quarta-feira, 31 de março de 2021

ano novo (2012)

 A minha casa é cheia de lembranças. Mantém respirando uma porção de passado: a garrafa de cachaça comprada no restaurante feito de osso de baleia, uma foto minha banguela, xícaras que alguém ganhou num bingo, bolachas de cerveja furtadas de viagens, cafeteira com cicatriz, lanterna de barro, boia de navio, talheres de peixe que usávamos nos acampamentos. Casa de praia tem que ter história para contar porque as noites são mais falastronas. Acordo tentando escutar barulho de cigarras, uma vez alguém me disse que era indício de sol e calor. Depois tento escutar o barulho do mar dando bom dia. Onda que quebra na areia é beijo repetido. O mar é fiel ao seu contorno. Não abandona o hábito de esticar a espuma e recolher para repetir eternamente a carícia. E desses momentos guardados, cortados e retalhados é que a vida se faz. Como uma música é o conjunto de notas, como as estrelas desenham a constelação.


Todo ano que termina deixa costurado na vida mais um pouco da história.


O ano que chega traz um baú de expectativas. Nos meus bolsos tenho os desejos que quero coser. Quero a doçura de sorrisos, abraços felizes e dedos entrelaçados. Quero o cheiro de lençol novo na hora de dormir, banhos de chuva repentinos e noites onde a lua cheia parece uma tela de cinema. Quero guardar a maciez do sofá quando as boas conversas inibem os jornais. A angústia de voltar a ler o livro. Quero o chimarrão embaixo da sombra da árvore, viagens planejadas e desplanejadas que saem conforme o caminho aparece.


Eu quero as garrafas de vinho que suspiram inspiração. As caminhadas sem rumo e as corridas sem contar passos. Quero os momentos em que o coração acelera. E os momentos em que o mundo para.


Eu quero cheiro de bolo de domingo, estrada vazia, sol nascente, encontrar um antigo amigo, brincar de pirata, roubar nas cartas e ter infância. Um ano sem infância é inconcebível.


Quero dizer para as pessoas especiais que elas são. Quero o zelo pelo outro, o companheirismo, a fidelidade, a certeza, o sim, a bondade e a educação. Quero ver estampada a fé. Quero a crença da palavra e a atitude da decisão. Quero o momento da água gelada no calor, do afago de surpresa, do vento insistente, de perder o fôlego de rir sem entender a piada. Quero aquelas horas do dia em que tudo é amarelo. Quero despertar emoção, doar a quem precisa, cobrir os pés do meu filho no inverno. Eu quero guardar os momentos em que a mágica acontece no instante da respiração. Quero tocar moeda no poço dos desejos para desejar mais.


Quero um ano que já comece íntimo. Que fique à vontade. Quero costurar na minha vida os retalhos mais doces da memória e as pessoas que eu mais amo.


Que o ano traga a liberdade dos sorrisos. 


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