domingo, 17 de julho de 2022

aterrissagem


Querido diário, o Duca tirou um notão no teste de matemática. Dedicou tempo, teve muita coragem de mudar os hábitos para melhor. Veio a recompensa. Boa intenção, bons meios, bons resultados. Estou orgulhosa. Sorrisos que estão brotando, naturalmente, fáceis, estão enchendo meu coração de satisfação e alegria. Se, antes, encontrava pequenos olhos de noite, desconfiados; agora, fogem as estrelas do céu, brilhando em constelação de peraltice e inteligência. Um humor delicioso, com pimenta e doçura, idêntico ao que ganhou a minha atenção.

Diário, acredito que a aspereza da última semana tenha sido diluída pela chuva. Quando o céu quer tocar o solo, derrete as nuvens. Quando eu quero, ando descalça. Meu pai me mandava caminhar de pés descalços (y de sueños blancos) na grama, sempre que eu estava meio... digamos... elétrica? Boa palavra, porque chegava a queimar lâmpadas, cafeteira, chuveiro e torradeira numa mesma semana. “Tira os sapatos e dá uma volta pelo jardim.” Obedecia. Resolvia de verdade, eu dava menos choque. Às vezes, esta conexão com a terra ajuda a equilibrar, descarrega, aterrissa. Nem sempre com trem de pouso, pode ser na base da barrigada, pouso forçado. Acabei me habituando, nem lembro de apertar o cinto.

Acho que eu não sei xingar. Nem brigar muito. Olha só, eu já morri muitas vezes sem que ninguém soubesse. É muito tolo pensar que o ser humano seja apenas matéria, esta outra parte que me compõe já teve frações que não existem mais. Outro dia, conversava sobre isso com um amigo que passou dez anos amando uma mulher e, quando, finalmente, ficaram juntos (outra vez), ele arrumou trezentos motivos (bem bobos) para que não desse certo (que besta!). Agora, ela está namorando um cara bacana e ele, jururu. Escutei pacientemente, até o momento que perguntou: e se ela for a mulher da minha vida e casar com outro? Respondi: vocês vão viver. Claro, segurei a língua para não falar o que pensei na hora, embora ele saiba. Diário, é fácil encontrar motivos para descartar a alegria em nome das dúvidas. As palavras tiveram um duplo sentido, óbvio. Viverão, sendo ou não o amor da vida. Juntos ou não, agora, depois, nunca mais. Tome um gole de água com a pílula da realidade, ela é um tantinho graúda, fácil trancar na garganta. Vão viver, seja o amor entre os dois juntos, separados, em forma de lembrança. Viver em vontade, em pensamento, em desejo, na forma puramente platônica. Ou, esta parte será velada e sepultada, para que se vá adiante. Isso é fluxo, a constância. Pode não ser fácil, nem indolor. A caneta está entre os nossos dedos até que a tinta termine.

Diário, amar é pura realidade, presença constante e muita inteligência. Indispensável ancorar na terra, ter estabilidade, ser receptivo no alto grau, generoso com o outro. Eu fico bem intrigada com isso, serve para todos os amores. Agora, estou falando do amor romântico. Palavras da madrugada, entre terça e quarta, colaboraram com a chuva para diluir a aspereza. Mais do que isso, me fizeram aprender. Organizo meus dias, sempre com espaço para receber algo que não sei ou entender o que não havia percebido. Geralmente, é na hora da meditação. Desta vez, foi uma surpresa, que talvez, nem seja lembrada por quem falou. Na garagem do shopping, tema de casa para pensar. Perguntas que eu ainda não havia respondido, sem alternativas, prova surpresa. Por isso, não se ama quando se é idiota. Se ama quando se compreende que é indispensável estar disposto, disponível, desperto, forte, esperto, leve, presente. O amor precisa de inteligência e atenção. Quem não se interessa pelo outro, será sempre um egoísta solitário e desinteressante, emaranhado no próprio ego frágil. Eu estive pensando sobre o amor e se penso, logo, não resisto. Amo mesmo, gosto e digo. Isto me fortalece. Tocar a terra e estar no céu. 

O amor é mais trabalho da alma e do espírito do que do próprio corpo (ainda que ele seja deliciosamente útil). Suave, rebolado de onda, brisa que desloca a nuvem, raio de sol entre as folhas das árvores. Chego a ronronar. Lembrei de um texto que escrevi sobre as desculpas que eu não peço, tinha duplo sentido. Mariana me fez recordar um outro texto, escrevi “talvez seja o amor um beco pintado de amarelo. Talvez seja um poço vazio.” Não tinha sentido. As coisas, simplesmente, são o que são, sem culpa alguma.


Beijos, com amor, sendo bem Kuky, aquela que desenha corações no espelho embaçado do banheiro.

Um comentário:

  1. A mais inteligente que eu conheço. Tu é poesia sem
    Escrever poesia.

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