domingo, 28 de junho de 2020

fábrica de memórias



A maior virtude do passado é se transformar em lembrança. Viajar para outro tempo usando a cabeça, ter o coração como bagagem e ficar hospedado em alguma memória sem hora marcada de ida ou de volta. Um passado que volta sem ser convidado. Cheiro de rosa me leva pra casa antiga da minha avó. Lá, tinha uma varanda que servia de palco, a cristaleira com espelho no fundo deformava a imagem, banheira branca de louça, bacia de alumínio e capim cidró. Bolo de milho e café preto têm gosto de infância. Garopaba me lembra meus pais. Caderno novo, primeira série, mesmo depois da faculdade.

A lembrança é uma flor que nasceu fora de época.

Em tempo que já passou, não se mexe. O que foi está junto com quem fomos. Lembrar é um exercício de assistir ao filme que não existe, mas nós fizemos. O que passou e fez rir, o que passou e fez nascer tristeza, cicatrizes e esquecimentos propositais fazem parte dos tijolos da nossa estrutura. Sim, somos, além de sonhos e desejos, lembranças. A memória pinta postais de saudade.

O tempo que foi acena de onde está. Nem toda a lembrança é de alguma coisa que nos faz falta. Há o que faz muito bem em ficar no que foi. E que jamais volte. Há memórias que trazem ensinamentos, escrevem tratados sobre o que não deve acontecer, ou voltar a acontecer. São os calos dos pensamentos, onde apertam os sapatos. Entre choros e risos, todos sobrevivem. A saudade abre a cortina da memória, a paisagem não é bonita nem feia. É nossa.

Ter história é prerrogativa de quem vive. Felicidades, tristeza, desilusões, surpresas, medos, essas tatuagens invisíveis que só quem tem sabe onde está. Viver é ato mágico. Ter a sensibilidade de admitir que pequenos milagres acontecem e poder colecionar-los nas lembranças é sensação divina. Levamos a rotina tão a sério, apressamos nossos ponteiros, empilhamos sentimentos, misturamos urgências no nosso café da manhã. Andei preocupada com as lembranças que vou ter daqui a algum tempo. Não quero ser do tipo que guarda recordações apenas na infância. Quero a infância do pensamento até a morte. Preciso lembrar do sorriso do porteiro ao dar bom dia, da gentileza do senhor que abriu a porta, do carinho dado sem querer.

Prefiro lembrar um pouco de cada dia. Por isso, em cada dia deixo tempo para nascerem minhas futuras lembranças. Quero sentir saudade daqui a uns dias de um abraço repetido na semana passada, de um olhar tímido e da minha vergonha. De aplaudir o alface e rir das angústias amorosas das amigas, de fazer piada com o que não devia. Lembrar que quase perdi o ar de rir de bobagem.

Não posso esquecer as recomendações que me fazem. Não que sejam necessárias, mas gosto de colecionar. Zelo e amor são melhores amigos. No meu diário invisível, há linhas para a vida toda. 

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