quarta-feira, 31 de março de 2021

companhia

 Tem essa mania de andar no banco do carona sem usar o cinto de segurança. Por mais que eu insista, não usa, preciso eu afivelar. Não que tenha zelo pela sua integridade. Não tenho.  


Acorda junto com o meu despertador, suspira sobre os meus ombros, conta as minhas sardas enquanto me estico na cama. Emaranha de propósito meus cabelos para que eu perca mais tempo diante do espelho. Escolhe a minha roupa no armário, faz o desjejum comigo. Detesto quando tenta adoçar meu café. Abro a porta de casa, sai antes de mim. Depois persegue com fidelidade meu perfume pelos corredores.


Pega carona sem me pedir. Insiste em caminhos por onde eu me perco. Uma vez me deixou tão atrapalhada que eu precisava ir ao banco e fui parar na padaria. Eu tenho certeza que é quem esconde as minhas chaves quando estou com pressa. Me chama pelo apelido, força intimidade, me abraça na frente do espelho. Conhece meus gatos. 


Acompanha minha corrida mesmo que eu aumente o percurso. Não cansa com os quilômetros. Não perde o fôlego, não se assusta quando quero ir mais longe, nem quando ameaço perder o rumo. Bebe o chá na minha caneca, escuta as minhas músicas, perturba o meu banho. Não respeita sequer a alvura da espuma na qual mergulho em dias difíceis.


Espia meu peso na balança. Decorou as minhas manias. Debruça-se nas janelas que eu abro antes que a rua possa invadir a casa. Responde quando abano os meus cílios. Escuta meu riso e meu choro ainda que eu faça muda. Rega as minhas sementes. Morre e nasce comigo todas as vezes que eu morro e nasço. Não me estende a mão, busca a minha cintura para comprovar a intimidade. Coloca-se entre o vento e eu quando quero soltar palavras como pipas.


Acompanha os meus gritos, as vezes que eu canto alto, as danças de meia no quarto. Segue a linha dos meus rascunhos, amassa meus esboços, duvida das minhas dúvidas e assina com a minha letra. Mexe nas minhas panelas. Tenta ser gentil. Abraça a minha solidão.


Ausência, que um dia sejas lembrança. 


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