Aprendemos a dizer coisas quando a gente não quer, mas quer, sabe? Ontem assisti a cena. Os atores principais eram adolescentes. Um casal bem bonitinho. Ela era expressiva, tinha cabelo preto, olhos pretos profundos, arredondados, cílios de leque e uma boca de coração. Ele loirinho, cabelos curtos, olhos verdes, sardas, magrinho,com a boca mais fina em cima, alguns tímidos sinais da barba que resolveu esperar um pouco mais para crescer. Ele falava, ela acompanhava a boca dele com os olhos, como se lesse as palavras. Ele estava com o corpo inteiramente virado pra ela. Ela só com a cabeça, às vezes nem isso. Apoiava na parede, olhando pra cima tentando impedir as lágrimas de vazarem dos olhos.
Adoro a adolescência, gostei da minha com todas as minhas mortes quase diárias. Morria do café da manhã até a janta muitas vezes. Morria por amores platônicos, romances seguros e inventados. Falecia por todas as minhas não tentativas. Sofri mais por estes do que pelo primeiro namorado.
O menino estava explicando que não queria namorar, mas de um jeito tão apaixonado por ela que uma hora tentou abraçar. Foi repelido pelos dedos longos dela que depois se dedicaram a secar as lágrimas fujonas. Namorados de dezesseis anos se levam a sério. Deveriam, pelo menos. Ouvi ele explicar para ela que o problema era ele, que não queria namorar, mesmo gostando dela. Ela retrucou dizendo que ele era um galinha, porque se gostava dela e não queria namorar, era para ficar soltando penas pela vida. Ele disse que não. Ela disse que então era porque ele não gostava dela. Ele ficou sem argumento. Omitia a verdade. Tentava se convencer da própria mentira.
Ele gosta dela, esta é a minha sentença. Pelo jeito que tentou um abraço, pelos gestos que tentavam empurrar as palavras, pelo olho que não dava sossego ao contorno doce do rosto dela. Foi atencioso ao retirar um farelo da ponta do nariz dela e um fio de cabelo da boca, preocupado com o conforto das caretas de reprovação.
Meu veredicto é que não se leva a sério, não leva a sério a experiência, não arrisca. Os amigos devem dizer que é bobagem namorar, os pais devem dizer que é muito cedo e ele preferiu não ir atrás do que quer: ela. Não quer estar ao lado de quem gosta. Ainda não aprendeu sobre felicidade.
Impressiona a quantidade de pessoas que conheço dispostas a investirem mais esforço para se manterem afastados de quem gostam do que para permanecerem juntos. É mais fácil administrar as frustrações da distância do que as diferenças da proximidade. As desculpas são variadas: quer investir no trabalho, prometeu passar um tempo sozinho, não está num bom momento. Queria entender, meu Deus, no que a felicidade de estar com quem se ama atrapalha? Em que momento da humanidade instituíram essa bobagem generalizada. “Não é você, sou eu”. Calma. Não é assim. É você e esta ideia maluca que ficar longe do amor é melhor.
Por que admitir que o amor melhora é tão ruim? Por que não se admite mudar por amor? Por que o amor não deve trazer felicidade.
Aquele menino ali, tentando convencer a guria de que ele gostava dela, mas não era um bom momento para namorar. Como saber? Como escolher? Por que não tentar? Ele perderá os estudos para o vestibular na grama dos parques da cidade, os bilhetes no caderno, o cinema na tarde, as brigas por causa do futebol, as contas astronômicas dos telefonemas de boa noite. Não sabem mais viver a adolescência. Já são treinados para o desafeto. Sepultam o amor antes que ele tente nascer. Esquecem que o amor já começou.
E tem gente grande, bem grande, fazendo isso!
Enquanto eu acabava meu café, ela resolveu levantar e ir embora. Ele perguntou alto se podia ligar para ela depois. Ela respondeu que não com o dedinho indicador.
Fiquei sentida por um final que nem começou.
Desligaram o amor. Nem negociaram a conta.

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