rir. Não é raro. Sou pessoa feliz, repito mil vezes, nasci assim e assim me mantenho. Quando se unem os semelhantes, as virtudes se potencializam. Um puxa o outro para cima, as forças se retroalimentam na mesma direção. A sensação é de paz e potência. A evolução do relacionamento é natural. Há momentos em que nada mais existe além do abraço que eu estou vestindo. A alma grande me seduz. Combinamos em grau e intensidade, pode ser por isso que tão facilmente me apropriei das amizades, já degusto as histórias como se fossem as minhas, “mil gols nestas goleiras”. Abro mais portas do que jamais abri. Somos tranquilos em ebulição. Conversamos com olhares e nos entendemos de olhos fechados. Bem parecidos em coleções de vários tudos. Admiro, sinto orgulho.

Gostei da fala de improviso, a coragem me ganhou, desde antes de entrar em campo no Gauchão. Se inventar de viajar de foguete, risco o palito para acender o pavio. Por falar em assuntos incendiários, me foi pedido para não deixar o fogo morrer. O churrasco já conta com horas de atraso, eu controlo as labaredas. Amo domingo, os ponteiros do relógio amolecem. Busquei mais um saco de lenha. Dentre todas as promessas que eu faço, prometo que, jamais, a chama será branda. Esta é mais uma das nossas felizes coincidências, morno, nem o chá. Concluímos, depois dos quarenta minutos do melhor atraso do mundo, que não sabemos brincar. Minha vó dizia que eu era fogo na roupa. Dizem que isso significa que sou danada. Vai melhorar, também dizem. Sou boa com esse negócio de fogo. Somos. Fogo e paixão. Diário, toca um Wando aí. Fomos num bar de vinhos, saí na contramão. Repito, não sabemos brincar.

Beijos, com raio, estrela e luar, Kuky.



Um comentário:

pontualidade

  Querido diário, adivinha? Sim, vim implicar com a cronologia. Estava quase escrevendo que vim implicar com o tempo. Não é com ele, posto q...