Querido diário,
trago o seu amor em três dias. Brincadeira, tu sabes, a minha carreira - nada
promissora - de Cupida foi mais rápida do que um espirro. Dou boas dicas para
relacionamentos entre pessoas, são aproveitáveis, inclusive, para os assuntos
do coração. Por falar nisso, felicitei pelo aniversário com votos de sucesso e
amor. Fui agradecida pela lembrança e pelo desejo de sucesso, enquanto o amor
foi maldito. Existe sucesso sem amor? Amar é próprio do ser humano, assim como
servir. Arriscaria dizer que é o maior projeto do homem. Nem sempre declarar o
amor é dizer eu te amo, às vezes, eu faço um chá com bolo, compro chocolate,
puxo a camiseta para baixo. E, dizer eu te amo pode, muitíssimo bem, ser protocolar,
automático, uma quase um reflexo medular ou um hábito de higiene. É dito da boca
para fora, quando, do coração para dentro, resta, no máximo, uma compaixão, uma
preocupação compreensível com o indivíduo. Às vezes, nem isso.
Diário, lembra
que uma vez, escrevi nas tuas páginas, que eu não tinha a menor ideia de quando
o amor havia começado, só sabia que havia nascido, antes de dizer que amava.
Precisei digerir e assumir, parar meus passinhos (é raro, mas acontece). Olhei para
o momento como um quadro estático. Estava ali, em todas as cores sobre tela.
Pincéis rápidos e la mano de Dios, clicando certo em aplicativos tortos. Um
ano, dia vinte e cinco, assim me contam. Sou bem de acreditar. Este exercício é
necessário, vez que outra: dar um print do momento, é o novo apertar o “pause”
do tempo. Ainda existe videocassete? Dali em diante, foi barbada, saí
prometendo mundos e fundos, a luz do sol em um potinho, fui pendurando tudo no
varal, pintando a boca, tingindo a pele, invadindo a arquitetura, adquirindo
plantas, derrubando sorrisos, abraçando os amigos, compartilhando a família,
confessando manias, colecionando o pó das estrelas e lendo vorazmente.
O maior eu te
amo que eu já disse foi “eu aceito fazer planos contigo”. O mundo parou para eu
subir, porque estava em outra parte da existência quando percebi as palavras
que saíram da minha boca. Diário, não sou a melhor criadora de planos, meu
dragão é melhor (mal)criado. Posso aderir aos planos alheios, transformá-los em
meus. Muito meus, tanto, que acreditaria fácil que foi ideia minha. Viu como eu
sou bem de acreditar? Vou voltar para o projeto e a natureza humana. Para um
bom resultado, quando surgem desafios, análise e planejamento são bons
ingredientes. Já viu construir uma casa sem a planta? Sem o cálculo da
fundação? É ver antes do existir. Tudo já está no mundo das ideias, lá ficará
sem a execução. Intenção e ação. Podem vir as reformas depois, a mudança no
projeto, o rombo no orçamento. Cada tijolo é importante. A planta é o plano, o
projeto, mapa da ideia, que partirá de uma instalação real e concreta, a fundação
de sustentação, que é a pessoa. Amar alguém tem total relação com o interesse e
o envolvimento com o plano do outro. Ao fim e ao cabo, é o núcleo, caso
contrário, estará se coisificando o outro. Importar-se com o projeto. Importar-se
com o desafio. Este é o interesse pelo outro ser humano, chave das relações.
“Somos heróis, combatemos sempre
por algo distante e pisamos belas flores pelo caminho”, a frase é de Ortega y
Gasset.
Olha só, lembro
direitinho de uma conversa, ano passado, estava saindo do trabalho, primavera, escurecia
mais tarde. Trocando áudios sobre o Grêmio, amenidades e trabalho. Falei sobre
uma ideia, juridicamente, brilhante (pelo menos para mim, que vivo entre tapas
e beijos com o processo), a resposta foi: “guria, nós fazemos uma dupla
perfeita, juntos, somos imbatíveis”. Visionário. Inteligentíssimo. Admiro
intensamente com explosões de orgulho. Descobri há pouco, que anda de um jeito
diferente pela sala quando se irrita. Não comigo, porque eu sou uma gracinha.
Não sou fluente em ser detestável. Conheço o idioma o suficiente para colocar
no currículo sem mentir.
Eu me considero
uma pessoa forte, não desde sempre, mas, já há algum tempo. Admito um lapso de
amnésia temporária. Tenho me tornado cada vez mais forte e tenho a convicção
que isso acontece em mão dupla, como ele mesmo disse, imbatível. Compartilhamos
de bom ânimo. Sempre tenho mais uma coisinha para aprender prestando atenção
nas leituras e nas palavras. A vida nos faz alguns vestibulares, nos quais não
podemos chutar. Não há decoreba, fórmula, musiquinha ou estudo, é pura
sabedoria. Sábado, a aula foi linda, recheada de informações importantes para
guardar para sempre. Base, direção, projeto. Mais um tantinho de disposição. O
que torna uma pessoa interessante, não é o que fala, é a maneira como ela se interessa.
Isso, sim, cria vínculo, identificação e solidifica relacionamentos – de amor
ou não.
Beijos afônicos, Kuky.
P.s.: Estou
perebenta, eu que sempre me vangloriava de não ficar doente, nem que a vaca
tussa, fui abatida por vírus, bactérias e sei lá mais o quê. Tossi por todas as
vacas que já conheci na vida, de quatro ou duas patas, em forma de churrasco ou
não. Ponto, nova linha. Vamos muuu-dar de assunto.
Ler o q vc escreve é um aprendizado
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