quarta-feira, 31 de março de 2021

Coisa bem feia é joelho. Não me afeiçoa a palavra, nem a parte do corpo, em que pese reconheça a importância. Tanto reconheço, que se eu jurar algo pelos meus joelhos, será verdade. Justifico: me falta a memória para lembrar quando a expressão surgiu, talvez, nos idos de 2010. Acho. Eu fui muito dramática em 2010. 


Pode ser que, embalada por um café passado, quase frio e sem açúcar, não menos amargo que a pauta da conversa com um amigo, tenha surgido a dúvida sobre algum sentimento que profetizei.  


“Jura" - ele deve ter perguntado. 

“Pelos meus joelhos, juro pelos meus joelhos!” - lembro de ter respondido. 


Os joelhos são feios e úteis. São complicados e importantes. Entre o fêmur, a tíbia e a fíbula; colaterais, cruzados e meniscos. É como o amor. Entre o eu te amo, a entrega e a vida; medos, expectativas, preservação. 


Por que as crianças estão sempre com os joelhos ralados? Porque são destemidas. Até que se abra o primeiro corte, que se faça a primeira cicatriz. Até que o pai advirta.  E, como é uma parte que mexemos o tempo todo, demora um monte pra sarar. Sempre tem aquela tia que diz que quando casar passa. 


Aliás, pedidos de casamento são feitos de joelhos. Assim como rezas, pedidos de perdão, cerimônias da liturgia cristã. 


Na acupuntura, os joelhos têm pontos importantes relacionados com a vesícula biliar. Ontem, ouvi um relato sobre uma dor incurável no joelho, cujos tratamentos não surtiam efeito algum até o diagnóstico de pedras na vesícula. Com o tratamento adequado, se foram as pedras e o incômodo no joelho. A vesícula é responsável por desintoxicar o organismo. Todas as toxinas de gorduras solúveis no nosso organismo são quebradas pelo fígado e excretada na bile. Eu sou péssima em fisiologia, mas já li em algum lugar que a vesícula biliar e o músculo poplíteo estão conectados por um dos meridianos. 


Diz o Nei Ching – o livro clássico do imperador amarelo, que a vesícula biliar rege as decisões. Então, a indecisão prejudica os joelhos. Por isso, jurar pelos joelhos é honesto. Jurar pelos joelhos, ainda que eles sejam feios, é atestar a certeza. 


Com exceção da feiúra, os joelhos são como o amor. 


Juntam-se os medos, as preocupações, os desejos e os sentimentos. Dói a articulação, se apela à medicina. Raio X, ressonância, densitometria, cirurgia, fisioterapia. A dor de amor é um pouco mais complicada, se recorre ao chá, ao Rivotril, ao vinho, ao Plasil, às amigas, à poesia, à Turma do Funil, ao ex, ao WhatsApp, à cartomante, à astrologia e à moedinha do cara e coroa. Nada resolve. O risco é mais um tombo e uma nova cicatriz. Onde? De preferência nos joelhos. Se não for fatal, pelo menos é poético. 


Se for fatal, que seja eterno. 



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