domingo, 5 de junho de 2022

zero cinco zero seis vinte vinte e dois

 

Querido diário, parabéns! Há um ano, eu publiquei por aqui, os primeiros escritos da tua versão digital. Ainda não descobri o tamanho do mundo, sigo atenta às mensagens que o silêncio manda de tempos em tempos, penduro bandeirolas, carrego tralhas nos bolsos, levo sorrisos e meu coração tem soluço. Persisto inchorável (quase), bruta (porém, amável), queridinha (Felipe confirma) e ruiva (não mais tão convicta). A insônia segue pontual, mas o sonho do mergulho no olho castanho está mais raro. Bela e breve retrospectiva. Fiquei sabendo, um pouco antes de vir te escrever, que a tua versão virtual foi um dos fatores responsáveis pelas alegres badaladas do meu coração. Pensava que eram os passinhos, porque levei até puxão de orelhas pelo atraso de uma manhã.

Olha só, estou sem livros inéditos, então, estou relendo os que deixo por perto. Há pouco, li, prestando a atenção que não havia dado na primeira leitura, sobre a corporeidade do amor e a amplitude que toma na vida. Sobre a profundidade do olhar entre duas pessoas, quando uma faz parte da outra. A vida amorosa é a própria vida, sem capítulo apartado, quando o amor é de corpo e alma, integral. Coincidência ou não, escrevi algo bem parecido nas tuas folhas analógicas. Na semana passada, uma leitora muito querida destes escritos, perguntou se acredito que cada panela tem a sua tampa. A resposta é muito mais analítica (barra, filosófica) do que romântica.

Outras páginas repetidas me fizeram pensar sobre o passado. Diziam, em forma de conselho: “não se acostume a acorrentar a sua volatilidade em votos” e que o passado é um teste. De fato, é. Talvez, na primeira vez, eu tenha lido vitalidade, no lugar de volatilidade e a frase tenha me parecido óbvia. Volatilidade. É a mudança, é a transformação. É mais volátil quem tem maior capacidade de evaporar, mudar de estado. Os amigos costumam brincar que eu toco uma fumaça ninja e sumo. Evaporo dos eventos. Ultimamente, evaporo antes de ir. Não é só isso. 

Às vezes prometemos nunca mais fazer tal coisa, por uma experiência desagradável. Ou, prometemos fazer, por um motivo que deixa de existir e persistimos, insistindo na promessa que nos acorrenta, impedindo de ajustar as velas. Se não é naufrágio, é deriva. Qualquer um, não fará bom marinheiro na imprecisão da vida, afinal, só navegar é preciso. Mesmo assim, olha onde foi parar o Titanic. Todas as poucas vezes que insisti por motivos pueris, perdi tempo. Ganhei sabedoria. Foi um teste, não há remorso. Talvez, uma coisinha, cujo nome escutei hoje: arrependimento. Isso é muito humano. Serve para olhar pra frente. Foi um teste. Passei a semana testando ir à academia no final do dia. Não me serve. Preciso começar o dia suando, esbaforida, fazendo força. Claro, deste teste, não me arrependo, mas, não prometo que nunca mais.

Pode ser que algumas convicções e certezas venham dos testes, outras, são de fábrica. Reconheço características que tenho, investigando os porquês, encontro certas respostas. Lembro da infância, marchas com dedo em riste, declarando o que iria ou não fazer. 

Nas tuas folhas, Diário, há poucos figurantes. Raras pinceladas para contar fatos ou discorrer sobre conclusões, possibilidades e análises da minha própria vida. Pitadas de pessoas à gosto. Ou, contragosto. Aí, tu tentarás me corrigir, me pedindo para ler os últimos meses de escritos. Calma, seu folhento, cuida que te faço orelhas! Reforço o que digo agora e o que disse antes, sobre a corporeidade do amor. Segundo parágrafo, volta lá: uma pessoa faz parte da outra, não existe um capítulo a parte. Olha só, se não te destes conta, nem um diário apartado. Surpreso? Impossível desentranhar.

Por isso, agradeço. Sentir amor é subir um degrau para onde o ser humano deve ir, para frente e para cima, ao mesmo tempo. Junto. Juntos, é divino*.

Diário, tua próxima publicação digital vai ser tri importante. No próximo domingo, será dia dos namorados e eu adoro este dia! Namorando ou não (sempre escrevo isso). Estou contando os dias, porque vou ganhar o melhor presente. Óbvio que eu já sei, nem encomendei, mas vou buscar! Confesso um misto de nervoso com cócegas pelo lado de dentro das costelas, taquicardia, impaciência e chiclé de menta. Estou que nem presidiário riscando os palitinhos de dias de prisão na parede do cárcere. Não, não vou a óbito, vou ao aeroporto. Depois, sim, morro de alegria em vida, como sempre, bem vivida.

Beijos, Kuky, riscando mais um palitinho na parede.

 

*NOTA DE RODAPÉ SEM RODAPÉ: Divino, na definição do dicionário, é relativo a ou originário de Deus ou de deuses. Relativo às coisas divinas; sagrado. Que se assemelha a Deus ou a deuses. (Para frente e para cima)

P.s.: A mamãe encontrou a minha pombinha do Espírito Santo, presente da minha Dedé!



4 comentários:

pontualidade

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