Vejo gente com olhar perdido no metrô e concluo que é paixão. Olho no vazio, coração cheio. Apaixonar-se é bom. Desde aquela paixão pateta de adolescente até a paixão que dói. É bom quando o pensamento é invadido no meio da tarde por alguém que pula o muro das tuas ideias. Você está ali, contando os prazos com a ponta da caneta no calendário, um, dois, três, quatro... Aquele casaco que ele tem de quatro botões. Ou está procurando a pasta de capa azul onde estão os documentos importantes. Azul? Estava tudo azul. E sim, Adão e Eva no paraíso para não deixar passar a música, a lembrança infame. A coisa toda merece ser um pouco brega.
Porque o amor é brega. Defendo que é. Defendo mais, que assim que é excelente.
Apaixonar-se é bom, é a fuga rápida do mundo real. Não, a calçada não é feita de basalto, é algodão doce. Fechar os olhos é um encontro rápido, colocar a caneta na boca é confissão fálica, esfregar uma mão na outra, ih... É grave. É paixão das boas.
Soltar o cabelo porque ele gosta assim, usar os brincos compridos porque ele elogiou, beber o chá que ele gostou, passar na frente da casa dele porque alguns encontros casuais precisam de ajuda. Viver uma paixão é estimular o cérebro, desdobrar o coração. Estar apaixonado é sentir uma felicidade aparentemente sem explicação. É uma mistura de desejo, com expectativa e gotas de frio na barriga. É ficar ofegante com a proximidade, mandar o telefone tocar, mandar mensagem para avisar que choveu.
Eu vivo apaixonada. Minha paixão é a mais nova professora, me ensina a nova caligrafia, corrige meus borrões, ajusta meus garranchos, perdoa meus desenhos.
Suspiro sossego.
Vivo intensa.
Amo com paixão.
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