Talvez seja o amor um beco pintado de amarelo. Talvez seja um poço vazio. Talvez seja o amor uma brisa em tarde de domingo ou um suspiro. Um retrato antigo da infância, um bolo de milho, o pó da estrada, a porta da frente.
Talvez seja o amor essa falta de senso, este excesso de zelo, a cumplicidade, o vapor da água fervendo. Talvez seja o amor a mesa posta, a carta escrita, o verbo dito. Talvez seja o amor uma janela aberta. Talvez seja o amor uma insanidade.
Talvez seja o amor essa combinação rara das cores e as conexões sem sentido. A facilidade para dizer o que o outro diria, para invadir ideias ou dividir a sobremesa e a lua. E a cama. E o dia. Bom dia.
Talvez seja o amor esses momentos, a fotografia da memória, a saudade madura, o segredo das horas, a esticada dos segundos. Talvez seja o amor um rolo de feno, uma pausa no acostamento para dançar de rosto colado, a gargalhada que fugiu. Talvez seja o amor uma rede para dois, o cheiro da chuva, a dedicatória no livro, o sol atrás do morro.
Talvez seja o amor a falta, a incompletude, a ausência. A curva do corpo que se molda à mão. A boca que encontra na outra o seu encaixe. Talvez seja o amor um abraço. Talvez o amor seja o vício. Ou o brilho que ele tem no olho. Ou o sorriso que eu carrego no rosto. Talvez seja o amor o infinito.
Talvez não.

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