Descobri, recentemente, um livro português que falava sobre psicologia e puberdade. Meu filho ainda está longe dessa fase, li rapidinho a versão eletrônica por pura curiosidade com o nome “a idade do armário”. Os portugueses chamam assim a fase da puberdade. Uma das justificativas do livro é, que nessa idade, em que a criança não é mais criança, nem um adolescente, muito menos um adulto, é – sim – qualquer coisa parecida com um extraterrestre. Assim sendo, os pais sentem vontade de prender o pobre esquisitinho dentro de um armário até que passe. Confesso que na minha puberdade não acharia má ideia.
A explosão de hormônios que começa na puberdade só estabiliza quase no final da adolescência, quando o ser pode "sair do armário" e, com proporcional autonomia, decidir seus rumos. Assumir os riscos e as consequências das escolhas.
Na minha antiga casa, tínhamos um armário embutido no qual guardávamos toda a confusão da casa. E também qualquer resto de qualquer coisa que se pudesse precisar a qualquer tempo, leia-se, tralha. Minha irmã e eu inventamos que lá dentro morava o monstrinho da família. De uma certa maneira, não era mentira. Toda a família deve ter um lugar para guardar a desorganização, apenas para tentar organizar. É saudável.
O armário é um lugar mágico. Há quem considere terapêutico organizar closets ou guarda-roupas. Tenho pavor desta terapia.
Prefero que as roupas e sapatos fiquem à vontade, ocupando o lugar que desejassem. Sem traumas. Volta e meia preciso de um cinto, encontro dentro de uma bolsa. Quero uma calcinha, ela está pendurada em um cabide. O meu armário não é badernado. É exótico. É alternativo. É lado B.
Dentro do armário guardamos nossos segredos, nossos monstrinhos, nossos defeitos, aquelas confusões particulares, nem que seja numa caixinha dentro da gaveta das meias. Quando Van Gogh pintou “Quarto em Arles”, retratou nas suas vírgulas a ausência do armário. Algumas peças de roupa estavam em cabides na parte de trás da cama. Não me surpreende que tenha sido reincidente em suas internações psiquiátricas. Negar nosso espaço de desordem não significa não ter.
Ignorar os grilos não faz com que sumam.
(cri cri cri)
Sempre fui repreendida por deixar as portas do armário abertas. Minha teimosia em não fechá-las é a minha falta de talento para esconder meus grilos, defeitos e monstrinhos. Veja pelo lado bom, meu bem, não guardo segredos! Meu armário é minha vida de portas abertas. A mulher que deixa as portas dos armários abertas, escancara a sua história. No meio das roupas bagunçadas, se mostra nua de qualquer pudor.
Não recebo visitas dentro do armário. Quando a moça da faxina veio, na semana passada, fechou todas as portas. Um protesto velado! Ela sempre faz alguma observação sobre a minha maneira exótica de guardar as roupas. Quando abri, não encontrei lá dentro meus monstros, grilos ou segredos.
Encontrei o gato Tobias sonolento no meio da baderna!
(original publicado em 2015)

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